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‘Via-Sacra da Criança e do Adolescente’ pela superação da violência

Como gesto concreto, é entregue, durante a Via-Sacra, um documento que descreve as realidades das pastorais sociais em audiência na Prefeitura de São Paulo.

“A Via-Sacra é a caminhada que Jesus Cristo fez antes de ser crucificado.” A frase foi dita por Luana Sagawa Genkwa, 10, que há quatro anos participa do Centro Social Nossa Senhora do Bom Parto, unidade 9 de julho. Lá, todas as manhãs, ela faz artesanato, meditação de leitura, e tem aulas sobre saúde, higiene e meio ambiente, além dos momentos de lazer.

Fraternidade e superação da violência foi o tema da “Via-Sacra da Criança e do Adolescente”, que aconteceu pelas ruas do centro da cidade e reuniu associações e projetos ligados à Pastoral do Menor da Arquidiocese de São Paulo. A caminhada começou e terminou na Praça da Sé, fazendo paradas nas Praças do Patriarca e do Ouvidor.

Sueli Camargo, Coordenadora Arquidiocesana da Pastoral do Menor, lembrou, logo no início da Via-Sacra, da Irmã Maria do Rosário Leite Cintra, uma das fundadoras da Pastoral do Menor, que morreu na quinta-feira, 22, aos 82 anos (leia mais na página 14). O sepultamento aconteceu enquanto centenas de crianças e adolescentes participavam do evento carregando em seus braços fitinhas pretas para simbolizar o luto, mas também a memória da Religiosa.

“Não vamos parar enquanto houver crianças e adolescentes sofrendo, pois acreditamos que irá chegar um dia em que eles serão prioridade absoluta e seus direitos fundamentais serão garantidos.” O trecho é parte da carta em homenagem à Irmã Maria do Rosário, escrita por Marilda dos Santos Lima, Coordenadora Nacional da Pastoral, que foi lida no início da atividade.

HISTÓRIA

A “Via-Sacra da Criança e do Adolescente” foi uma iniciativa de Dom Luciano Mendes de Almeida e de outras lideranças da Pastoral do Menor iniciada na Região Episcopal Belém, em 1985. Em âmbito de Arquidiocese de São Paulo, os registros são de 1989 e, desde lá, todos os anos, agentes da Pastoral, coordenadores e profissionais de diferentes centros comunitários e sociais, e as próprias crianças e adolescentes, reúnem-se para rezar e denunciar os direitos que ainda não foram conquistados ou respeitados.

“Estamos aqui na Praça da Sé, que já foi palco de tantas manifestações ao longo da história, para fazer nosso grito de não violência e realizar esta Via-Sacra. Viemos caminhar, rezar, testemunhar nossa fé e manifestar o desejo de viver numa cidade que não esteja tão marcada pelos sinais da violência”, disse Dom Devair Araújo da Fonseca, Bispo Auxiliar da Arquidiocese na Região Episcopal Brasilândia e referencial arquidiocesano das Pastorais sociais.

A VOZ DAS CRIANÇAS E DOS ADOLESCENTES

Diego Lucas, 14, participa há três anos das Obras Sociais de Vista Alegre, que está localizada no bairro de mesmo nome, na Brasilândia. “Temos momentos de lazer, filme, artesanato e muitas rodas de conversa. Nesses encontros, refletimos sobre os diversos tipos de violência que vivemos, até mesmo palavrões e gritos”, disse em entrevista ao O SÃO PAULO.

“Moro no Vista Alegre e vejo todo tipo de violência no bairro. Ali, há muitos pontos de venda e uso de drogas e, para algumas pessoas, isso é já uma violência. Em frente à Obra Social, existe uma praça e muitas pessoas usam drogas lá. Frequentemente, temos que pedir para essas pessoas saírem, pois a praça é frequentada por famílias com crianças”, lamentou o Adolescente.

A instituição Obras Sociais Vista Alegre acolhe 300 crianças e adolescentes, e 50 deles participaram da Via-Sacra. “A presença da Pastoral do Menor é muito importante, pois se trata de um olhar de reflexão da Igreja sobre a realidade dura de violência que vivemos”, disse Olívia Luiz de Sousa, que atua na instituição há 28 anos e há 14 coordena a Pastoral do Menor na Região Brasilândia.

DIFERENTES

Davi Danilo Cabral da Silva tem 17 anos e há dois anos faz aulas no Centro de Capacitação Tabor, na Região de São Mateus. “Estou finalizando o curso técnico de Agropecuária e no próximo semestre começo panificação”, contou o Jovem, que salientou o fato de a violência estar muito presente na zona Leste, onde ele mora. “Na noite passada, fui com um grupo levar sopa para moradores de rua e é triste ver como as pessoas vivem. Vejo que a Igreja ajuda, e muito, a superar a violência”, disse Davi, que deseja cursar a faculdade de Radiologia.

Todos os dias, quando sai de casa, Renan Vieira, 15, tem que desviar das pessoas que usam drogas na frente da casa onde mora. Há mais de cinco anos, Renan frequenta o Centro de Educação e Cultura (Cec Emilia Mendes de Almeida), que fica no Jardim Sinhá, e foi um dos primeiros centros fundados por Dom Luciano Mendes de Almeida. “Gosto muito das aulas de capoeira e, nas últimas semanas, fizemos várias reuniões para falar sobre a paz. Programamos, inclusive, uma caminhada pela paz no bairro”, contou Renan. “Percebo que meus amigos usam drogas e bebidas alcóolicas e que minha participação no Centro colabora imensamente para que eu seja diferente”, afirmou.

RECOMEÇO

Laís (nome fictício) mora em um abrigo da Prefeitura há dois anos e participa do Centro Comunitário Rosa Mística, que está localizado no Grajaú, na zona Sul da capital. Aos 15 anos, a Jovem contou à reportagem que foi no abrigo e no Centro, com a ajuda de profissionais capacitados, que conseguiu rever suas atitudes e pensar no futuro.

“Eu morava com meu pai, mas tive muitos conflitos com ele e fugi de casa. Aos 13 anos, cheguei a ficar dois meses morando na rua e usava álcool, maconha e lança-perfume. A partir daí, fui morar no abrigo”, contou Laís, que no Centro Comunitário faz aulas de Recursos Humanos e Informática.

Emocionada, a Jovem lamentou o fato de ter sido uma pessoa que não tinha atitudes boas, mas reconheceu que a experiência no abrigo a ensinou a respeitar a si própria e aos outros. “Fui tirada de uma forte situação de violência e poderia ter sido espancada ou estar com um filho no colo aos 14 anos”, considerou.

A mãe de Laís faz uso de drogas e, por isso, a Jovem disse que não pode contar com ela, mas quer voltar a morar com um tio que a criou, e sonha em ser comissária de bordo. “As pessoas pensam que só elas sofrem, mas eu acredito que o adolescente, se quiser, pode mudar e conseguir aquilo que deseja. Tem de ir à luta”, falou Laís.

O CCA Jardim Sabiá e o CJ Rosa Mística fazem parte do Centro Comunitário Jardim Autódromo, na região do Grajaú, e acolhem 370 crianças e adolescentes. “Hoje, trouxemos 120, porque não conseguimos transporte para todos”, disse Antonia Santos, Gerente de Serviços do Centro.

“Essas crianças e adolescentes estão expostas a diversos tipos de violência e durante a Via-Sacra, revivendo a Paixão, Morte e Ressureição de Jesus Cristo, tiveram a oportunidade de clamar por uma cultura de paz”, afirmou Sueli Camargo.

Com informações O SÃO PAULO.

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