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Diferenças e conflitos – Vivemos em um mundo marcado por diferenças e conflitos que existem em nosso íntimo, em nossos relacionamentos familiares, na Igreja e em âmbito global entre nações. Em nosso íntimo experimentamos aquilo que o apóstolo Paulo já dizia: eu não faço o bem que quero, mas o mal que não quero (Rm.7,19). Ideais, virtudes e paixões mesquinhas convivem em nosso íntimo. No relacionamento com as pessoas que mais amamos, como é o caso de nossos familiares, não raras vezes, conflitos podem ocorrer devido a diferentes concepções, anseios e modos de agir. Entre irmãos criados na mesma família, educados pelos mesmos pais, com pouca diferença de idade entre si, quantas diferenças existem! A sabedoria popular compara os filhos aos dedos da mão, cada um diferente do outro. No âmbito eclesial também as diferenças e os conflitos estão presentes pois, onde existe o ser humano estão presentes as divergências. As diferenças e conflitos aumentam e se intensificam à medida em que se amplia o âmbito da consideração podendo assumir proporções globais. Essas realidades podem chegar a consequências desastrosas se não forem bem administradas.

O que os conflitos geram em nós – Humanamente, é impossível viver sem conflitos. Quando não adquirimos habilidades que possibilitem lidar bem com as diferenças e conflitos, sofremos e causamos sofrimentos. Tais sofrimentos podem ser circunscritos ao âmbito pessoal ou podem atingir o âmbito global, a depender da abrangência e da maneira como lidamos com os conflitos. No âmbito pessoal, a habilidade em lidar com diferenças e conflitos podem nos levar ao discernimento, ao amadurecimento pessoal e à sabedoria de vida. Maneiras inadequadas de abordá-los podem gerar em nós medo, ansiedade, neurose, depressão e tantos outros males ainda mais graves. No âmbito familiar, comunitário e social as diferenças e os conflitos mal elaborados podem gerar rivalidades, divisões, competição, desejo de submeter ou destruir quem se diferencia de nós, de nosso modo de pensar, de agir ou que se contraponha aos nossos interesses. O extremo de tais realidades são as guerras. Atualmente acompanhamos o exacerbado conflito entre Rússia e Ucrânia. Interesses divergentes e mal enfrentados geram sofrimentos e consequências danosas que vão muito além das pessoas e países diretamente envolvidos, mas repercutem globalmente. Muitos são os sofrimentos causados pela guerra, os mais evidentes são os bombardeios que destroem vidas e arrasam cidades. Desumano e perverso é a estratégica repetição dos bombardeios no momento em que as vítimas são socorridas. Além disso, não menos atrozes e mortais são as táticas intencionais e criminosas que provocam desabastecimento de energia, de alimentos e de medicamentos, gerando morte por falta de tratamento, por sede, fome, frio que atingem, sobretudo, a população mais indefesa. Numa guerra os poderosos decidem e os indefesos e os pobres sofrem e morrem. Dentre tantas cenas dramáticas geradas por essa guerra, causou-me muita impressão o desespero de uma mãe que, sem conseguir fugir da zona de conflito, buscando salvar a vida de seu bebê, entrega-o a pessoas que conseguiram embarcar num trem superlotado que as levaria para qualquer lugar, longe dali. Além do amor daquela mãe, a única referência que aquela criança levava era um número de telefone escrito na mão…. Sofrimento emblemático de inúmeros outros dramas que esse insano conflito causou e ainda pode causar. Quantos males, separações, devastações e mortes a insensibilidade e a desumanidade de governantes podem causar, quando se recorre e incentiva a cultura da intolerância e do ódio, que tem como objetivo subjugar ou eliminar quem pensa diferente. Falta de capacidade ou despreparo em lidar com as diferenças e os conflitos ou falta de disposição em buscar soluções pacíficas podem levar a grandes tragédias e ao extremo de provocar a devastação e eliminação da vida humana no planeta. Isso não é exagero é uma possibilidade, infelizmente!

Destinados à paz – Diferenças entre pessoas e povos não precisam levar a conflitos; elas podem ser enriquecedoras e complementares. A arte de conviver com as diferenças, descobrir e aprender daquilo que cada pessoa e cada povo possui de valor revela o sábio. Nutrir atitudes de respeito diante de quem é, pensa ou age de modo diferente, pode nos fazer viver tempos novos. Cultivar atitudes que superem a intolerância e o ódio é vivência pascal. Isso é o que o cristianismo nos ensina. Após a ressurreição, ao manifestar-se aos discípulos, Jesus repetia: “eu vos deixo a paz; eu vos dou a minha paz” (Jo.14,27). A paz é o dom do Ressuscitado, é consequência do homem novo, que acolhe e se orienta pela Palavra de Deus, aprende a conviver com as diferenças, evita e supera conflitos e não se deixa levar por seus próprios e vis interesses. Desta maneira se manifesta a grandeza ou a mediocridade do ser humano. A paz é fruto da justiça e está ao nosso alcance quando nos dispomos a respeitar, a conviver e a aprender com o outro, diverso de nós.

Dom Wilson Angotti
Bispo Diocesano de Taubaté