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Fratelli Tutti (Todos Irmãos)

Santo Padre diante do túmulo de São Francisco (Vatican Media)

O Papa Francisco nos surpreende com seus ensinamentos amplos e sábios, dentre eles quero sublinhar alguns que estão na sua última Encíclica Fratelli Tutti (Todos Irmãos).

O pessimismo é uma das doenças do mundo moderno e ele é usado como estratégia para dominar e anestesiar as pessoas, pois “a melhor maneira de dominar e avançar sem entraves é semear o desânimo e despertar uma desconfiança constante, mesmo disfarçada por detrás da defesa de alguns valores” (n.15). De fato, o pior e mais perigoso pessimismo é aquele que vem envernizado com boas intenções e com causas nobres.

A esperança é o antídoto para o veneno do pessimismo. Sartre escreveu que o “inferno são os outros”, mas, nós cristãos, temos o sonho de construir um mundo tão fraterno e amoroso que chegaremos a poder dizer que “o céu são os outros”. Seja como for, “prefiro esperança nos meus passos, do que tristeza nos meus ombros”, como poetizou Cora Coralina.

A solução, segundo o Papa Francisco, é sempre caminhar juntos. Infelizmente, a cultura atual prega o exacerbado individualismo egoísta com o consequente isolamento estéril. “Neste mundo que corre sem um rumo comum, respira-se uma atmosfera em que a distância entre a obsessão pelo próprio bem-estar e a felicidade da humanidade partilhada parece aumentar: até fazer pensar que entre o indivíduo e a comunidade humana já esteja em curso uma divisão. Porque uma coisa é sentir-se obrigado a viver juntos, outra é apreciar a riqueza e a beleza das sementes de vida em comum que devem ser procuradas e cultivadas em conjunto» (n.31).

A natureza humana é essencialmente social, pois o próprio Deus é Trino (Pai, Filho e Espírito Santo) e, portanto, todas as coisas criadas são ontologicamente associadas. O único lugar que está totalmente e eternamente dissociado é o inferno. Toda a realidade está, de alguma forma, interligada. Esta interligação espiritual de todas as coisas é denominada “comunhão dos santos”. “Ninguém pode enfrentar a vida isoladamente; precisamos duma comunidade que nos apoie, que nos auxilie e dentro da qual nos ajudemos mutuamente a olhar em frente. Como é importante sonhar juntos! Sozinho, corres o risco de ter miragens, vendo aquilo que não existe; é juntos que se constroem os sonhos» (n.8).

Nós viemos de Deus, não somos frutos de um acaso, e temos um propósito neste mundo. “Sem o Criador, a criatura esvai-se” (Gaudium et Spes, 36). Sem Deus, o homem perde o chão e o rumo. A nossa missão neste mundo é doarmos a própria vida para torná-lo cada vez mais segundo o desejo de Deus Pai: todos irmãos.

Amar o próximo implica, necessariamente, renunciar a si mesmo e preocupar-se com a dor dos outros e procurar aliviá-la. “Uma caraterística essencial do ser humano, frequentemente esquecida: fomos criados para a plenitude, que só se alcança no amor. Viver indiferentes à dor não é uma opção possível: não podemos deixar ninguém caído «nas margens da vida». Isto deve indignar-nos de tal maneira que nos faça descer da nossa serenidade alterando-nos com o sofrimento humano. Isto é dignidade” (n.68).

Quem conseguir renunciar a si mesmo e amar todas as pessoas que passar pelo seu caminho, espalhará felicidade ao seu redor e, automaticamente, será feliz.

Já que estamos em tempo de eleições municipais, aqui vai uma palavra do Papa para os políticos: “Convido uma vez mais a revalorizar a política, que é uma sublime vocação, é uma das formas mais preciosas de caridade, porque busca o bem comum. Alguém ajuda um idoso a atravessar um rio, e isto é caridade primorosa; mas o político constrói-lhe uma ponte, e isto também é caridade. É caridade se alguém ajuda outra pessoa fornecendo-lhe comida, mas o político cria-lhe um emprego, exercendo uma forma sublime de caridade que enobrece a sua ação política” (186).

Por Dom Rubens Sevilha, OCD, Bispo de Bauru

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