Dom Arnaldo Carvalheiro Neto

Bispo Diocesano de Jundiaí

O mês de setembro é dedicado, tradicionalmente, em nosso país, a um olhar mais atento à centralidade que a Palavra de Deus deve ter em nossas vidas e comunidades. As motivações do Mês da Bíblia nos convidam a refletir sobre o modo como o Senhor se comunica conosco, presente e instigante no olhar dos nossos irmãos e irmãs. Além disso, trata-se de um alerta para o verdadeiro significado das Escrituras em nossa história, de modo que ela nunca se reduza a um objeto exterior à nossa realidade, mas seja vivida no dia-a-dia das nossas paróquias como fonte de esperança, na construção do Reino de Deus. Somos chamados a ler a Palavra com os olhos da vida! Só assim o texto sagrado poderá ser traduzido em conversão autêntica ao projeto de Jesus em nossas comunidades.

Gostaria de trazer uma pequena história do Padre Henri Nowen, chamada “o fugitivo e o rabino”, de seu livro Direção Espiritual: sabedoria para o caminho da fé.Um dia, um jovem fugitivo, tentando se esconder do inimigo, entrou em um vilarejo. As pessoas foram gentis com ele e lhe ofereceram um lugar para ficar. Mas quando os soldados que procuravam o fugitivo perguntaram onde ele se escondia, todos ficaram apavorados. Os soldados ameaçaram incendiar o vilarejo e matar todos que ali residiam, a menos que o jovem fosse entregue antes do amanhecer. As pessoas foram se consultar com o rabino. Dividido ente entregar o jovem ao inimigo e a morte de seu povo, o rabino retirou-se aos seus aposentos e leu a sua Bíblia, esperando encontrar uma resposta antes do amanhecer. De manhã cedo, os seus olhos depararam com estas palavras: É melhor que um homem morra do que todo um povo se perca. Então, o rabino fechou a Bíblia, chamou os soldados e contou-lhes onde o jovem estava escondido. E depois que os soldados levaram o fugitivo para ser morto, houve uma festa no vilarejo, porque o rabino havia salvado a vida do povo. Mas o rabino não celebrou. Abalado por uma profunda tristeza, permaneceu em seus aposentos. Naquela noite, um anjo veio a ele e perguntou: o que você fez? Ele respondeu: entreguei o fugitivo ao inimigo. Então o anjo disse: Mas você não sabe que entregou o Messias? Como poderia saber?, o rabino replicou ansiosamente. Então o anjo afirmou: Se, em vez de ler a sua Bíblia, você tivesse visitado esse jovem só uma vez e olhado em seus olhos, teria sabido’”.

A Bíblia não é um livro como outro qualquer. Ela é a experiência de um povo com Deus traduzida em textos que refletem as diversas histórias e modos como o Senhor quis ficar perto de nós. Ela é inteira inspirada porque é inteira vivida. A Bíblia não fala de realidades de um céu distante, mas comunica um Deus próximo, presente nas lutas e dificuldades, alegrias e tristezas, vitórias e desertos de um povo. Por isso, sua leitura deve ser sempre acompanhada de um coração atento às necessidades que a vida impõe. Os mesmos olhos que leem um texto sagrado devem estar abertos para a realidade de quem está à sua volta. É assim que a Igreja lê as Escrituras: com os óculos da realidade! O rabino da história acima esqueceu-se de ler a presença do Espírito no olhar daquele jovem fugitivo. A letra do texto falou mais alto que a história por trás daquela fuga. Como é fácil usar a Bíblia para justificar qualquer coisa! Como é sedutor fazer das Escrituras instrumento das próprias escolhas! Quando a Palavra não é lida nos olhos das pessoas à nossa volta, fatalmente podemos nos tornar cegos à realidade, certos de que apenas o modo como lemos é verdadeiro. Em situações como essa, a mesma Bíblia que deveria nos fazer enxergar o Reino vira pretexto para fecharmos os olhos para a ação do Espírito.

