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Experiência das Irmãs Missionárias na Amazônia é destaque em Revista

Celebração de Cinzas na comunidade ticuna Mãe de Deus

O Regional Sul 1, através do Projeto Igreja Irmãs dos Regionais Sul 1 (Estado de São Paulo) e Norte 1 (Amazonas e Roraima) da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), acompanha e sustenta financeiramente uma missão em Santa Rita do Weil (AM). A Revista Mundo e Missão, de janeiro e fevereiro, destacou um desses Projetos mantidos por uma comunidade religiosa no município amazonense de São Paulo de Olivença, na fronteira ocidental da Amazônia brasileira. Confira a matéria na íntegra:

Nasceu! Dulce mandou chamar!

Foi o que uma religiosa ouviu do adolescente que batia insistente- mente à porta da sua casa às 22h. A partir dessa emergência falamos de mais uma missão das irmãs Missionárias da Imaculada

Por Ir. Regina da Costa Pedro

Fazia tempo que o garoto batia à porta. Como a irmã Dora repousava, custou a atender. “Bem que podia ter gritado”, pensou. Mas não é do costume do povo Ticuna levantar a voz. Uma pergunta martelava a cabeça da religiosa: “Será que aconteceu algum problema? Se a criança nasceu, por que o chamado a essa hora?”. Não adiantava perguntar ao mensageiro, que mal falava o português. “Nasceu! Dulce mandou chamar!” era só o que ele repetia. Dora tratou de arranjar uma boa lanterna para atravessar o vilarejo de Santa Rita, no escuro, até a casa de Dulce. No caminho, uma perigosa yara’raca (jararaca) passou por eles e seguiu seu caminho.

Quando chegaram à casa de Dulce, toda a família rodeava a menininha minúscula, nascida há cerca de uma hora. Já haviam lavado o bebê, a mãe estava bem e aparentemente não havia motivo para chamarem a irmã, exceto por um detalhe: amarrar e cortar o cordão umbilical era tarefa reservada a alguém especial, e que deverá ter uma tarefa importante na vida da criança. Comovida, irmã Dora fez o que se esperava dela e daí em diante tornou-se comadre de Dulce.

ARMANDO A TENDA

Faz pouco mais de um ano que a comunidade das irmãs Missionárias da Imaculada armou a sua tenda na vila de Santa Rita do Weill, um distrito de São Paulo de Olivença (AM), na diocese do Alto Solimões. Sua casa ainda não está terminada e um dos problemas cruciais é a captação e conservação da água de chuva, pois a do poço é imprópria ao consumo humano. No rio Solimões, a água potável é luxo. Deve ser comprada. Sem contar que as irmãs lavam roupa em um pequeno e capenga estrado de madeira atrás da casa; serviço a ser feito antes que o sol esquente – o que acontece bem cedo – ou depois que ele esfria – o que ocorre só ao entardecer.

As irmãs ainda armam a tenda também porque não foi possível formar uma comunidade com quatro membros, como se desejava. Vários fatores foram responsáveis pelo atraso. Assim, com certa frequência apenas uma irmã permanece por um tempo. Consequentemente, não se conseguiu elaborar um planejamento da ação evangelizadora como elas desejavam. Por outro lado, um ano talvez seja realmente o tempo para ir entrando, de mansinho, na vida do povo.

DE IGREJA EM VISITA À IGREJA PERMANENTE

Almoço na casa do ministro da palavra da comunidade Ticuna Mãe de Deus, Rio Jacurapá

As irmãs não conhecem o ócio. Em Santa Rita estão em contato com os povos Kokama. Visitam diversas comunidades, começam a conhecer os Ticuna, outro povo originário, majoritário na região, e se colocaram a serviço da diocese, que carece de pessoas preparadas para ajudar a coordenar as áreas bíblica e catequética.

O desejo é que essa presença em Santa Rita seja o sinal de uma Igreja que quer passar da visita à permanência. Dom Adolfo Zon Pereira, bispo da diocese, falou com alegria que já no  Instrumentum  Laboris  do Sínodo Amazônico, esta ideia era clara: “É necessário passar de uma ‘Igreja que visita’ para uma  ‘Igreja  que  permanece’, que acompanha e está presente através de ministros provenientes de seus próprios habitantes”. Segundo o bispo, a presença das irmãs tem uma função fundamental na formação daquelas e daqueles que assumem a vida das comunidades. O objetivo é que os povos Kokama e Ticuna, os ribeirinhos e os provenientes de fora possam afirmar: “Nós, aqui neste lugar, somos a Igreja de Cristo!”.

A aspiração é que as irmãs transformem Santa Rita em um centro para as comunidades dos arredores. Essa presença tem uma função importante na promoção da vida em todos os sentidos; por isso, elas começam a estudar a língua Ticuna, que é a porta a um trabalho mais capilar a partir da realidade cultural das pessoas que aqui habitam. Elas sentem também a necessidade urgente de continuar as visitas, de conhecer o território para levantar os problemas mais urgentes e as intervenções transversais possíveis, desejáveis.

A MOÇA NOVA, A BOA NOVA

Em Santa Rita alguns desafios são corriqueiros: abuso de crianças, degradação do meio ambiente e dificuldade para descartar o lixo corretamente, violência generalizada em particular contra a mulher, consumo precoce de álcool e outras drogas, desrespeito à cultura dos povos originários.

Por outro lado, a beleza e a força da vida se manifestam continuamente. Isso aparece claramente em um dos ritos importantes dos Ticuna, o ritual da Moça Nova, com o qual a adolescente na puberdade é iniciada ao seu papel de mãe. O rito conserva seu aspecto festivo e o desejo de renovação: em cada nova jovem preparada para a maternidade, o povo inteiro se renova, e isso é motivo de alegria. A festa rememora a cultura ancestral e os mitos que fortalecem a identidade, para que esta passe de geração a geração.

De certa maneira, o que a comunidade das Missionárias da Imaculada começa a fazer com sua vida, seus gestos e palavras, é realizar o que o ritual da Moça Nova faz acontecer. De fato, o anúncio da Boa Nova de Jesus para os povos da Amazônia quer ser uma força para promover a vida boa, a vida de qualidade que se transmite, que é plena. Vida do povo da terra que, no meio da noite, manda chamar quem vem de fora, porque reconhece, naquela presença, um cuidado especial para com a própria vida.

O artigo, na íntegra, pode ser conferido  na Revista Mundo e Missão, de janeiro e fevereiro 2020. Reproduzimos o texto, com autorização da Revista.

 

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