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O papa e o magnata

A frustração de ver um magnata conservador vencer as eleições presidenciais nos Estados Unidos, felizmente é compensada pela alegria de ver o Papa Francisco acolher, poucos dias antes, no Vaticano, o Terceiro Encontro Mundial de Movimentos Populares. De um lado, um líder capitalista que já contamina o mundo com o “terror” das elites que ele representa. De outro, um profeta destemido que se nutre do amor de Deus e o partilha sobretudo com os pobres.

No encontro com representantes de movimentos populares de 60 países, o Papa, acertadamente disse, poucos dias antes desta eleição americana, que o mundo está sendo governado pelo dinheiro “com o chicote do medo, da desigualdade, da violência econômica, social, cultural e militar que gera sempre mais violência”. Ele falou de “um terrorismo de base que deriva do controle global do dinheiro sobre a terra e ameaça toda a humanidade”.

Falando de uma ditadura econômica global, o Papa Francisco mencionou a Encíclica Quadragesimo Anno, do Papa Pio XI, de 1931, que previa o “imperialismo internacional do dinheiro”. “Toda a Doutrina Social da Igreja e o magistério de meus predecessores se rebela contra o ídolo do dinheiro que reina ao invés de servir, tiraniza e aterroriza a humanidade”, diz o Papa Francisco, enfatizando que “nenhuma tirania se sustenta sem explorar os nossos medos”.

O presidente eleito dos Estados Unidos fala metaforicamente da necessidade de construir um grande muro para não deixar que os estrangeiros tenham acesso aos Estados Unidos, em busca de trabalho. O Papa, no entanto, critica os muros: “Muros que fecham alguns e exilam outros. Cidadãos murados, aterrorizados, de um lado; excluídos, exilados, ainda mais aterrorizados de outro. É esta a vida que Deus nosso Pai quer para os seus filhos?

Por minha experiência de três anos nos Estados Unidos, uma vez me perguntaram sobre a diferença entre os democratas e os republicanos, naquele país. Eu respondi com outra pergunta: Qual é a diferença entre Pepsi-Cola e Coca-Cola? Essa pessoa compreendeu, então, que a diferença entre ambos partidos é muito pequena. Os democratas defendem políticas um pouco mais sociais. Os republicanos são mais neoliberais.

Trump é republicano. Sua lógica será ainda mais militarista. Defenderá invasivamente os interesses das grandes empresas multinacionais de origem norte-americana. Será ainda mais protecionista da economia americana e mais agressivo em acordos de livre comércio. Nutrirá a ilusão da redenção socioeconômica pela via neoliberal, sem sucesso para os que concorrem em desigualdade e para a população pobre do seu próprio país.

A resposta mundial não tardará, sabendo que ela não virá dos que se beneficiarão de alianças, entre os quais muitos dos que atualmente estão à frente do Estado Brasileiro, de tendência entreguista. Ela virá, com toda certeza, dos que estão sendo privados de seus direitos, a quem o Papa Francisco se dirige no Terceiro Encontro Mundial de Movimentos Populares, propondo construir pontes que permitem abater os muros da exclusão e da exploração, e exortando: “Não nos deixemos enganar. Enfrentemos o terror com amor!”

Jales, 10 de novembro de 2016.

Por Dom Reginaldo Andrietta, Bispo Diocesano de Jales

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