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Fraternidade e Tráfico Humano

A Igreja no Brasil realiza a Campanha da Fraternidade desde 1964. Sabemos que a Campanha da Fraternidade é um excelente auxílio para bem vivermos a Quaresma. Com sua metodologia característica do Ver-Julgar-Agir, baseada, a cada ano num Tema e num Lema, a Campanha da Fraternidade nos oferece uma ótima oportunidade para superarmos qualquer dicotomia entre fé e vida. Neste ano temos como tema: “Fraternidade e tráfico humano” e como lema, a frase de São Paulo na carta aos Gálatas: “É para a liberdade que Cristo nos libertou” (Gl 5,1).

Como bem lembra o Documento de Aparecida, nas vítimas do tráfico humano, podemos ver rostos dos novos pobres que a globalização faz emergir (cf. DAp, 402). O sistema socioeconômico atual não contempla todas as pessoas. Uma parte delas é excluída e tem que se virar com as migalhas da abundância da produção de bens. É um sistema baseado no mercado e em sua constante expansão, o que se faz privilegiando o lucro em detrimento das pessoas e da vida, em todas as suas expressões. Esse contexto propicia o florescimento de crimes como o tráfico humano.

O tráfico humano, que estende seus tentáculos por todas as partes do mundo, se desenvolve num ambiente de exploração de pessoas para o lucro. Chama a atenção a crueldade com que se explora as vítimas, entendidas como objetos à disposição para a exploração e lucro. A exploração ocorre por meio de venda de pessoas, de partes do corpo humano, da exploração do corpo em atividades sexuais, de trabalhos forçados, sem as mínimas condições. Violam-se a dignidade e a intimidade da pessoa; elas são tratadas com extrema violência e, por vezes, mortas.

Diante de um crime que clama aos céus, como o tráfico humano, não se pode permanecer indiferente, sobretudo os discípulos missionários. A Conferência de Aparecida reafirmou à Igreja latino-americana que sua missão implica necessariamente advogar pela justiça e defender os pobres, especialmente em relação às situações que envolvem morte (cf. DAp, 395). Para a Igreja, envolver-se efetivamente no enfrentamento do tráfico humano é premente em sua missão, que exige estar ao lado dos pobres e sofredores e, sobretudo, dos que sofrem injustiças.

Aqui recordo uma palavra forte do Papa Francisco, na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium: “Sempre me angustiou a situação das pessoas que são objeto das diferentes formas de tráfico. Quem dera que se ouvisse o grito de Deus, perguntando a todos nós: ‘Onde está o teu irmão?’ (Gn 4, 9). Onde está o teu irmão escravo? Onde está o irmão que estás matando cada dia na pequena fábrica clandestina, na rede da prostituição, nas crianças usadas para a mendicidade, naquele que tem de trabalhar às escondidas porque não foi regularizado? Não nos façamos de distraídos! Há muita cumplicidade… A pergunta é para todos! Nas nossas cidades, está instalado este crime mafioso e aberrante, e muitos têm as mãos cheias de sangue devido a uma cômoda e muda cumplicidade” (EG, 211). Isso é muito sério e deve interpelar nossa consciência de discípulos missionários de Jesus Cristo.

Desejo que a temática da Campanha da Fraternidade 2014 desperte a reflexão e provoque inquietações em todas as comunidades de nossa Arquidiocese; deixemo-nos interpelar pela questão do tráfico humano e assim avançaremos no caminho da conversão pessoal e comunitária.

Dom Moacir Silva, Arcebispo Metropolitano e vice-presidente do Regional Sul 1

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