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Deus na cidade

As metrópoles concentram, atualmente, grande parte da população mundial. Dias atrás, foi divulgada a notícia de que a China pretenderia constituir uma megalópole capaz de acolher até cem milhões de habitantes! Também no Brasil, apesar da extensão territorial imensa, a população está bastante concentrada nas “cidades milionárias”.

O tema das metrópoles é objeto de observações e estudos diversificadas. A cidade grande, para muitas pessoas, continua a ser um sonho dourado de bem estar, boas oportunidades, vida confortável, bens e serviços socializados… Na prática, porém, chamam mais a atenção os efeitos colaterais indesejados desse sonho urbano, como o desconforto da mobilidade e do transporte, serviços deficitários ou precários, falta de trabalho e emprego, tensões sociais, marginalização de parte da população, solidões em meio à multidão, organizações criminosas, violência, medo…

Na semana passada, dias 21 e 22 de julho, a Pontifícia Academia das Ciências Sociais promoveu no Vaticano um encontro interessante com a participação de cerca de 70 prefeitos de grandes cidades do mundo inteiro; também 5, de metrópoles brasileiras. Não faltou o encontro com o Papa Francisco. Tratou-se da parte que as metrópoles têm na preservação do meio ambiente, “casa comum” da grande família humana, e da “ecologia humana”, com as exclusões sociais que se verificam com frequência nas metrópoles. Como em São Paulo, por exemplo.

Na ocasião, o Papa destacou que a preocupação da Igreja com as metrópoles é social e ecológica; melhor dito, é sócio-ambiental. Acima de tudo, porém, a preocupação da Igreja é com a realização eficaz e frutuosa da sua missão evangelizadora na cidade grande. A Igreja já está presente nas cidades grandes e tenta realizar sua missão; mas, sendo realistas, é inevitável constatar que ela enfrenta desafios grandes e dificuldades novas para realizar a sua missão nas grandes metrópoles.

As megalópoles são um fenômeno bastante recente na história da humanidade. Não é de hoje que a Igreja se preocupa com a “pastoral urbana”; já Concílio Vaticano II, no Decreto Ad Gentes sobre a atividade missionária da Igreja, aparece uma referência à necessidade de estender a atividade missionária nos novos contextos urbanos (cf nº 20). Atualmente, 50 anos depois do Concílio, as questões urbanas que a Igreja deve enfrentar são bem diferentes: já não se trata apenas de criar uma certa “pastoral urbana”, como se fosse mais uma entre várias iniciativas pastorais.

O desafio agora é bem mais amplo: como ser uma Igreja urbana e fazer de toda a ação eclesial na cidade uma ação evangelizadora urbana? Não podemos fazer de conta que a cidade grande, ao nosso redor, não existe, ou que seja apenas um detalhe incômodo para a vida e a missão da Igreja… A cidade grande é um campo prioritário para a vida e a missão da Igreja; se não a encararmos assim, corremos o risco de nos tornarmos, nós mesmos, um corpo estranho à metrópole.

E o Magistério da Igreja retomou a reflexão sobre a presença da Igreja nos grandes centros urbanos em diversas ocasiões, quer em documentos pontifícios, quer nos documentos do Magistério local dos bispos, como nas Conferências dos Bispos da América Latina e do Caribe (Puebla, Santo Domingo, Aparecida) e também da CNBB. O Papa Francisco aborda o tema de maneira incisiva na Exortação Evangelii Gaudium e na encíclica “Laudato sìi – sobre o cuidado da casa comum”.

O clero da arquidiocese de São Paulo fará seu curso anual de aprofundamento teológico e pastoral justamente sobre o tema – “Deus na cidade”. Será em Itaici, de 3 a 6 de agosto, e contará com a assessoria de um especialista sobre o tema: Pe. Carlos Maria Galli, professor da Universidade Católica de Buenos Aires. Será uma ocasião para avançarmos no esforço de sermos uma Igreja na metrópole paulistana, como tudo o que isso requer e significa.

Publicado em O São Paulo. Por Cardeal Odilo Pedro Scherer Arcebispo de São Paulo (SP)

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