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Subsídio proporciona perspectivas e ações aos trabalhadores e trabalhadoras para celebração do 1º de maio

Produzido pela Comissão Episcopal para a Ação Sociotransformadora, o material remonta histórico do 1º de maio para auxiliar a realidade do trabalhador na busca de dignidade. “Temos que integrar essa dimensão do Trabalho na nossa ação evangelizadora”, destacou o bispo diocesano de Jales (SP) e referencial da Pastoral Operária da CNBB, Dom José Reginaldo Andrietta. 

O Comitê TRABALHO da Comissão Episcopal para a Ação Sociotransformadora, da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), disponibiliza um subsídio contendo uma breve memória sobre “o Primeiro de Maio”, alguns desafios atuais do mundo do trabalho e inspirações cristãs para ações em prol de condições dignas de vida dos trabalhadores e trabalhadoras, com o objetivo de colaborar com as entidades e organizações que pretendem celebrar frutuosamente a oportunidade de hoje. 

A História do Dia do Trabalhador e da Trabalhadora remonta ao ano de 1886 na industrializada cidade de Chicago, nos Estados Unidos. Na ocasião, milhares de trabalhadores foram às ruas reivindicar melhores condições de trabalho, entre elas, a redução da jornada de treze para oito horas diárias. Neste mesmo dia, ocorreu nos Estados Unidos uma grande greve geral dos trabalhadores.

Dois dias após os acontecimentos, um conflito envolvendo policiais e trabalhadores provocou a morte de alguns manifestantes. Este fato gerou revolta nos trabalhadores, provocando outros enfrentamentos com os policiais. No dia 4 de maio, num conflito de rua, manifestantes atiraram uma bomba nos guardas, provocando a morte de sete deles. Foi o estopim para que os policiais começassem a atirar no grupo de manifestantes. O resultado foi a morte de doze protestantes e dezenas de pessoas feridas. Foram dias marcantes na história da luta dos trabalhadores por melhores condições de trabalho. Para homenagear aqueles que morreram nos conflitos, a Segunda Internacional Socialista, ocorrida na capital francesa em 20 de junho de 1889, criou o Dia Mundial dos Trabalhadores e Trabalhadoras, que seria comemorado em 1º de maio de cada ano. No Brasil, há relatos de atos desde 1895, mas foi somente em 26 de setembro de 1924, que a data se tornou oficial com a criação do decreto nº 4.859.

TRABALHO 

Na Ressurreição de Cristo, o trabalho é a vocação de todos. Todos vivem do pão, fruto do trabalho, todos foram criados pelo mesmo Pai, que deu a Jesus “um nome que está acima de todo nome”. Na vocação de todos ao trabalho que nos dá a vida, dom de Deus,, o mundo do trabalho é o próprio mundo em que vivemos. O trabalho é uma realidade penosa, ambígua e ambivalente, continuamente em mudança. Por isso ele é uma tortura – um tripalium (instrumento de tortura) – que ao ser assumido com a injusta tortura da cruz se pode tornar uma cruz que redime, a fim de cultivar e fazer crescer a sociedade. Teologicamente, antes de produzir objetos ou serviços, o trabalho produz relações que valem para todos, pois todos vivemos do trabalho humano.

TECNOLOGIAS 

Os trabalhadores e as trabalhadoras do Brasil estão confrontados a situações desafiadoras. A flexibilização das leis trabalhistas e o alto investimento em tecnologia, implementados nos últimos anos, sob o argumento de modernização, prometia crescimento econômico, geração de empregos, melhores condições de trabalho, aumento de renda, redução da carga horária de trabalho, mais tempo para descanso e convivência social, enfim, condições mais saudáveis de vida. 

No entanto, comprova-se o contrário. A chamada modernização tem beneficiado somente os detentores do grande capital, em detrimento dos trabalhadores e trabalhadoras. Essa modernização é uma falácia: em lugar de contrapor-se à grave crise que perdura, está agravando-a, pois exclui grande parte da classe trabalhadora do próprio direito ao trabalho, confirmando o que o Papa Francisco afirma na Encíclica Fratelli Tutti: “a grande questão é o trabalho” (n. 162).

