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Quem de nós já não rezou a oração do “Pai nosso”, na qual pedimos o pão nosso de cada dia? Ou rezou, ou ouviu rezar. O pão aparece na Bíblia com significado todo especial. Não só é o alimento símbolo de todos os demais, mas o próprio Deus se fez pão para nós: “Jesus tomou o pão, abençoou e disse: tomai e comei isto é meu corpo” (Lc 24,30).

Pão, em todas as culturas é tema central. Na vida cotidiana, sentimos a importância da alimentação. Às vezes, a pessoa diz “estou morrendo de fome”. Não é só expressão, é realidade: se deixamos de comer por um tempo prolongado, morremos. Nunca se produziu tanto alimento no mundo como hoje e, no entanto, a fome nunca foi tão fatal.

Os Evangelhos narram também a multiplicação dos pães. A multidão seguia Jesus. Estavam em um lugar deserto, entardecia, o povo tinha fome. Os apóstolos questionam Jesus sobre o que fazer. Jesus lhes responde: “Dai-lhes vós mesmo de comer” (Mt 14,16). Eles procuram e só encontram cinco pães e dois peixinhos que alguém ali possuía, e colocou à disposição. Jesus ora abençoa mandando distribuir. Todos comeram e ainda sobrou. O que sobrou foi recolhido.

Neste acontecimento há um convite para imitar Jesus realizando a multiplicação dos pães. Deus supremo doador dá à natureza condições de produzir o alimento necessário. Confia, porém, ao ser humano a organização da produção e distribuição dos alimentos. Assim, a lição que Jesus dá na multiplicação dos pães é a lição da solidariedade que sabe partilhar. Onde há partilha não há fome. Jesus sinaliza neste episódio uma maneira diferente de organizar a sociedade, na qual o egoísmo e a ganância não formam o núcleo central do sistema, mas sim a vida.

Na verdade, se eu tenho fome, é um problema material meu, mas se meu irmão tem fome, é um problema espiritual meu, ou seja, nós não vivemos bem só quando estamos bem alimentados, mas vivemos bem quando todos estão bem alimentados. O ser humano se alimenta do pão material, imprescindível, e do amor que faz partilhar, pensar nos outros.

Em nosso País é grande a produção de alimentos, inclusive para exportação. Contudo, a fome é presença constante, e hoje se faz mais aguda. As campanhas desenvolvidas para contornar o problema da fome são interessantes, “quebram o galho”, mas não resolvem. O projeto de vida plena para todos com dignidade, ganhou o poder, mas não ganhou o Estado. Temos democracia política, mas não democracia social.

A Igreja Católica tem feito o possível, e muito, para aliviar o sofrimento do povo faminto. Ela não pode descuidar o serviço da caridade, tal como não pode negligenciar os sacramentos nem a missão de pregar a Palavra de Deus (cf. Bento XVI in DCE 22). No entanto, a sociedade justa que desejamos, não é obra da Igreja, deve ser realizada pela política que é a arte de trabalhar e promover o bem comum. Os cristão, que rezam o Pai nosso, não podem esquecer o pão nosso!

Continuamos esperando o milagre da multiplicação dos pães que Deus espera que nós realizemos, na perspectiva do Reino de Deus e que se chama distribuição de renda. Uma justa distribuição de renda dará pão sem assistencialismo e sem criar dependências.

Dom Pedro Carlos Cipollini

Bispo de Santo André