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Aborto: questão de vida e morte 

Artigo escrito por Dom Pedro Carlos Cipollini, bispo de Santo André, para o jornal Diário do Grande Abc

Acabo de ler texto de autoria de dois médicos: A. Faúndes e J. Barzelatto (CF160, O drama do Aborto, Ed. Komedi, 2004). Não tratam do aborto espontâneo, mas do provocado, ou interrupção da gravidez intencional. O aborto é fenômeno universal. No século XX adquiriu tal radicalização que faz da nossa uma sociedade abortista. Já não é eliminação de gravidez indesejada. Sua prática entra no contexto da liberalização sexual e da liberdade feminina de dispor do próprio corpo.

É provável que morram mais ‘indivíduos’ nas práticas abortivas do que em guerras ou epidemias, inclusive a Covid-19. Impressionam as estatísticas apresentadas no terceiro capítulo da obra. Digo indivíduos, a partir desta caracterização usada pelos doutores, para referirem-se ao zigoto após 14 dias de gravidez ou 12 semanas após a fertilização (p. 50/52). Na realidade, a permissividade moral, facilidade técnica da prática abortiva, aceitação social, interesses econômicos e políticos, correntes de pensamento filosóficas e morais, interpretando a vida do ser humano de variadas formas, estão levando cada vez mais países a legalizarem o aborto.

Os autores analisam com competência técnica esta questão candente. Não negam serem favoráveis a um consenso, que leve à liberalização do aborto, embora constatem que “a grande maioria das pessoas acredita que um mundo sem aborto seria um mundo melhor para todos” (p. 24).

Nossa sociedade parte do princípio do individualismo, o qual crê ser o homem o autor de sua própria verdade: o indivíduo não somente pensa a verdade, mas ele mesmo a faz a seu gosto, deixando de lado a verdade suprema, que é Deus. Sendo assim, se pode admitir o aborto por qualquer motivo. A Bíblia nos ensina que esta maneira de agir gera o caos da Torre de Babel: cada um falando sua língua, ninguém se entendendo. Resultado: impossibilidade de amar, de conviver, e império da violência.

E aqui recordo-me de uma pessoa que se projetou pela defesa dos direitos humanos, cônego Milton Santana. Padre e jornalista, vítima da ditadura militar, tachado de comunista por suas posições sociais avançadas, também dentro da Igreja. O único livro que escreveu se intitulava: <CF160>Por Que Matar Quem Tem Direito de Nascer? Conversando certa vez sobre aborto, ele dizia que não se defende a vida pela metade. A defesa da vida deve ser total, do começo ao fim. E defender mais, o mais fraco. Acrescentava: “Na sociedade, o aborto é efeito, deve-se eliminar suas causas, não o feto. E a causa é a miséria, tanto material como moral”.

Como católico, compartilho da doutrina da Igreja Católica sobre o aborto baseada na doutrina bíblica sobre a vida humana: a – todo ser humano tem direito à vida, que lhe vem em última análise de Deus, não dos pais ou de outra autoridade. b – não existe pessoa nem autoridade humana com indicação suficiente para emanar uma sentença deliberada sobre uma vida inocente e indefesa. Pode se objetar que a Igreja esta atrasada e acabará falando sozinha. Pode ser, quem sabe? A Igreja começou com uma voz que clamava no deserto: João Batista. E a Igreja sabe que a luz de milhares de velas não é maior que a luz de um único Sol. Com humildade a Igreja admite que o Sol é Jesus Cristo e que a verdade que ela transmite vem Dele, não é propriedade sua, pelo que ela não a pode mudar, nem mesmo para ser popular ou fazer adeptos. A Igreja reconhece a laicidade do Estado e a respeita, mas tem direito de exprimir suas convicções e propô-las.

O ser humano não é o senhor da vida e da morte. Existe o Deus da vida. Será que a descriminalização do aborto aliviaria os terríveis dramas psicológicos provenientes de sua prática? Mas é legal! Nem tudo o que é legal pode ser justo no âmago das consciências…

Não seria pertinente descriminalizar também o roubo por comida? Não contribuiria para a saúde pública tanto quanto? A dor da fome é a mais terrível, também mata milhares de pessoas. No entanto: não roubar é mandamento, assim como não matar.

Enfim, em meio à nossa ‘cultura de morte’, o mais importante não é condenar o aborto, que por si já é antropologicamente condenável, mas elevar o nível moral da humanidade, para que aborto não tenha cabimento no nosso mundo, onde devem imperar justiça e fraternidade.

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