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A Pessoa e a missão do Espírito Santo

Neste artigo, proponho refletirmos sobre o Espírito Santo e sua ação que gera comunhão; consideraremos também o que pode atentar contra a “união perfeita” que Jesus quer em sua Igreja (cf. Jo. 17,23).

O Espírito Santo foi revelado por Jesus como a terceira Pessoa da Santíssima Trindade. Não fomos nós que “descobrimos” o Espírito Santo, mas foi Jesus que O revelou, prometeu e enviou. Jesus instruiu os discípulos dizendo que voltaria para o Pai e, em seu nome, o Pai enviaria o Espírito Santo. Este recordaria tudo o que Jesus ensinou e, diante do desafio de novas realidades, ensinaria os discípulos a identificar o que é conforme a vontade de Deus (cf. Jo.14,26). Disse: “Quando eu for, eu vos enviarei o Espírito Santo” (cf. Jo. 16,7); “Eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Paráclito, que permaneça eternamente convosco” (Jo.14,16). Na ordem da revelação, o Espírito Santo foi a última Pessoa da Santíssima Trindade a ser revelada, mas na ordem da graça é a primeira a atuar em nós, suscitando a fé e nos auxiliando a viver unidos a Deus. É o Espírito Santo que nos desperta, sensibiliza e move a acolhermos a Deus e a vivermos a fé cristã. Uma vez despertados à fé, somos unidos a Jesus pelo Batismo e constituídos como Igreja, Corpo de Cristo, Família de Deus. O Espírito santo é o dom que o Ressuscitado concede à sua Igreja; é garantia da presença e ação de Deus na vida de seus discípulos. É o Espírito Santo que, agindo na Igreja, nos leva a viver a fé e estabelece a comunhão entre nós e com Nosso Senhor. A comunhão na Igreja se dá pela profissão da mesma fé, pela comunhão com os legítimos pastores, pela participação nos mesmos sacramentos. Desconsiderando esses elementos, não somos Igreja de Cristo.

Atitude que compromete a comunhão na Igreja

Tudo o que atenta contra a comunhão eclesial não é fruto da ação do Espírito Santo. Como disse Jesus: quem cria divisão é o diabo, o pai da mentira (cf. Jo. 8,44). As divisões surgem quando nos afastamos da verdade e damos primazia às nossas convicções pessoais e às ideologias, quaisquer que sejam, sobrepondo-as à revelação de Deus e à Tradição da Igreja de Cristo. Verdade é o que foi objetivamente revelado e ensinado por Jesus, não o que cada um, de maneira autossuficiente, concebe como “sua própria verdade”. Atualmente, é muito comum que se menospreze a verdade revelada e se absolutize a “verdade de cada um”. Distinta desta verdade subjetiva temos, na Igreja, a profissão comum da mesma fé. Esta é fundamentada na Palavra de Deus, interpretada pela Igreja e não sujeita à convicção de um ou de outro. Há pessoas e grupos que se consideram particularmente iluminados e se atribuem a função de “guardiões da fé”, desconsideram a autoridade estabelecida por Cristo, na Igreja, quando desconsideram as decisões dos legítimos pastores e se constituem, eles mesmos, como critérios da verdade. Isso atenta contra a comunhão da Igreja. Quando uma pessoa ou um grupo, coloca-se como critério de verdade, desconsidera a fé ou as decisões da Igreja, confirmadas colegialmente e apresentadas por seus pastores, incorre naquilo que, em outros tempos, caracterizou o Protestantismo. Tal atitude que absolutiza as convicções pessoais ou de um grupo e relativiza o que é manifesto eclesialmente atenta contra a comunhão na Igreja de Cristo.

Caminho e garantia de comunhão

Com o intuito de promover e fortalecer o espírito de comunhão eclesial, evidenciado e promovido pelo Concílio Vaticano II, o Papa Francisco tem chamado a Igreja a exercitar a sinodalidade, ou seja, o exercício da comunhão pela escuta, pela participação e pelas decisões comuns. Um exemplo bíblico e paradigmático de decisão colegial nós encontramos no início da vida da Igreja, ainda nos tempos apostólicos, quando surgiram alguns cristãos de origem judaica que perturbavam as comunidades dizendo que os pagãos que se convertiam ao cristianismo deveriam também observar os preceitos judaicos. Os Apóstolos depois de se reunirem e considerarem a questão, numa expressão de comunhão sinodal, disseram: “decidimos, o Espírito Santo e nós, não vos impor nenhum fardo”; para quem se converte à fé cristã basta assumir os preceitos cristãos (cf. At.15). Jesus Cristo estabeleceu sua Igreja sobre o alicerce dos Apóstolos (cf. Ap. 21,14); coube a eles no passado e aos seus sucessores, os bispos, ouvir as questões, considerar tudo segundo a Palavra de Deus, a Tradição da Igreja  e as moções do Espírito Santo e, colegialmente, decidir, como fruto de um processo de escuta e participação. Cabe a cada um de nós a disposição de conduzirmo-nos na fidelidade a Jesus, em docilidade à ação do Espírito Santo e aos pastores da Igreja, cultivando assim a comunhão eclesial com determinação e afinco. Manter essas disposições nos fazem perseverar na comunhão que Cristo pediu e deseja para sua Igreja.

Dom Wilson Angotti
Bispo Diocesano de Taubaté