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Celebrar com Discernimento e Fé

Tenho visto crescer em nossa diocese o número das chamadas Missas por cura e libertação. Elas acontecem em eventos que têm títulos variados como Cerco de Jericó, Sete banhos de Naamã etc. Não se tratam títulos ordinários do Missal Romano, mas se encaixam no âmbito das Missas por diversas necessidades.

É verdade, todos nós, devido a tantas circunstâncias necessitamos de cura e libertação. Para a cura de doenças e enfermidades, Jesus Cristo instituiu o Sacramento da Unção dos Enfermos que, antigamente, tendo o nome de Extrema Unção, era entendido que deveria ser administrado na iminência da morte. Para tantas outras bênçãos temos o Ritual de Bênçãos que, como diz o Decreto de promulgação “ocupam lugar destacado entre os sacramentais instituídos pela Igreja para o bem-estar pastoral do Povo de Deus. Como ações litúrgicas que são, tais ritos elevam os fieis ao louvor a Deus e os dispõem a alcançar o efeito principal dos sacramentos e a santificar as diversas circunstâncias de sua vida.” Temos ainda o Ritual de Exorcismo e outras súplicas para casos extremos de atuação de Satanás, cujo o uso está reservado exclusivamente ao bispo diocesano ou a presbíteros exorcistas instituídos por ele. Não entram nesta exclusividade os exorcismos rituais previstos no batismo de crianças e na iniciação cristã de adultos.

A Igreja, em sua doutrina, nunca negou a existência de Satanás, inimigo de Deus , dos homens e da obra salvífica de Deus. O pecado entrou no mundo e com ele a morte, por obra do “pai da mentira”. As consequências do pecado em nossas vidas e no mundo são desastrosas e nós, às vezes, não nos damos conta disso. No entanto,” a vitória do Filho de Deus (cf. 1Jo 3,8) os atos de todos os espíritos imundos e sedutores (Mt 10,1; Mc 5,8; Lc 6,18; 11,26; At 8,7; 1Tm 4,1 Ap 18,2). Embora “uma árdua luta contra as forças das trevas perpasse toda história dos homens”, luta que há de continuar até o último dia”, Cristo, por seu mistério pascal de morte e ressurreição, “nos arrancou da servidão do diabo e do pecado” (cf Gaudium et Spes n. 37), destruindo o seu poder e libertando todas as coisas da influência maligna.” (Proêmio do Ritual de Exorcismos). Não precisamos ter medo do diabo, pois é exatamente pelo medo que ele nos faz escravos (cf. Hb 2,14), e muito menos viver em função de um “demonologismo” fanático. Por outro lado, não devemos nunca negar a existência de Satanás e seus anjos. Ainda que de forma rara, pessoas podem ser atormentadas pelo demônio ou até mesmo possessas.

“Como a ação prejudicial e contrária do Diabo e dos demônios atinge as pessoas, as coisas e os lugares e se manifesta de formas diversas, a Igreja, ciente de que os dias são maus” (Ef 5,16), sempre orou e ora para que os homens se libertem das insídias do Diabo”. (proêmio do Ritual de Exorcismos) Portanto, nada de incorreto rezar por cura e libertação.

No entanto, precisamos fazer uma caminhada de reflexão sobre o ritual destas celebrações das missas por cura e libertação e a sua prática pastoral.

Para não me alongar, quero aqui assinalar a prática de no final destas celebrações, acontecer a realização do chamado “passeio com o Santíssimo Sacramento”. Apesar de não se enquadrar em nenhuma forma de Culto Eucarístico fora da Celebração da Eucaristia, não é algo de todo incorreto. No entanto, as manifestações que acontecem podem beirar ao fanatismo, histerismo, gestos de desespero e emotividade desnecessária. Acontecem fenômenos que podem ser confundidos como manifestações diabólicas ou presença atuante da força de Deus. Precisamos discernir bem as coisas. Quero chamar a atenção para algumas coisas que presenciei e que beiram ao fanatismo e histerismo:

  1. Pessoas que dão mais valor ao “passeio com o Santíssimo” do que a própria celebração eucarística. Acredito que falte em alguns casos uma devida catequese.
  1. Pessoas que passam a mão nos ombros e nos braços do ministro que conduz o Santíssimo Sacramento, como se do ministro saísse uma força curadora e libertadora.
  1. Pessoas que tentam e outras que conseguem colocar a mão no ostensório. Outras que esfregam no ostensório chaves, carteira profissional, fotos, celulares com fotos de pessoas.
  1. Pessoas que soltam gemidos e gritos – geralmente mulheres.

Como bispo, por enquanto, não estou proibindo a realização destas celebrações. Peço, por ora, que sejam evitadas estas manifestações que causam um certo estardalhaço, principalmente estas que citei no chamado “passeio com o Santíssimo”. Quero, outrossim, enfatizar que sei do bem que estas celebrações fazem a muitas pessoas e como muitos têm retornado à vida da Igreja. Em vista deste conjunto que repito: precisamos de um discernimento espiritual e pastoral.

Dom Edmilson Amador Caetano, O.Cist.

Bispo diocesano de Guarulhos

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