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“Fraternidade: biomas brasileiros e defesa da vida”

Prezados irmãos e irmãs da Igreja de Deus que se faz presente na Diocese de Jundiaí:

Todos os anos, desde 1964, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) apresenta a Campanha da Fraternidade (CF) como caminho de conversão no tempo da Quaresma. Os quarenta dias que antecedem a celebração do Mistério Pascal (Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor Jesus) constituem tempo forte e privilegiado para que a força do Espírito Santo nos faça viver a graça da conversão, na sobriedade e no despojamento, a fim de criarmos novas relações com Deus, com o nosso próximo e com a natureza.

“Fraternidade: biomas brasileiros e defesa da vida” é o tema da Campanha para a Quaresma 2017. O lema é inspirado no texto do Livro do Gênesis 2,15: “cultivar e guardar a criação”. A Campanha tem como Objetivo Geral: “Cuidar da criação, de modo especial os biomas brasileiros, dons de Deus, e promover relações fraternas com a vida e a cultura dos povos, à luz do Evangelho” (n. 10 do Texto-Base da CF 2017).

A expressão “bioma” vem de “bio”, que em grego quer dizer: “vida”, enquanto “oma”, também em grego quer dizer: “massa, grupo ou estrutura de vida”. Assim um “bioma” é “um conjunto de vida (animal e vegetal) constituído pelo agrupamento de tipos de vegetação contíguos e identificáveis em escala regional, com condições geoclimáticas similares e história compartilhada de mudanças, o que resulta em uma diversidade biológica própria” (n. 4, do Texto-Base da CF 2017). Portanto, o tema deste ano da CF trata da riquíssima diversidade de culturas, climas, terras, florestas, águas, minerais da natureza do nosso país, da qual cada um é chamado a ser cultivador e guardador, pois ela é dom do amor do Deus Criador.

Os especialistas dividem o Brasil, país “continental”, tal a sua extensão, em seis biomas, alguns com milhões de quilômetros quadrados. São eles: a Floresta Amazônica, o Cerrado, a Mata Atlântica, a Caatinga, o Pampa e o Pantanal. O Estado de São Paulo situa-se no bioma Mata Atlântica, considerada uma das áreas mais ricas em espécies da fauna e da flora mundial. Na região se localizam os rios que abastecem cerca de 70% da população brasileira. Tem mais de 1.300 espécies de animais e cerca de 20 mil espécies de plantas. Entretanto, desde o descobrimento do Brasil, o patrimônio ecológico e cultural do bioma Mata Atlântica vem sendo destruído e ameaçado: desmatamentos; morte e tráfico de espécies; crescimento urbano desordenado e concentração de riquezas; ausência de saneamento básico; poluição das águas; violação dos direitos das populações tradicionais; falta de consciência ecológica; descompromisso político para com o meio ambiente. Que triste realidade!

Queridos irmãos diocesanos: contextualizando a degradação do bioma Mata Atlântica, quero destacar, entre outras, algumas questões problemáticas que nos atingem muito de perto: (1) As áreas de Proteção Ambiental de Cajamar, Cabreúva e Jundiaí interligadas visam à proteção do maciço do Japi, formado pelas Serras do Japi, Guaxinduva, Guaxatuba e Cristais, uma pequena cadeia montanhosa que, com seus 354 quilômetros quadrados de área, faz divisa com oito municípios dos onze que constituem a nossa Diocese: Jundiaí, Cabreúva, Cajamar, Itu, Itupeva, Campo Limpo Paulista, Várzea Paulista e Salto. Sabemos como a riqueza da biodiversidade dessa região enfrenta atualmente sérias ameaças, como: a expansão urbana e grande pressão imobiliária; a extração mineral e vegetal; o desmatamento; as monoculturas e técnicas ultrapassadas de agricultura; as atividades de caça e os incêndios. (2) O Rio Tietê, que percorre os municípios de Santana do Parnaíba, Pirapora do Bom Jesus e Itu como também, o Rio Jundiaí, que percorre cinco municípios localizados em nossa Diocese: Campo Limpo Paulista, Várzea Paulista, Jundiaí, Itupeva e Salto, onde a foz do Rio Jundiaí se une ao Rio Tietê. Embora seja um dos rios mais importantes economicamente para o Estado de São Paulo e para o país, o Rio Tietê ficou mais conhecido pelos seus problemas ambientais. (3) Remanescentes Florestais, Áreas de Proteção de Mananciais, Matas Ciliares, Áreas Verdes Urbanas, Parques e Praças: embora estas áreas estejam mais próximas e ao alcance da comunidade, sofrem com o descaso, o descarte irregular de resíduos, a depredação, o vandalismo; (4) Por outro lado, se faz necessária a criação de corredores que possam interligar os diversos maciços florestais remanescentes e em recomposição, a fim de que os animais possam ter espaço suficiente para se manterem vivos e não caminharem para a extinção.

