Sinodalidade: a força de uma Igreja que escuta
Quando a Igreja no Brasil aprovou as novas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora, não estava apenas concluindo mais um documento pastoral. Na verdade, colhia os frutos de um dos maiores processos de escuta da história recente da Igreja. O pano de fundo dessas Diretrizes é, sem dúvida, o Sínodo sobre a Sinodalidade, convocado pelo Papa Francisco — um acontecimento que, depois do Concílio Vaticano II, talvez tenha sido o mais amplo exercício de participação e discernimento eclesial já realizado.
O Papa Francisco insistia frequentemente em uma expressão simples e provocativa: “todos, todos, todos”. Não se tratava de um slogan, mas de uma convicção profundamente evangélica. O caminho sinodal procurou envolver comunidades, paróquias, movimentos, dioceses, conferências episcopais e até mesmo pessoas que habitualmente não participam da vida da Igreja — as periferias existenciais. Milhões de pessoas, em diferentes continentes, tiveram a oportunidade de expressar suas alegrias, preocupações, esperanças e desafios. Mais do que produzir documentos, o Sínodo procurou ensinar a Igreja a escutar novamente.
É justamente aqui que encontramos uma das chaves mais importantes para compreender as novas Diretrizes. A palavra decisiva não é planejamento, estrutura ou estratégia. A palavra decisiva é escuta.
Naturalmente, alguém poderia pensar que a escuta é apenas mais um método pastoral. Porém, a tradição cristã nos mostra algo muito mais profundo. A escuta não é um método entre outros; é o método da Igreja desde suas origens. Antes de decidir, a Igreja escuta, para poder discernir. Antes de indicar caminhos, busca reconhecer a voz do Espírito Santo, que continua falando ao seu povo.
Foi assim no primeiro grande momento sinodal da história cristã. Diante das tensões que surgiram na comunidade nascente, os Apóstolos e os anciãos reuniram-se em Jerusalém para discernir o caminho a seguir. O relato dos Atos dos Apóstolos mostra uma comunidade que escuta as experiências missionárias de Paulo e Barnabé, escuta os argumentos dos diversos grupos, escuta as Escrituras e, sobretudo, procura escutar a ação do Espírito Santo. Por isso, ao final do encontro sinodal, puderam afirmar: “Pareceu bem ao Espírito Santo e a nós” (At 15,28). A decisão nasce da escuta.
Talvez essa seja uma das contribuições mais valiosas da sinodalidade para os nossos tempos. Vivemos em uma sociedade marcada por profundas transformações, na qual há muitas formas de comunicação, mas pouca escuta. Nesse ambiente, cresce a polarização, que dificulta o diálogo. As redes sociais multiplicam opiniões, mas nem sempre favorecem a compreensão. Muitos jovens manifestam dificuldade em encontrar sentido para a vida. As famílias enfrentam novas formas de pressão cultural e econômica. A pobreza continua ferindo a dignidade de milhões de pessoas e ampliando as desigualdades. A crise ambiental recorda que a criação também tem um clamor que precisa ser ouvido; a Casa Comum dá sinais de sofrimento. Nesse mesmo contexto, aumenta o número daqueles que se afastam das comunidades e já não encontram na experiência religiosa respostas para suas inquietações.
Diante dessa realidade complexa, a tentação imediata seria responder com soluções rápidas ou receitas prontas, que funcionaram em outro tempo histórico. O caminho sinodal propõe outra atitude. Antes de oferecer respostas, é preciso escutar as perguntas. Antes de formular estratégias, é necessário compreender as pessoas de hoje. Antes de defender posições, é indispensável acolher histórias, sofrimentos, buscas e esperanças cotidianas.
As novas Diretrizes da Ação Evangelizadora refletem exatamente essa convicção. Sua recepção será fecunda na medida em que ajudar nossas comunidades a renovar e cultivar uma espiritualidade da escuta. Não é suficiente estudar o texto, nem elaborar subsídios pastorais. É preciso reproduzir o método que deu origem às Diretrizes. Cada paróquia, comunidade, pastoral e movimento pode perguntar-se: quem ainda não estamos escutando? Quais vozes permanecem à margem de nossos processos pastorais? Que clamores do povo chegam até nós? O que o Espírito Santo está dizendo à Igreja por meio da realidade concreta de nosso tempo?
Receber as Diretrizes de forma criativa significa transformá-las em uma oportunidade de renovação da cultura eclesial. Talvez o maior fruto do caminho sinodal não seja um novo conjunto de atividades, mas uma nova maneira de caminhar juntos: uma Igreja que escuta mais do que fala, que acolhe antes de julgar, que discerne antes de decidir, que procura reconhecer a ação de Deus mesmo onde não esperava encontrá-la.
A sinodalidade não é uma moda passageira, nem uma novidade pastoral ou administrativa. Ela recorda algo que sempre esteve presente na Tradição da Igreja: Deus continua falando ao seu povo. Por isso, a comunidade cristã precisa permanecer constantemente em atitude de escuta — escuta da Palavra, dos irmãos e dos pobres; atenção aos sinais dos tempos e ao Espírito Santo.
Somente uma Igreja que escuta poderá anunciar com credibilidade o Evangelho em nosso tempo. E talvez esta seja a grande contribuição das novas Diretrizes: recordar-nos que o ato de evangelizar começa, antes de tudo, pela humilde disposição de ouvir.
Dom Devair Araújo da Fonseca
Bispo de Piracicaba


