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Você é livre?

Por Dom Rubens Sevilha, OCD, bispo de Bauru

Se você entende a liberdade como poder fazer tudo, exatamente tudo, o que quiser, então já percebeu que você nunca será totalmente livre. Neste mundo não existe liberdade plena, somente liberdade condicional. Todo ser humano, do ventre materno ao túmulo, vive uma espécie de prisão domiciliar existencial. Você não escolheu o país ou a data do seu nascimento. Não lhe foi perguntado se queria nascer homem ou mulher, não lhe foi dada a opção de escolher em qual família gostaria de nascer, qual nome teria etc.

Além de fatores externos, somos também condicionados por fatores internos: não decidimos sobre a quantidade de inteligência que temos, sobre as características inatas da alma e do corpo, não temos controle sobre a maioria dos acontecimentos que acontecem ao nosso redor e temos que conviver com a imprevisibilidade das ações e decisões, boas ou ruins, das pessoas que aleatoriamente vão fazer parte da nossa vida. Ampliemos tudo isso na macro esfera da história e dos relacionamentos sociais e teremos ainda menos liberdade. Enfim, nossa liberdade é bem limitada. Como sair dessa prisão?

Só em Deus podemos alcançar alguma liberdade. Sem a fé, o homem estará fatalmente encarcerado na solitária prisão de si mesmo e das suas circunstâncias, e teremos uma sociedade formada por prisioneiros sonhando fugir da prisão e, ao mesmo tempo, todos sendo carcereiros uns dos outros.

A fé liberta o homem de si mesmo e o amplia infinitamente, colocando-o à altura de Deus. Somente Deus é livre e o homem só terá alguma liberdade na mesma proporção da sua união com Deus. O homem deverá escolher entre ser dependente de Deus e tornar-se livre, ou orgulhosamente apoiar-se em si mesmo e tornar-se prisioneiro do seu egoísmo e presa fácil do mundo enganador. A nossa liberdade não é plena, pois não somos deuses.

O nosso mundo está em crise pois, cada vez mais, está composto por pessoas escravas de si mesmas e das suas circunstâncias. Somente pessoas livres conseguirão construir uma sociedade fraterna e justa. Rejeitando a Deus, o homem elege a si mesmo como origem, meio e fim de todas as coisas e, consequentemente, temos uma legião de “deusinhos” enfrentando, desesperadamente, uma titânica luta diária entre si. Cada um procurando derrubar o outro do seu pedestal fictício para poder auto afirmar-se, ou fugir medrosamente das suas ameaças, tornando-se prisioneiros de uma eterna competição imaginária. O resultado final será o desejo de destruição do outro (agressão) ou destruição de si mesmo.

O homem de fé é livre e feliz, pois sabe-se criado amorosamente por Deus e que Ele conduz a história e que somos todos colaboradores d’Ele na construção do mundo novo (Reino de Deus). Todo ser humano é nosso companheiro na construção do mundo novo que começa nesta vida e terminará na eterna Pátria Celeste onde, de fato, seremos plenamente livres e felizes. Os sofrimentos e os erros fazem parte do itinerário da construção do Reino de Deus, e o Senhor sabe disso e Ele está sempre pronto para nos perdoar, confortar e, através de nós e apesar de nós, continuar a realização do seu misterioso projeto de amor para a humanidade toda e para cada um de nós em particular.

Enfim, ser livre é ser bom e fazer o bem. Liberdade é sinônimo de bondade e maldade é sinônimo de prisão. O amor verdadeiro liberta e o egoísmo escraviza. Afinal, “foi para a liberdade que Cristo nos libertou” (Gal 5,1).

O artigo foi reproduzido com autorização do autor. O texto foi escrito para o jornal JC. 

 

 

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