Alguns podem pensar que a temática da CF deste ano é abstrata e pouco tem a ver com a prática da fé cristã. Para a maioria das pessoas, talvez o conceito “bioma” seja até desconhecido. Na verdade, porém, a CF 2017 quer que tomemos consciência da obra da criação e que assumamos o cuidado de tanta beleza e riqueza, fonte de vida para milhões dos seres humanos. A temática da CF tem uma forte fundamentação tanto bíblica como também do ensinamento da Igreja. As narrações da criação no livro do Gênesis, na sua linguagem simbólica e narrativa, mostram que a criação é obra do amor de Deus e que o ser humano, criado à imagem e à semelhança de Deus (cf. Gn 1,27), recebeu a vocação de “cultivar e guardar” o jardim do mundo (cf. Gn 2,15). Recentemente, Papa Francisco lançou a Carta Encíclica “Laudato Si’ (Louvado sejas), Sobre o cuidado da casa comum (24/05/2015), na qual insiste que a natureza é um dom de Deus, da qual nós, seres humanos, somos parte integrante, mas também seus zeladores e cultivadores.

Quaresma é tempo de conversão. Que tal, segundo a proposta do Papa Francisco na sua Carta Encíclica, vivermos a “conversão ecológica” como prática da CF 2017: “A crise ecológica é um apelo a uma profunda conversão interior… Viver a vocação de guardiões da obra de Deus não é algo de opcional nem um aspecto secundário da experiência cristã, mas parte essencial duma existência virtuosa” (n. 217). Diante dos grandes desafios ambientais e do compromisso de defender e promover a vida, há tanto o que fazer em relação ao bioma Mata Atlântica, no qual estamos inseridos, como por exemplo: exigir do poder público o respeito ao meio ambiente e a consolidação do plano municipal do saneamento básico; acompanhar a reflexão da temática da CF nas Câmaras Municipais; suscitar uma nova consciência e novas práticas na defesa dos ambientes essenciais à vida; aprofundar o discurso sobre o tema da CF nas celebrações, nas escolas, nas reuniões de pastoral; fomentar e apoiar ações relacionadas com a despoluição e revitalização dos nossos rios; reciclar os resíduos que produzimos e destiná-los corretamente; estimular o plantio de hortas comunitárias…

Celebramos o Ano Nacional Mariano e os 300 anos do encontro da Imagem de Nossa Senhora Aparecida pelos pescadores do Rio Paraíba do Sul. Hoje, é o rio que pede cuidado e cultivo. Que Maria, Mãe de Jesus, nos acompanhe no caminho de conversão neste tempo da Quaresma e na “conversão ecológica” em relação aos “biomas brasileiros e à defesa da vida”.

Uma boa Quaresma e uma frutuosa CF 2017. E a todos abençoo.

Por Dom Vicente Costa, Bispo de Jundiaí.

 

 

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