Com a palavra o Presidente

Vinho novo em odres novos

“Vinho novo em odres novos!” (Mc 2,17). Esse provérbio aparece no contexto de um diálogo de Jesus com os fariseus e os discípulos de João Batista. As palavras de Jesus são repletas de sabedoria, poesia e profecia.

A primeira lição, nesse diálogo, é sobre o jejum. Jesus sempre reconheceu a importância da Lei de Moisés, com seus muitos preceitos, entre eles o de observar o jejum. Ele reconhece que o vinho velho é bom. Quer dizer: o Antigo Testamento é importante, preparatório e basilar, pois contém a antiga aliança. Contudo, dando plenitude à Lei e aos Profetas, Jesus ensina que não é preciso jejuar quando o noivo está presente (cf. Mc 2,15).

Todo preceito, também o do jejum, parte da letra da lei, que tanto pode orientar como pode conduzir à escravidão do legalismo. Por isso, a mensagem de Jesus aponta para a graça de Deus e a liberdade do Espírito. Jesus apresenta a novidade de Deus – vinho novo –, na direção do amor, da misericórdia e da alegria: “quero misericórdia e não o sacrifício” (Mt 9,13). Os fariseus tinham grande dificuldade em se abrir à plenitude dos tempos, quando Deus enviou seu próprio Filho, Jesus Cristo. Assim, a boa notícia do Evangelho de Jesus contrapõe a austeridade do jejum à alegria pela presença do noivo. O próprio Cristo é o noivo.

Acolher a palavra do Messias vale mais que qualquer preceito. “Ninguém coloca remendo de pano novo em roupa velha” (Mc 2,16). A roupa velha é tudo o que se usou até aquele momento; a roupa nova é a veste nupcial “porque chegou o tempo das núpcias do Cordeiro e sua esposa já está pronta” (Ap 19,7). Cristo Ressuscitado é o Cordeiro; Ele é o noivo das núpcias do Reino de Deus. E o banquete nupcial aparece como imagem do reino messiânico.

As núpcias do Cordeiro são a alegre novidade da chegada do Reino de Deus e a sua justiça. O vinho novo e bom – o vinho melhor – representa os sinais que Cristo oferece para que o banquete messiânico aconteça. Presente nas bodas de Caná da Galileia, Cristo ofereceu o vinho melhor ao realizar o milagre da transformação da água. Lá, além de recuperar a alegria daquela festa, Ele prefigurou o festivo memorial de sua morte e ressurreição no banquete eucarístico; e prefigurou também a felicidade completa do banquete escatológico do fim dos tempos.

“Vinho novo se coloca em odres novos”. Os odres novos são os corações renovados e convertidos, visto que só o coração bondoso, aberto, generoso e temente a Deus pode ser recipiente confiável para conter as alegrias das bem-aventuranças do Reino de Deus. Como já dissera o Profeta Ezequiel: “tirarei do vosso peito o coração de pedra e vos darei coração de carne!” (Ez 36,27), isto é, um coração humano, sensível e puro. “Felizes os que tem um coração puro porque verão a Deus” (Mt 5,8).

A mensagem de Jesus liberta das prisões e condicionamentos, abrindo horizontes para que o coração humano, vá além da letra da Lei, acolhendo a ação do Espírito de Deus, que suscita os carismas, para o bem de todos. E assim, no mundo, prevalecerá a verdade, o amor, a justiça e a paz (cf. Sl 84/85).

Já foi dito que Cristo, o Cordeiro imolado e ressuscitado, é o noivo e a esposa já está pronta. A esposa é a Igreja, denominada pelo Apocalipse “a esposa do Cordeiro”. Cristo ama a Igreja com amor de esposo, oferecendo-lhe o vinho novo da nova aliança, o Reino de Deus. A Igreja é sinal e sacramento do Reino.

O Novo Testamento traz ricas imagens para definir a Igreja. Ela é o corpo, do qual Cristo é a cabeça e os cristãos são os membros. É o edifício espiritual, tendo Cristo como pedra angular, os apóstolos como fundamentos e os fiéis como pedras vivas. Todo batizado se torna pedra viva desse grande edifício espiritual que é a Igreja una, santa, católica e apostólica. Presente no mundo inteiro, reunida ao redor de Cristo bom pastor, a Igreja tem, na pessoa do Sumo Pontífice, o Santo Padre, a sua cabeça visível.

A Igreja é católica, isto é, universal. Contudo, se faz presente em cada Igreja particular, em cada diocese. A exemplo de Cristo, sua missão é evangelizar e servir. Os cristãos, na Igreja, de modo especial os leigos e leigas, evangelizam e servem através das pastorais, movimentos e associações de que fazem parte. E do testemunho da caridade.

A Igreja encontra a força para realizar sua missão na Eucaristia: “felizes os convidados para o banquete nupcial do Cordeiro (Ap 19,9). No banquete eucarístico os filhos de Deus se alimentam da Palavra e do Pão da Vida. O Esposo se faz presente na Eucaristia. Mais que jejuar, é hora abrir o coração. O Evangelho pede que cada cristão seja o vinho novo que difunda ao redor o perfume do Espírito e a força de santidade (cf. Raniero Cantalamessa).

 

 

Dom Pedro Luiz Stringhini

Mogi das Cruzes, 07 de julho de 2018

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