Com a palavra o Presidente

Onde estão as testemunhas?

A preocupação da Igreja com a transmissão da fé em nossos dias deve ser levada plenamente a sério. Como está sendo transmitida a fé às novas gerações? Será que vamos deixar que a fé se apague, como uma lamparina que o vento forte apaga ou como chama que se extingue porque o óleo na lamparina acabou?
A fé cristã é dom de Deus. Mas também é um ato humano, mediante o qual se acolhe livremente a Deus e sua ação na própria vida; e o ato de fé é mais que mero sentimento ou emoção, mas refere-se também a um conteúdo de fé, que pode ser expresso na afirmação de verdades, às quais se adere com convicção interior firme, ao ponto de se deixar conduzir por essa fé, como luz preciosa que ilumina o caminho de toda a vida.

Normalmente, temos como verdadeiro aquilo que nós próprios podemos constatar, ou o que nos é passado por testemunhas merecedoras de crédito. Nos processos judiciais, é semelhante: ou se tem um flagrante que comprova o fato, ou se alegam “provas” factuais, que falam por si mesmas, ou se ouvem testemunhas que convençam.

Não é muito diferente com a fé religiosa. Jesus, no Evangelho. Muitas pessoas creem nele porque ouvem sua palavra e logo se convencem que “Deus está com ele”. Outras creem porque se dão conta de que Jesus realiza obras que só Deus pode realizar. Os adversários e incrédulos ficam fechados à fé; deles, Jesus pede exatamente isto: “se não credes em mim e nas minhas palavras, crede ao menos por causa das obras que faço; são elas que testemunham em favor de mim” (cf Jo 10,38). Em outras palavras, Jesus apela para o testemunho de Deus Pai em seu favor, pois as obras que faz são obras de Deus.

Jesus revela, ainda, que há uma testemunha muito forte e convincente, que ajuda a perceber e a acolher a verdade da fé: é o Espírito Santo, que também dá testemunho em favor dele; é um testemunho interior, na consciência, cuja voz silenciosa e suave apela para a nossa liberdade, para a nossa sinceridade e humildade e move o coração a crer: sem humildade, não é possível crer, pois esse ato implica em reconhecer que Deus é Deus e que seu lugar não pode ser ocupado por nós. O Espírito Santo, acolhido e ouvido interiormente, capacita-nos a crer.

Mas também nós somos testemunhas de Cristo. Na conclusão do Evangelho de São Lucas, lemos, posto na boca de Jesus, um resumo do anúncio apostólico: “assim está  escrito: o Cristo sofrerá e ressuscitará dos mortos ao terceiro dia e no seu nome serão anunciados a conversão e o perdão dos pecados a todas as nações, começando por Jerusalém” (Lc 24, 46-47). E Jesus lhes confere a missão: “vós sereis testemunhas de tudo isso” (Lc 24,48).

Os Atos dos Apóstolos, escritos pelo mesmo São Lucas, mostram como os apóstolos foram, de fato, “testemunhas de tudo isso”. Após receberem o Espírito Santo, prometido por Jesus como “força do alto” para os assistir e fortalecer na missão, eles anunciaram de maneira corajosa a verdade sobre Jesus e sobre a obra de Deus realizada no mundo por meio dele: “nós somos as suas testemunhas”, afirmam, muitas vezes.

No Ano da Fé, é bom recordar essa lógica na transmissão da fé: o testemunho dos que creem possibilita aos outros o acesso à fé. Esse testemunho é, antes de tudo, “testemunho de Deus” a ser acolhido por nós; e, de nossa parte, o testemunho acontece de muitas formas: por palavras de fé, exemplos e obras da fé; pela pregação do Evangelho, o ensinamento da reta doutrina, a vida litúrgica e mística da Igreja, a atitude da Igreja, coerente com o exemplo de Jesus e os ensinamentos do Evangelho, pela vida cristã sincera dos batizados e seu testemunho de caridade e retidão, a vida moral virtuosa, em conformidade com os mandamentos de Deus, o testemunho luminoso dos santos e da fé heroica dos mártires…

Não terminaríamos de citar as inúmeras formas que o testemunho da fé pode assumir na vida dos cristãos; o certo é que nenhum testemunho bom deve ser desprezado, pois a misteriosa ação do Espírito Santo pode servir-se de caminhos a nós desconhecidos para abrir as portas da fé (Porta fidei, cf At 14,27) a quem ainda não crê.“Vós sereis as testemunhas de tudo isso”: essa é nossa missão. Ser testemunhas de Jesus Cristo e de Deus no mundo. Quem crê profundamente, ajuda outros a também encontrarem a fé. Somos “colaboradores de Deus” numa obra que é dele, mas na qual, por seu desígnio inefável, Deus não quis dispensar a nossa participação. Se fizermos a nossa parte, a chama da fé não vai se apagar, nem por falta de óleo na lamparina, nem por causa dos ventos fortes contrários que podem soprar.

Publicado em O SÃO PAULO, ed. de 14.05.2013

Cardeal Odilo Pedro Scherer, Arcebispo de São Paulo e Presidente do Regional Sul 1 da CNBB

@DomOdiloScherer

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