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Dom Geraldo Lyrio Rocha, Arcebispo de Mariana, no seu jubileu áureo de Ordenação Presbiteral testemunhou em sua terra natal o seguinte: Depois de 50 anos de vida sacerdotal posso afirmar que eu nasci para ser padre!
A nossa vida poderia ter sido outra coisa, mas não foi, e desse modo constatamos que a vida é realmente um mistério. E o mistério a Deus pertence. Nunca sabemos exatamente porque nossa vida correu sobre esses trilhos e não outros. Obviamente as nossas decisões certas e erradas têm grande peso no resultado final da nossa existência, porém, muitos outros ingredientes novos e imprevistos alteram a rota e a coloração final da nossa vida.
Os resultados são múltiplos: alguns morrem no começo ou meio do caminho, são as mortes prematuras de crianças (inclusive abortadas) e jovens (inclusive negros e pobres). Alguns são tão desligados e alienados, sobretudo os que vivem e morrem na pobreza extrema, que passam a vida sem ter noção de quem eles são. Outros, por mil razões, são verdadeiras metamorfoses ambulantes, várias personagens alternando-se e procurando-se ao longo da vida.
Muitos chegam ao final da vida com a sensação de final infeliz. A vida que viveram não foi a que eles gostariam de ter vivido e já não há mais tempo para refazê-la. A vida não volta, ela sempre corre para o mar.
Mesmo aqueles poucos felizardos que chegam à maturidade com a graça de reconhecerem que nasceram para ser aquilo que são, sentem que a vida não foi perfeita. Nada nesse mundo se encaixa como uma luva, pois em tudo sempre há uma ponta de inadequação. Sempre falta algo e esse algo tem nome: chama-se Deus!
O problema de fundo é sempre o orgulho, e a solução é a humildade. Hoje as pessoas não querem negar-se a si mesmas, como pede Jesus; pelo contrário, há uma busca neurótica de autoafirmação, gerando infelicidade em si e ao redor de si. O amor nutre-se de sacrifícios, afirmava Santa Teresinha. O contrário do amor não é o ódio, é o egoísmo. Segundo o místico São João da Cruz a pessoa que ama vive mais no amado do que em si mesma. No amor, a felicidade dos outros é mais importante do que a minha, as dores dos outros são mais importantes do que a minha. Não se trata de perguntar qual dor é maior ou mais profunda, mas trata-se de saber qual é a mais importante. E aqui temos um paradoxo próprio do amor cristão: a dor do outro é sempre mais importante do que a minha, mesmo quando a minha dor seja maior e mais profunda do que a dor do outro. Jesus assumiu sobre si as nossas dores (Mt 8,17).
Quem perder a sua vida vai ganha-la. De que adianta alguém ganhar o mundo inteiro, se destrói a própria vida? Afirmou Jesus (Mt 16, 25). A vida de fé pressupõe um certo esquecimento de si mesmo, uma dose de sadia autodesvalorização. Deus é o ponto de referência da medida de valoração de nós mesmos. Diante de Deus somos, de fato, muito pequenos, mas acolhidos e infinitamente amados por Ele. Sem Deus, nos medimos entre nós mesmos, comparando-nos e julgando-nos uns aos outros, caindo na desenfreada competição e na lei do mais forte, gerando inúmeros sofrimentos para si e ao redor de si.
Eu creio que a vida é uma espécie de rascunho ou preparação para a vida verdadeira e definitiva: a Vida Eterna. Só a perspectiva e expectativa da eternidade me dá sentido para essa vida e me dá motivação para viver com entusiasmo o bom combate, com suas alegrias e dores, olhando e esperando o desfecho final que é o eterno abraço e beijo do Pai. Amém.
Por Dom Sevilha, OCD, bispo de Bauru