Uma reflexão sobre as manifestações públicas de fé à luz da espiritualidade de Corpus Christi.
As ruas sempre tiveram um significado especial para a experiência religiosa. Foi pelas estradas da Galileia que Jesus caminhou com seus discípulos; foi pelas ruas de Jerusalém que entrou, aclamado pela multidão. Ao longo dos séculos, os cristãos continuaram saindo de seus templos para manifestar publicamente a fé. Isso acontece por meio de procissões silenciosas, romarias ou grandes concentrações populares, acompanhadas por música, pregações e estruturas preparadas para acolher multidões.
A questão, portanto, não é se a fé deve ocupar as ruas, mas quem ocupa o centro delas.
Quando multidões se reúnem em nome de Deus, quem está sendo procurado ou exibido? Quem recebe os aplausos? Quem concentra os olhares? Quem permanece no centro do evento?
Toda manifestação pública de fé carrega consigo uma beleza e um risco. A beleza está na coragem de testemunhar, diante de todos, aquilo em que se acredita e se celebra no templo. O risco está na possibilidade de que, pouco a pouco, aquilo que deveria apontar para Deus passe a apontar para os homens.
Isso não acontece de forma repentina; muitas vezes, instala-se quase sem ser percebido. Os discursos ganham mais espaço do que a oração. As lideranças tornam-se mais visíveis do que a mensagem. Convicções ideológicas passam a despertar mais interesse do que a conversão do coração. Aos poucos, aquilo que nasceu para anunciar Cristo começa a girar em torno de outros interesses, e os fiéis passam a ser tratados como eleitorado.
A presença de autoridades civis em eventos religiosos não é, em si mesma, um problema. Governantes, parlamentares e líderes sociais também possuem sua fé e têm o direito de professá-la publicamente. A questão surge quando a atenção da multidão se desloca daquele que deveria ser o centro para aqueles que ocupam posições de destaque.
Nesse momento, a religião corre o risco de se tornar palco, e a fé, de servir a interesses que lhe são estranhos.
Essa tentação não é nova. O próprio Evangelho relata que, depois da multiplicação dos pães, a multidão quis fazer Jesus rei; Ele, porém, retirou-se sozinho para a montanha. Jesus nunca recusou as multidões, mas recusou ser transformado em instrumento de poder. Seu caminho não passava pela busca de influência, mas pela fidelidade à vontade do Pai e ao projeto do Reino, que não se realiza plenamente neste mundo.
Corpus Christi e o verdadeiro centro
É justamente aqui que Corpus Christi oferece uma imagem singular.
Também nessa celebração a fé sai às ruas. Também nela milhares de pessoas se reúnem. Também nela podem estar presentes autoridades religiosas e civis. Contudo, existe uma diferença fundamental: ninguém disputa o centro da procissão. Todos caminham atrás de Alguém.
O centro é ocupado pelo Cristo Eucarístico.
Uma pequena hóstia consagrada, quase invisível aos olhos acostumados aos espetáculos da grandeza humana, torna-se o foco de toda a celebração. O bispo caminha atrás dela. Os sacerdotes caminham atrás dela. As autoridades caminham atrás dela. O povo caminha atrás dela.
Em Corpus Christi, ninguém é a atração principal; todos se tornam acompanhantes da passagem do Senhor.
Ao final da procissão, os tapetes desaparecem, as flores começam a murchar e as ruas retornam à rotina. Os enfeites são recolhidos. O que parecia grandioso aos olhos humanos revela-se passageiro. Mas Aquele que caminhou sobre tudo isso permanece.
Aqui está o essencial: uma lição para toda manifestação religiosa. Quando Cristo ocupa verdadeiramente o centro, os homens não precisam disputar os holofotes.
“É necessário que Ele cresça e eu diminua” (Jo 3,30).
Talvez essa seja a pergunta que toda manifestação pública de fé deveria fazer a si mesma antes de ocupar as ruas:
Estamos ajudando Cristo a crescer ou estamos procurando crescer em seu lugar?
Dom Devair Araújo da Fonseca
Bispo da Diocese de Piracicaba


