Com a palavra o Presidente

Homilia na Beatificação da Serva de Deus Madre Assunta Marchetti

(Saudações ….)

Irmãos e irmãs:

Celebramos um momento muito especial da vida da Igreja, que reconhece e proclama formalmente que sua filha, Assunta Marchetti, foi uma cristã extraordinária, que viveu de maneira exemplar a fé, a esperança e a caridade; ela, nascida na Itália, foi uma missionária no Brasil, sobretudo aqui em São Paulo, onde testemunhou a caridade de Cristo para com os órfãos, migrantes e demais pessoas necessitadas…

As pessoas santas orientaram sua vida pela Palavra de Deus e pelo exemplo de Cristo: “bem-aventurados aqueles que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática”… (cf Lc 11,28)
Na 1ª leitura (Provérbios,31,10-31) aparece a pergunta: qual é a mulher forte, que merece a maior honra e louvor? E cita uma série de qualidades louváveis da mulher: empreendedora, cheia de iniciativas, zelosa, que não deixa faltar nada aos filhos e ao marido e que lhes dá honra e fama…. Sem desprezar nenhuma dessas capacidades louváveis, o próprio autor inspirado responde: a mulher que teme o Senhor, que orienta sua vida pela vontade de Deus, essa merece louvor mais que todas. Pois somente as obras que são feitas segundo Deus permanecem. O resto passa e acaba logo esquecido…

A bem-aventurada Assunta foi uma mulher muito forte e empreendedora; como jovem, nada lhe faltava para ter uma boa posição na sua comunidade local, na Itália. No entanto, motivada por sua fé em Deus e pelo amor ao próximo, ela abandonou tudo, inclusive sua pátria e as seguranças que tinha, para seguir a vocação religiosa e missionária, dedicando a vida aos migrantes, sobretudo pobres e doentes, aos órfãos e desamparados… Para eles foi “mãe” solícita, que, como a mulher descrita na 1ª. leitura, trabalhou muito para não lhes deixar faltar nada… Sua vida foi inteiramente orientada pela caridade de Cristo, que ardia no seu coração, e que lhe ajudava a ver em cada pessoa um filho de Deus, um irmão e uma irmã, imagem e semelhança do próprio Jesus Cristo.

No poema à caridade, da 1ª Carta aos Coríntios (13,1-13), São Paulo convida a buscar o caminho melhor e a virtude mais alta na vida cristã; e esse caminho e virtude consistem em amar como Jesus Cristo amou: amor de caridade, de doação sem medida e sem interesse pessoal, ao ponto de entregar inteiramente a vida pelo próximo. Este ideal alto é proposto a todos os discípulos pelo próprio Jesus, quando ele diz: “como eu vos amei, assim amai-vos também vós uns aos outros… Ninguém tem maior amor do que aquele que entrega a vida pelos amigos” (cf Jo 15,13). Todas as ações da nossa vida precisam ser motivadas por esse amor de caridade, à semelhança de Jesus. Sem isso, as ações mais louváveis, como aquelas citadas por São Paulo, poderiam ser movidas apenas por interesse e vaidade pessoal; poderiam ser ações vazias e não ter valor diante de Deus.

A bem-aventurada Assunta Marchetti nos deixou um testemunho dessa caridade. Na sua doação aos órfãos e aos pobres, ela não buscou vantagens pessoais e, por isso, também conseguiu mover tantas pessoas a colaborarem com ela, quer as irmãs que se agregavam à Congregação que ela ajudou a fundar, quer os leigos e as comunidades locais, na busca de servir os irmãos. “Seria como o bronze que soa ou o sino que retine”… Os santos nos ensinam, com o testemunho de sua vida, a viver a caridade de modo autêntico.

O Evangelho (Mt 5,1-12) nos apresenta as bem-aventuranças, segundo o Evangelho de São Mateus. Elas retratam o jeito de viver dos discípulos de Cristo e manifestam a lógica das coisas de Deus, que é bem diferente da nossa. Elas traduzem o jeito de viver de quem se voltou inteiramente ao reino de Deus anunciado por Jesus. Quantas pessoas fizeram das bem-aventuranças o seu jeito de viver e ficaram santas! Não dá para ser bons cristãos, sem viver o espírito das bem-aventuranças.
Assunta Marchetti não somente viveu segundo as bem-aventuranças, consagrando-se inteiramente a Deus na vida religiosa, mas ainda dedicou a sua vida inteira para o bem do próximo.

Estamos em outubro, mês das missões e lembramos o trabalho dos missionários. Quanto bem fizeram entre nós os missionários, vindos de outros países ao longo de nossa história! Desde São José de Anchieta, Manoel da Nóbrega e seus companheiros, muitos aqui trouxeram o Evangelho de Cristo, cultivaram e testemunharam a fé e a vida cristã no povo ao longo desses 4,5 séculos de história da nossa cidade. Aqui Santa Paulina dedicou-se com coração materno aos pobres, idosos e doentes; outros, a exemplo do beato Padre Mariano de la Mata, foram pastores solícitos e zelosos, dando testemunho da caridade de Jesus Cristo bom Pastor no meio do povo…

Quanto devemos aos santos e generosos missionários e missionárias, que serviram nossa Igreja em São Paulo e no Brasil! Eles deixaram aqui as suas marcas e continuam a nos estimular para fazermos também a nossa parte na missão da Igreja. Eles agora são nossos intercessores junto de Deus e exemplos de vida cristã.

Hoje temos a graça de testemunhar a beatificação de Madre Assunta Marchetti, uma missionária e fundadora de uma Congregação Religiosa com carisma missionário. Foi no dia 25 de outubro de 1895 que ela emitiu a primeira os primeiros votos diante de Dom João Batista Scalabrini, bispo de Piacenza… Ela viveu aqui em São Paulo em tempos difíceis, dedicando suas energias e capacidades sobretudo aos órfãos e aos imigrantes, que vinham para cá em grande quantidade mas encontravam-se muitas vezes em situação precária e estavam sujeitos a todo tipo de exploração…

Este problema, infelizmente, não foi superado e hoje assistimos a novos fluxos migratórios no mundo e em São Paulo também. Que o exemplo de Madre Assunta nos ensine e ajude a acolher e servir os migrantes, lembrados das palavras de Jesus: “eu era forasteiro e vós me acolhestes”…

Estamos prestes a iniciar o ano dedicado pelo papa Francisco à Vida Religiosa e hoje assistimos à beatificação de uma Religiosa e co-fundadora da Congregação das Irmãs Missionárias de São Carlos Borromeu. Essa Congregação floresceu e se expande na Igreja, produzindo frutos de caridade e vida cristã. Os religiosos evangelizam sobretudo pelo testemunho de sua vida inteiramente voltada para os valores do Evangelho do Reino de Deus.

Que a bem-aventurada Madre Assunta interceda junto de Deus pelas consagradas e consagrados à Vida Religiosa na Igreja, a fim de que possam viver com alegria e generosidade, o carisma de sua consagração, dando a todos o testemunho da alegria da fé e da liberdade sem igual encontrada no seguimento de Cristo, casto, manso e pobre, inteiramente voltado para Deus e inteiramente dedicado para os outros.

Santos religiosos e religiosas, rogai por nós! Santos e santas missionários, rogai por nós!

Santos e santas que viveram em nossa cidade, rogai por nós!

Catedral Metropolitana Nossa Senhora da Assunção, 25/10/2014

Cardeal Odilo Pedro Scherer, Arcebispo de São Paulo e Presidente do Regional Sul 1 da CNBB

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