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O significado do Natal

Parece ser fácil falar do “significado” do Natal. Na realidade não o é! Pois, ao falar do “significado” há uma questão fundamental, a saber: o significado sou eu que o dou (o projeto, o atribuo, o acho…), ou antes, o “significado” eu o recebo (o busco, o acolho, sou surpreendido por ele…) como um desvelamento do Natal, ele mesmo?

A questão não é secundária, pois no primeiro caso, o “significado” é irrelevante, ligado à subjetividade de uma pessoa ou de um grupo ou de uma época…, é um ponto de vista; bom para quem o tem! No segundo caso o “significado” é importante, pois é o próprio Natal que vem a mim e me fala de sua significação. Com isso, deixa de ser um ponto de vista para ser o “aletheia”, isto é, o vir à luz, o manifestar-se do Natal por si mesmo, isto é, a “verdade” do Natal.

Mas o que determina esta diferença de postura diante do “significado” e, portanto, diante do Natal? É “existência” de cada um, isto é, a história que cada um é, o que cada um fez de si próprio ao longo de sua vida cronológica.

Para o “cristão”, isto é, para a pessoa que, ao longo de sua vida cronológica, a partir de um toque divino que não é negado a ninguém, buscou fazer de si um aprendiz-seguidor de Jesus Cristo, o Natal é a celebração de um evento, e este evento é uma pessoa, Jesus Cristo.

Há pessoas para as quais Jesus Cristo não significa nada; há pessoas para as quais Jesus Cristo não diz muita coisa, mas que no Natal se sentem convocadas a engajar-se em ações de solidariedade; há profissionais da religião que inoculam nas pessoas uma suave dose de veneno, afirmando, com não muita sabedoria cristã, que o Natal não tem fundamento bíblico; há também uns poucos que se irritam com as festas do Natal, causa de tédio, de bondadezinha insossa, de alienação coletiva…

Mas há pessoas para as quais Jesus Cristo é tudo, para as quais Jesus Cristo é presença toda singular de Deus entre nós; um Deus que, antes (mas também!) de querer nos elevar à grandeza divina, “assume”, torna sua a natureza, a existência humana! E a “redime”, isto é, a reconduz à sua beleza, nobreza e grandeza original. Esta Presença se manifestou a nós como aquele que é humano como nós e divino como Deus: rosto divino do homem e rosto humano de Deus.

Estes para os quais Jesus Cristo é tudo somos nós, os “cristãos”, os seguidores dele, os discípulos, os que têm fé católica nele; os que, entre mil dificuldades e fragilidades, buscam conhecê-lo e amá-lo, buscam seguir seus passos e tê-lo como Senhor.   Natal é um evento que não é passado; ele tem sim uma face (a cronológica) ligada ao passado, mas ele vai além: é doação livre e amorosa de uma Presença que está além e é senhora do tempo: Deus. Pouco importa se este nosso Senhor nasceu cronologicamente no dia 25 de dezembro do tal ano ou em qualquer outro dia e ano. O que nos importa é que nasceu um dia e que este dia se tornou especial para nós, dia que convencionalmente celebramos no dia 25 de dezembro. Muito mais que cronológico, o Natal é “histórico”, isto é, é presença permanente e eficaz que ao longo de dois mil anos moldou pessoas, povos, culturas e civilizações.   O que nos importa é que no nascimento desta Presença se manifestou o amor de predileção de Nosso Deus e Pai, que ama por primeiro, tanto e tão intensamente de se engajar pessoalmente na nossa aventura humana. Por causa da grandeza deste mistério somos tomados de profunda reverência, que nos põe de joelhos em adoração. Qual o significado do Natal? Cada um colhe o que semeou e semeia.

Para nós, que buscamos crer, o Natal é a recordação do Encontro entre o divino e o humano, evento que nos traz imensa alegria e gosto para a nossa própria vida. Uma alegria tola, simplória, ingênua, infantil? Não. É a alegria de quem percebe, pelo Natal, a bondade, a benignidade, a simpatia, o cuidado humilde e terno de Deus para com o ser humano. Em contrapartida há o tédio de uns poucos (ma nem tão poucos) que veem o Natal como fábula (e o dizem!), como historieta que gerou, tão estranhamente, esta alegria generalizada, para eles sim, tola, simplória, ingênua e infantil. É o tédio de quem não conseguiu ir além do próprio horizonte, infelizmente sempre pequeno e às vezes amesquinhado; de quem não conseguiu abrir-se a um horizonte novo, imenso, grande e bom.

Celebrar o Natal é celebrar com otimismo o fato de sermos seres humanos; é assumir o viver humano como um viver no qual é possível fazer uma história grande e nobre, divina. Celebrar o Natal nos traz profundo e radical respeito para toda vida humana; nos empurra a reconhecer a grandeza humana presente nos outros, com os quais passamos a ter um relacionamento não de estranhos, mas de irmãos.

Mesmo porque encantados pela grandeza do Mistério que nos toca, nós, os discípulos e seguidores, celebramos a memória do Natal, isto é, buscamos recolocar Jesus Cristo no nosso coração, isto é, no cerne do nosso viver. Nos sentimos salvos, e realmente o somos! Nossa alegria fica tamanha que contagia até aqueles para os quais Jesus Cristo não é lá muita coisa.

E movidos pelo encontro conosco de nosso Deus por Jesus, nós também vamos ao encontro dos outros, seja daqueles com quem temos elo de afeição (a quem homenageamos com presentes), seja daqueles que vemos fragilizados, provados ou até excluídos, com os quais temos formas mais intensas de solidariedade, solidariedade que buscamos ter todos os dias do ano. Feliz Natal, Irmãos! E que o ano novo seja de bênção para todos! D

Por Dom Fernando Mason, Bispo Diocesano de Piracicaba

 

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