Estaria o trabalho deixando de existir por estar corporificando-se em tecnologias avançadas? Isso é fato, associado também à sofisticação da exploração, a exemplo do trabalho multi-terceirizado, pelo qual uma multidão de trabalhadores e empresas interligam serviços presenciais e remotos, por meio de tecnologias comunicacionais avançadas. Enfim, esse tipo de modernização está servindo para enriquecer a poucos e excluir a muitos. 

Diante desses desafios, a classe trabalhadora constrói lutas unitárias, inspiradas no Primeiro de maio. Por isso, as comemorações em torno desse dia, embora diversificadas, entrelaçam essas lutas que objetivam assegurar o direito ao trabalho e à remuneração em condições dignas para todos e todas, construir relações humanas, verdadeiramente justas e fraternas; e defender a vida e nossa “casa comum”, integralmente. 

Dom José Reginaldo Andrietta, bispo diocesano de Jales (SP) e referencial da Pastoral Operária da CNBB comenta: “hoje nós temos uma consciência muito aprofundada sobre a dignidade dos seres humanos, tanto é que temos uma declaração universal dos direitos humanos. E nós utilizamos referências dessa declaração num primeiro encontro do subsídio para ajudar entender que a dignidade em torno do trabalho é fundamental para todos”. 

PERSPECTIVAS

A pessoa humana é a origem, a protagonista e o fim da sociedade. O trabalho é uma atividade humana. Seu valor primordial está no fato de que quem o executa é uma pessoa criada à imagem e semelhança de Deus (Gn 1,26-27), chamada a cuidar e cultivar a Criação (Gn 2,15). Jesus Cristo, que sendo Deus, se fez trabalhador em Nazaré (Mc 6,3), é a principal referência dessa dignidade. O Salvador é trabalhador, filho de trabalhadores. Todo trabalho que contribui para o bem da humanidade é sinal que aponta para a nova criação, os novos céus e nova terra (GI 6,15; 2 Pd 3,13, Ap 21,1-5). 

Dessa dignidade emanam os direitos trabalhistas. Nenhum trabalho deveria violar a dignidade humana do trabalhador. Por isso a Igreja, a exemplo dos profetas, denuncia todas as formas de violência que negam direitos trabalhistas e violam a dignidade dos trabalhadores: “Ai daquele que constrói seu palácio desprezando a justiça, e amontoa seus andares a despeito do direito; que obriga os outros a trabalhar de graça, sem pagar-lhes salário (…). Só tem olhos e coração para o lucro, para derramar sangue do inocente, para agir com brutalidade e selvageria” (Jr 22,13.17)

AÇÕES

A resposta da classe trabalhadora à ofensiva do sistema econômico capitalista deve ser ousada e organizada. Diante disso, destacamos os seguintes aspectos que requerem atenção e dedicação na defesa da dignidade das trabalhadoras e dos trabalhadores: 

• Construir narrativas que promovam a consciência, a organização e a solidariedade da classe trabalhadora na defesa dos seus direitos. Desenvolver a teologia, a espiritualidade e a pastoralidade da Igreja no mundo do trabalho;

• Acompanhar as pautas legislativas e judiciárias aos direitos da classe concernentes trabalhadora;

• Fortalecer as organizações que promovem e defendem os direitos das trabalhadoras e dos trabalhadores;

•  Criar alternativas de trabalho com a juventude, que garanta a dignidade do trabalho e a realização de seus projetos de vida;

•  Desenvolver a Economia Popular Solidária como alternativa no mundo do trabalho;

•  Denunciar as condições precárias, análogas à escravidão, assédios, violências no trabalho e discriminações;

• Reivindicar a renda básica como direito de participação na “destinação universal dos bens”. 

 

Texto: Eduardo Cunha I Diocese de São João da Boa Vista I Comunicação Integrada Sul 1

Foto: Comunicação Sul 1

 


Dom José Reginaldo Andretta / Bispo Referencial da CNBB para Pastoral Operária Nacional.