Pastorais e Organismos Pastoral

Novembro já é Negro

No dia 20 de novembro se comemora o Dia da Consciência Negra, um momento para refletir sobre a inserção da população negra na sociedade brasileira.

Até 1888, data oficial da abolição, calcula-se que, em 348 anos, mais de 5 milhões de negros foram sequestrados em África e transportados para o Brasil em navios negreiros, também chamados “tumbeiros” por serem considerados verdadeiras tumbas humanas. Estima-se que 617 milhões foram jogados ao mar, fato que passou a ser denominado como Holocausto Africano ou Holocausto da Escravidão.

Em 1810, um escravizado comprado em Luanda por 70 mil réis era revendido em Minas Gerais por até 240 mil réis – quantia equivalente a 9 (nove) cabeças de gado. Um negócio que rendia ao Estado 80 mil libras esterlinas por ano, hoje o equivalente a 18 milhões de reais.

Mas, desde aquele tempo, houve luta e resistência. Palmares, por exemplo, não era um, mas a soma de 12 quilombos espalhados por trilhas e matas, conforme explica o escritor Eduardo Bueno. O conjunto de residências, iniciado em 1602, chegou a compreender 6 mil casas e 20 mil habitantes. Tombou no dia 20 de novembro de 1695, após 50 anos de lutas, por meio da coalizão de forças dos governos chefiados pelo bandeirante Domingos Jorge Velho. Zumbi morreria em combate, para manter-se vivo na mente do seu povo negro, símbolo de luta e resistência.

Passados 325 anos, os Zumbis do Século 21 continuam sendo assassinados ou colocados à margem da sociedade. E, tristemente, os indicadores mostram que a sanha da violência continua, com ataques racistas nas ruas e nas redes sociais, bem como com assassinatos diretamente decorrentes do racismo.

Após 132 anos da abolição, em todos os cantos do país ainda ocorrem manifestações discriminatórias e preconceituosas contra a cultura negra. Movimentos reacionários apostam na ignorância sobre a realidade e pregam a falácia da democracia racial.

Sabe-se que todas as vidas importam, mas os assassinatos brutais, diariamente, neste país estruturalmente racista, são em sua maioria de vidas negras. Assim, temos que parar de minimizar estas violências cometidas contra a população negra.

Um estudo do Fórum Brasileiro de Segurança Pública aponta que a letalidade policial em São Paulo cresceu 31% no período entre janeiro e abril, mês que bateu recorde de mortes pela polícia (119, contra 78 em 2019) durante a vigência da quarentena. No mês de abril, também em São Paulo, houve, pelo menos, quatro casos de tortura por parte de policiais militares contra negros. As cenas hediondas se repetem nos telejornais. Os assassinatos de negros aumentaram 11,5%, em dez anos, e de não-negros caíram em 12,9% no mesmo período, de acordo com o Atlas da Violência. Em 2018, os negros representaram 75,7% das vítimas de homicídios. São números de uma estatística que deveria indignar a todos nós, que estamos a salvo dessa crônica de mortes anunciadas. Mas não são apenas estatísticas, são pessoas:

  • Guilherme Silva Guedes, 14 anos, foi sequestrado, próximo de sua casa, em Carapicuíba, por sargento da PM e comparsa, e encontrado morto em Diadema, com dois tiros e marcas de espancamento.
  • Em Carapicuíba, Gabriel Nunes de Sousa, 19 anos, foi estrangulado após não conseguir frear a moto e colidir com uma viatura. Caído no asfalto, Gabriel foi asfixiado pelo policial sobre seu pescoço até matá-lo. Cena muito semelhante a que revoltou o mundo com o assassino de George Floyd.
  • W.F.G., nome preservado para sua segurança, de 27 anos, funcionário de uma pizzaria, denuncia: “Pensei que eles iam me matar. Era muita pancada na cabeça”. Ele foi selvagemente espancado por policiais em junho, no bairro do Jaçanã, embora suplicasse: “Eu sou trabalhador. Parem eu sou trabalhador”.
  • No Rio de Janeiro, policiais são acusados pela tortura e assassinato de Iago César, de 21 anos. João Vitor da Rocha, 18 anos, morreu após ser baleado na Cidade de Deus. Em São Gonçalo, João Pedro, 14 anos, foi atingido pelas costas, dentro de casa, por tiro de fuzil em operação policial. “Meu menino era o melhor filho que um pai podia ter”, chora ainda hoje o pai de João Pedro.

Guilhermes, Gabriels, João Vitor, João Pedro e João Alberto no Carrefour, em 19 de novembro, apenas o caso mais recente e, com certeza, não o último. São nomes que revelam um país que ainda carece de um senso mínimo de humanidade.

A pandemia de Covid-19 escancarou as desigualdades no Brasil. Embora tenha chegado inicialmente nas classes mais abastadas, a primeira vítima fatal oficialmente registrada foi uma doméstica negra. E ela continua matando o povo pobre, preto e periférico, pois são os mais vulneráveis – sem segurança alimentar, sem saúde preventiva, com subemprego ou sem emprego, sem um teto condizente para o isolamento, sem água e sem esgoto.

O que fazer?

Não é mais possível nos limitarmos à assinatura de “notas de repúdio” e “abaixo-assinados de solidariedade”. É urgente exigirmos de forma mais contundente o fim de tal estado de barbárie, injustiça e violência. É tempo de levarmos adiante ações práticas condizentes com nossa missão evangelizadora. Exigir dos Governos, em todos os níveis, a implementação de políticas públicas efetivas para a superação desse estado de coisas com ampla participação da comunidade negra em sua formulação e execução.

O MST fez de setembro o mês vermelho na luta pela reforma agrária. Novembro já é negro por lembrar fatos que marcaram a trajetória desse povo ainda à margem na sociedade brasileira, sua importância na construção da cultura e do desenvolvimento nacional e a exigência da luta permanente contra o racismo e por igualdade.

Além disso, precisamos valorizar mais a riqueza de nossa diversidade étnico cultural e conhecermos melhor nossas raízes. O Brasil, com 56% de afrodescendentes em sua população, é o segundo país negro do mundo, ficando atrás apenas da Nigéria. Para isso, devemos descolonizar nossos currículos educacionais, libertando-nos do eurocentrismo e reconhecendo a importância de nossa ancestralidade africana e dos povos indígenas na construção de nossas lutas de resistência, costumes, artes e tecnologias.

Todos somos interpelados por vozes de pessoas que clamam: “I can’t breathe!” (“Eu não consigo respirar!”) “Parem, eu sou trabalhador!” “Era o melhor filho que um pai podia ter!” “Estão me matando!”. Não sejamos indiferentes. Não haverá justiça nem paz sem promoção da igualdade e combate ao racismo.

São Paulo, 30 de novembro de 2020

Comissão Justiça e Paz
Regional Sul 1 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB)

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