Destaques Homilia Presidente

Homilia do Presidente do Regional Sul 1 da CNBB na Missa de posse da Comissão Justiça e Paz

crédito fotográfico: Luciney Martins/O SÃO PAULO

A seguir, a íntegra da homilia de Dom Pedro Luiz Stringhini, Presidente do Regional Sul 1 da CNBB, proferida na tarde deste sábado (17/10), na Basílica Nossa Senhora do Carmo, em São Paulo para a Missa de posse da Comissão Justiça e Paz do Regional Sul 1, no Estado de São Paulo

 

MISSA DE POSSE DA COMISSÃO JUSTIÇA E PAZ DO REGIONAL SUL 1 DA CNBB

29º do Tempo Comum – Ano A (18.10.20)

“Dai-nos a graça de estar sempre ao vosso dispor e vos servir de todo o coração”. (Oração da Missa)

Servir a Deus de todo o coração! Servir aos irmãos na caridade! Servir à Igreja na Missão!

  1. Dia Mundial das Missões

A Igreja celebra nesse domingo o Dia Mundial das Missões. Jesus Cristo, missionário do Pai, enviou seus apóstolos ao mundo com o mandado: “ide, pois, fazer discípulos entre todas as nações” (Mt 28,19). O cristão é discípulo-missionário. O campo da missão é o mundo, com seus desafios. O destinatário da missão é o ser humano, olhado a partir do seu sofrimento.

A missão da Igreja é Evangelizar, levando a todos o anúncio do Reino de Deus: “Publicai entre as nações: Reina o Senhor. Ele julga os povos com justiça” (Sl 95). A fome e a sede de justiça impulsiona a Igreja a evangelizar a partir dos pobres, com os olhos fixos em Jesus. Da compaixão e a misericórdia do coração de Cristo decorre a dimensão sócio-transformadora da missão da Igreja.

  1. Mt 22,15-21 – “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus!”

A pergunta que os Fariseus – nacionalistas judeus – e os Herodianos – representantes do império romano – fazem a Jesus é capciosa, reducionista e maliciosa, pois ignora a dialética. Jesus não cede à provocação e responde com sabedoria, por isso ele opta por não contrapor Judeus e Romanos, mas Ele contrapõe CÉSAR e DEUS.

A CÉSAR pertencem as realidades do mundo (os sistemas, os regimes, a política), a DEUS pertencem as coisas do alto, as realidades sobrenaturais. A CÉSAR pertence o reino deste mundo, a DEUS o Reino dos Céus. A CÉSAR pertence a política sectária, dominadora e excludente; a DEUS pertence a política do bem comum que governa do mundo segundo os critérios da justiça. A CÉSAR pertence o imposto (carga tributária), o mercado financeiro, a exploração, o descuido com a criação, a exclusão social, etc. A DEUS pertencem a justiça, a equidade, fraternidade, partilha, paz, a harmonia da criação.

Jesus sabe fazer a distinção entre o Estado e Deus. Ele sabe que a POLÍTICA – seja dos romanos (herodianos), dos judeus (fariseus), da Pérsia (com o ungido Rei Ciro), da Babilônia (Nabucodonosor) e também a política nos dias atuais (com as diversas ideologias) – tem que estar a serviço do Reino de Deus, promovendo a cidadania, o bem comum, a dignidade do ser humano, o direito dos pobres e não de outros interesses escusos e egoístas. Promover a verdade e não as fake news …!

Na História humana, o mundo de César (dividido e fragmentado) e o mundo de Deus (reconciliado e harmonioso) precisam se encontrar, por meio do diálogo entre fé e razão, ciência e religião, política e espiritualidade, fé e compromisso social. Esse encontro se dá, sobretudo, na superação das injustiças, na construção da paz e no exercício da liberdade.

A palavra de Jesus é contundente porque ele é livre. Ele é testemunha da verdade. Ele é a própria Verdade. Age com coerência e liberdade para, dependendo das circunstâncias, obedecer ou resistir a César. Obedecer no exercício da cidadania (dos deveres) e resistir no exercício da profecia (dos direitos). Jesus relativiza as estruturas humanas em face do absoluto de Deus, de quem provém “a vida do meu povo” (cf. Ester), a justiça e o direito (cf. Isaías); a verdade e o amor (Sl 85/84), a misericórdia e a compaixão.

Diante da injustiça e das ameaças à vida do ser humano e da criação, o cristão segue Jesus e “seu imposto a César deve ser um tributo crítico, um compromisso ativo para a transformação da sociedade” (Raniero Cantalamessa, O Verbo se fez Carne, Ed. Ave Maria).

  1. A atualidade da mensagem do evangelho

A mensagem de Jesus se aplica à realidade atual. Sua sabedoria ilumina, como diz São Paulo, “a atuação da vossa fé, o esforço da vossa caridade e a firmeza da vossa esperança” (cf 1Ts 1,3), pois, segundo o mesmo apóstolo Paulo: “o evangelho não chegou até vós somente por meio de palavras, mas também mediante a força do Espírito Santo” (1Ts 1,5).

As Comissões de Justiça e Paz – em nível nacional, regional ou diocesano – estão na linha de frente do testemunho profético da missão da Igreja. E esta Comissão Justiça e Paz do Regional Sul 1, empossada nessa celebração, compromete-se com questões emblemáticas a serem enfrentadas com coragem, firmeza e altivez, quais sejam:

1)           Questões ligadas aos direitos humanos: pobres, minorias, presos, população de rua, desempregados;

2)           O Pacto pela vida e pelo Brasil (da CNBB), propondo “o exercício de uma cidadania guiada pelos princípios da solidariedade e da dignidade humana, assentada no diálogo maduro, corresponsável, na busca de soluções conjuntas para o bem comum, particularmente dos mais pobres e vulneráveis”.

3)           O Pacto educativo global proposto pelo Papa Francisco, com vistas a colocar a pessoa no centro de cada processo educativo, dando voz às crianças, adolescentes, jovens e tendo a família como primeiro e indispensável sujeito educador. Para o Papa, é importante educar para o acolhimento, abrindo-nos aos mais vulneráveis e marginalizados.

4)           A Economia de Francisco (re-almar ou reanimar a economia), que busca encontrar formas de compreender a economia, a política, o crescimento e o progresso, na perspectiva duma ecologia integral, isto é, guardar e cultivar a nossa casa comum, protegendo-a da exploração dos seus recursos, adotando estilos de vida mais sóbrios.

5)           A Encíclica “Fratelli Tutti”, sobre a “fraternidade universal”. Ela “nos mostra novos caminhos de humanização da vida, através da fraternidade e amizade social. Seguindo Jesus Cristo e o exemplo do Santo de Assis, o Papa Francisco nos anima a construir uma vida ‘com sabor de Evangelho’, com simplicidade e alegria, como irmãos dos pobres e da natureza. O Papa nos convoca também a comunicar o amor gratuito de Deus sem impor doutrinas mas indo ao encontro do outro” (mensagem da presidência do CELAM).

Deus nos ajude pela intercessão de Nossa Senhora do Carmo, cuja basílica abriga este momento de oração e compromisso. Amém!

São Paulo, 17 de outubro de 2020

Dom Pedro Luiz Stringhini
Presidente do Regional Sul 1 da CNBB

Palavra do Presidente

Facebook

Assine nossa newsletter

Conheça nossos parceiros.