É bem conhecida a fábula de Soren Kierkegaard (1813-1855). Um circo acampou nas cercanias da cidade e, na tarde da sua estreia, nele começou um incêndio. O palhaço, já trajado e pintado, correu para a cidade em busca de ajuda. Desesperado, ele gritava em praça pública, clamando por socorro, mas quanto mais elevava sua voz e corria de um lado para o outro, mais as pessoas se divertiam. O palhaço não conseguiu ajuda, e o circo acabou em cinzas.

Essa fábula ilustra muito bem a natureza, a força e a fraqueza do testemunho.

Há diferenças entre o ensinamento e o testemunho. No ensino, o discente aceita a exposição do mestre pelos argumentos cujo valor intrínseco pode constatar. No testemunho, ao contrário, a pessoa assente devido à autoridade de quem fala; confia na palavra de quem fala, devido a sua ciência e veracidade. Em ambos os casos, o espírito humano se enriquece com novas verdades. A diferença essencial está no motivo que inspira o assentimento: num caso, é a evidência da demonstração; no outro, a autoridade de quem fala.

Pelo testemunho alguém convida outro a aceitar como verdadeiro confiando em seu convite como garantia próxima de verdade e em sua autoridade como garantia remota. Esse convite a crer é o elemento específico do testemunho, e a fé é a resposta solicitada pelo testemunho. A fé é assim um julgamento que aceita como verdadeiro o que vem atestado, apoiando-se no testemunho como garantia da verdade.

Devemos notar que, se a fé humana se apoia na credibilidade da testemunha e na sua autoridade, essa autoridade, contudo, não é de per si garantia última de verdade. Falível por natureza, o testemunho precisa sempre ser acompanhado de indícios e de sinais objetivos que lhe indiquem o valor. A fé humana jamais pode ser uma fé de pura e simples autoridade.

Sob esse aspecto, o conhecimento mediante o testemunho é inferior ao conhecimento mediante a evidência; é, porém, superior em vista dos valores que põe em jogo. A demonstração apela para a inteligência; o testemunho, solicitando intensidade de confiança, se caracteriza pelos valores que se arriscam confiando nele. O testemunho põe em jogo não apenas a inteligência, mas também a vontade e o amor. O testemunho é, pois, uma realidade mais de ordem moral do que de ordem intelectual. A fé no testemunho supõe assim uma relativização inicial da razão.

A possibilidade do relacionamento entre pessoas repousa, em última análise, nessa confiança reclamada pela testemunha e na promessa tácita de não trair. Temos, pois, de um lado o compromisso moral da testemunha; de outro, a confiança que já é um início de amor, por parte de quem aceita o testemunho.

Quando cremos no testemunho, abandonamos o universo das coisas materiais para atingir o das pessoas. Pelo testemunho, damos de cara com o mistério pessoal: a pessoa não é um problema que se deixe conter em fórmulas ou resolver em equações; ela somente pode ser conhecida por revelação. Não temos acesso à intimidade pessoal a não ser pelo livre testemunho da pessoa. E ela não testemunha sobre si mesma a não ser motivada pelo amor.

O conhecimento por testemunho é, pois, um conhecimento de ordem inferior quando se trata de conseguir uma evidência direta e imediata de alguma coisa, mas não é inferior quando se trata do conhecimento de uma pessoa, quando o testemunho é a única maneira de entrar em comunhão com a pessoa e participar de seu mistério.

A revelação divina enquanto testemunho é justamente a autocomunicação do mistério pessoal de Deus. Deus é Ser pessoal e interioridade por excelência, cujo mistério só podemos conhecer por testemunho, isto é, por uma confidência espontânea que pede nossa aceitação pela fé. Em seu conjunto, o Evangelho se nos apresenta como uma confidência de amor, na qual Cristo, progressivamente, revela o mistério de sua pessoa, o da vida das Pessoas divinas e o de nossa condição de filhos. Os apóstolos são testemunhas do que Cristo disse e fez, mas principalmente de sua Pessoa. Os apóstolos testemunham sua intimidade com o Cristo, o Verbo da vida, o Filho que também está em relação com o Pai e o Espírito Santo, numa comunicação de amor.

O testemunho divino é de uma espécie única, que o distingue do testemunho humano, tanto objetivamente quanto subjetivamente.

O testemunho divino não só afirma a verdade do que propõe a fé, mas também afirma a fidelidade absoluta de seu testemunho. Quando Deus afirma algo, afirma ao mesmo tempo sua própria fidelidade. Deus que atesta é por si mesmo o fundamento absoluto e último da verdade infalível de seu testemunho: é sua própria garantia. Assim a fé apoia-se no Testemunho divino incriado, fundamento último de verdade; apoia-se inteiramente numa Palavra que traz em si mesma sua garantia.

Distingue-se ainda porque, da parte de Deus, o convite a crer se apresenta interna e externamente. Assim o testemunho divino não se limita à manifestação exterior que age mediante a linguagem e os sinais de poder. Sua dimensão mais profunda é uma ação profundamente interior. Diversamente do homem, que só dispõe da eficácia significativa e psicológica da palavra, Deus pode agir diretamente sobre a alma. A Escritura descreve essa ação interior como revelação (Mt 11,25; 16,17), iluminação (2Cor 4,4-6; At 16,14), unção (2Cor 1,21-22), atração (Jo 6,44) e testemunho interior (Jo 15,37; 1Jo 5,6).