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Não usar o nome de Deus em vão: idolatria e egolatria

Quando estudamos os dez mandamentos da Lei de Deus, já no segundo mandamento, nos deparamos com o perigo de tomar o nome de Deus em vão. Quando falamos isso, parece coisa do passado, de mais ou menos 1800 anos antes de Cristo. Mas, quando olhamos a realidade de hoje, logo percebemos que este mandamento é mais atual do que nunca!

Vivemos um tempo difícil de pandemia, ou início do pós-pandemia. Este tempo está marcado por diversas situações que atingem ao povo de Deus.  “Estamos diante de uma globalização causada por um vírus, situação pela qual ainda não tínhamos passado. As crises econômica, política e ambiental não são novas, mas foram aprofundados pela Covid-19. O sofrimento causado pelo desemprego e pela precariedade das condições de trabalho aumentou consideravelmente. Convivemos fortemente com o luto das pessoas, nossos parentes, amigos, funcionários e membros de nossas comunidades religiosas. A violência aumentou contra as minorias e os mais frágeis: as violências perpetradas contra mulheres, pobres, negros, indígenas, homossexuais, crianças, jovens e idosos” (Análise de conjuntura da Equipe Interdisciplinar da Conferência dos Religiosos do Brasil – CRB).

Como Bispo e pastor do meu povo, tenho tudo isso em conta, em minhas orações, preocupações e pastoreio. Sem querer apresentar todas as demandas, e ao mesmo tempo, dizer qual seria a mais emergencial, penso que uma delas, diz respeito diretamente a minha missão e a missão da Igreja: o uso errado com a imagem que temos de Deus e de Jesus Cristo.

Hoje, nossa sociedade vive numa profunda crise de sentido espiritual. Confundimos a imagem de Deus. Temos pessoas que declaram publicamente não acreditar em Deus, mas hoje, o que mais me preocupa é a idolatria e a egolatria.

O que é idolatria? O Papa Francisco define que a idolatria acontece “quando um rosto se dirige reverente a um rosto que não é rosto”. Isto é, quando nos dirigimos a algum objeto que parece nos dar a segurança e felicidade, mas que não dá. Tem muita gente adorando e servindo a um deus que não é Deus. O Deus do Evangelho foi substituído por um deus imaginário, dos interesses pessoais. O Deus de Jesus Cristo foi trocado pela imagem do Deus do Antigo Testamento, o Deus da guerra, da força, da conquista, “acima de tudo” e distante. O Deus idolátrico sempre cobra sangue dos que o servem.

Diz a carta apostólica do Papa Francisco, chamada Lumem Fidei que “a idolatria é sempre politeísmo, movimento sem meta de um senhor para outro. A idolatria não oferece um caminho, mas, uma multiplicidade de veredas, que não conduzem a uma meta certa, antes, as configuram como um labirinto. A fé, enquanto ligada à conversão, é o contrário da idolatria: é separação dos ídolos para voltar ao Deus vivo, através de um encontro pessoal. Acreditar significa confiar-se a um amor misericordioso que sempre acolhe e perdoa, que sustenta e guia a existência, que se mostra poderoso na sua capacidade de endireitar os desvios da nossa história” (cf. nº 13).

Outro problema é a egolatria. Disso se compreende o ídolo é um pretexto para colocar a si mesmo no centro da realidade, na adoração da obra das próprias mãos. Perdida a orientação fundamental, que dá unidade à sua existência, o homem dispersa-se na multiplicidade dos seus desejos; negando-se a esperar o tempo da promessa, desintegra-se nos mil instantes da sua história. Coloca-se acima de Deus, olha apenas para si mesmo, torna-se um mito para os outros, mas no fundo, está cultuando a si mesmo. Não percebe que é efêmero e mortal.

Nós, de fato, não conhecemos a Deus. O que sabemos, é que o nosso Deus é o Deus da Bíblia e principalmente o Deus revelado por Jesus de Nazaré. Mas quem é esse Deus? O Deus verdadeiro é o Deus de Jesus Cristo, que ele nos revela pela sua carne, que se tornou pequeno, que construir o seu Reino entre nós. O Deus de Jesus é encarnado e universal, mas concreto, fez se carne, cultura, sexo. O Deus de Jesus é o Deus da vida, que gera vida e destrói todo sistema de morte. É o Deus da história que se faz história e que nos acompanha de perto, o Deus de Jesus é o Deus dos pobres universal, mas parcial. Deus libertador, presente e atuante na história da humanidade, está em toda as culturas, pai e mãe, criou o homem e a mulher, que luta contra os ídolos de morte. O Deus de Jesus é o Deus trindade amorosa (Pai e Filho e Espírito Santo).

Diante de tudo isso, quem é Deus para você? Tanto o Deus idolátrico quanto o Deus egolátrico, exigem sacrifícios humanos e não nos amam. Só o Deus verdadeiro pode nos trazer felicidade completa, pois é amor e misericórdia.

Dom Manoel Ferreira dos Santos Júnior, MSC

Bispo Diocesano de Registro

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