Um grande biblista, Frei Carlos Mesters, responsável pela difusão da Leitura Orante da Bíblia em muitas comunidades de nosso país, dizia que “quando o texto é lido fora do contexto ele vira pretexto”. De fato, a Palavra de Deus pode ser uma arma muito perigosa para modos de leituras que cegam ao invés de fazer ver. Trata-se do fundamentalismo, tão em moda em tempos como os nossos, onde os extremismos ganham força. Quando um texto sagrado é entorpecido pelos interesses escusos aos modos como foram escritos, facilmente somos seduzidos pelos argumentos de autoridade como princípios de verdade. A Bíblia é sequestrada pelo jogo de poder dos que a manipulam como ferramenta de coerção, moralismos ou estratégias políticas. Suas narrativas deixam de remeter ao projeto do Reino de Deus e passam a servir como álibis ruidosos ao reino dos homens. Esse modo de ler a Bíblia fora da vida, alheio aos dramas e desafios que nossa realidade traz, faz com que muitos se afastem do conhecimento da verdade e passem a utilizar as Escrituras como mero instrumento operacional, não raras vezes associada às ambições individuais. Em muitas situações, as pregações virtuais estão cheias desse tipo de leituras. No modo fundamentalista de ler, justifica-se, na Bíblia, qualquer coisa ao alcance de ilegítimos interesses. Inverte-se os significados, troca-se os sentidos, oblitera-se a visão. Portas estreitas enlanguescem. Renúncia vira ganância. Cruz vira sucesso. Amor vira ódio.

Não é esse o modo como a Igreja lê as Escrituras. Para nós, discípulos e discípulas de Jesus, o processo de aprendizado da Palavra é uma caminhada com o Mestre. Por isso, os lugares por excelência da leitura da Bíblia são a liturgia e a comunidade. Na mesa da Palavra, em cada celebração, nos alimentamos dos ensinamentos escolhidos dentro de uma ordem discernida e preparada por séculos pela tradição cristã. Nas nossas igrejas, o altar da Palavra merece destaque. Ele é a presença viva do Senhor falando conosco, no seio da comunidade, pela ação do Espírito. Nesse sentido, a Palavra deixa de ser objeto exterior e passa a ser acolhida como experiência vivificante, fonte de sabedoria e instrução para o projeto do Reino. Mais do que ouvirmos, compete-nos acolher, celebrar e vivenciar a Palavra em nosso dia-a-dia. Essa é a motivação que desejo em nossas paróquias. Fazer com que a Palavra seja experimentada nos olhares do povo para que possa ser proclamada com outra autoridade: a autoridade da própria realidade! Nesse sentido, convido a cada um a promover espaços de leitura comunitária da Bíblia em suas paróquias. Ajuda muito o exemplo difundido por iniciativas como diversas formas de estudos bíblicos, grupos de rua, grupos missionários, leituras orantes ou pelo oficio divino das comunidades. Trata-se de tirar a Bíblia das mãos do fundamentalismo e trazer de volta para o seio das comunidades de fé, onde a vida acontece!

Por fim, trago à memória um ensinamento de Dom Hélder Câmara, saudoso bispo brasileiro, que, por perceber a grande quantidade de pessoas que não sabia ler nos rincões do país, certa vez disse: “Em muitas ocasiões, o único Evangelho que as pessoas poderão ler são as nossas vidas!”. De fato, a Palavra de Deus só ocupará o centro de nossa fé quando ela penetrar inteiramente as nossas vidas. Quem se torna um leitor da Palavra deve traduzi-la em suas atitudes cotidianas. Sem o testemunho, a leitura da Bíblia pode servir para um fechamento perigoso em ideologias. O rabino da história se esqueceu de olhar nos olhos do jovem que estava escondido. Ele perdeu o essencial das Escrituras.  Quando nos tornarmos pessoas da Palavra, a conversão acontece a partir do amor que traduzimos ao nosso próximo, especialmente aos mais pobres. Testemunho é saber ler Deus no olhar de quem não é visto. É aprender a enxergar quem precisa do nosso amor. Afinal, nenhuma exegese é tão perfeita como aquela que nos faz compreender a realidade.

Que o Mês da Bíblia desperte em nós o desejo de nos alimentar cada vez mais da Palavra de Deus. Que saibamos lê-la com alma e o coração de quem sabe que a Palavra se fez carne e quis habitar em nosso meio. E que ao fim desse período fecundo de aprendizado, consigamos trazer a Bíblia em nosso olhar, pela força de nosso testemunho. E todos conseguirão ler aquilo que nenhuma palavra humana precisa explicar.