A estética é o campo da filosofia que se dedica ao estudo da beleza em si. Sua finalidade é compreender quais são os elementos que levam a perceber e avaliar uma determinada realidade como bela. A estética permite fazer uma análise crítica de como a arte, a música, a literatura e outras expressões artísticas afetam a percepção humana, isto é, como o ser humano percebe a beleza. Para além das artes, a estética também está presente em outras tantas e diversas áreas da atividade e do conhecimento humano. A estética está presente na arquitetura, na moda, na decoração dos ambientes, na maneira como se constrói um mobiliário e como se dispõem as peças, entre outras coisas.

Podemos fazer uma distinção entre a estética ou beleza natural e a estética ou beleza artificial. A estética natural é aquela que vemos na beleza de uma flor, aquela mais simples, que nasce em um cantinho qualquer. Essa pequena flor tem uma forma e uma cor que são particularmente harmônicas. Podemos pensar também em uma árvore, que embora tenha galhos retorcidos e até secos, tem também suas folhas, flores e até serve de suporte para outras formas de vida, como orquídeas ou bromélias. Existe ali uma estética, uma beleza não planejada. Esse raciocínio pode ser estendido às demais criaturas, independentemente do tamanho ou da sua finalidade. A beleza é um atributo essencial de Deus. Só Deus é belo por excelência e Sua beleza está presente na criação.

A estética ou beleza artificial é aquela que sofre a interferência humana. Ao plantar um jardim, por exemplo, não é suficiente plantar flores e árvores, é preciso criar uma harmonia entre os elementos. A beleza está no conjunto, não nos elementos individuais. O mesmo se pode falar da arquitetura, que faz aparecer a beleza usando linhas retas ou curvas, organizando os elementos que vão compor a harmonia segundo uma escola ou ideia arquitetônica. A decoração de um ambiente é outro exemplo de beleza artificial, arrumando as coisas segundo um padrão estabelecido daquilo que combina e o que não combina. A moda oferece mais um modelo eloquente de beleza artificial, onde a cada ciclo anual alguém dita que cor combina e que cor está fora da moda, além de muitos outros detalhes.

A estética artificial está impregnada no comportamento e na vida social dos dias atuais. Ela dita padrões de beleza que levam as pessoas a se submeter a intervenções, que nem sempre são bem-sucedidas, mas por convenção é preciso dizer que está ótimo. Atores, atrizes e personalidades conhecidas se submetem a esses procedimentos e depois aparecem desfigurados, mas ainda assim são elogiados. Pessoas pagam para um decorador fazer o trabalho de criar os ambientes esteticamente perfeitos em suas casas. Mas em que medida isso tem relação com quem mora na casa? Vestir uma roupa de alta costura ou usar um acessório de marca é de fato gosto pessoal ou apenas uma busca por seguir padrões que foram ditados? A estética artificial não fica restrita a essas situações, ela vai além e mais profundo.

Numa sociedade marcada pela estética artificial não há espaço para o que está fora dos padrões de beleza estabelecidos. Não há espaço para situações que colocam em risco a estabilidade desejada, que destruam os projetos idealizados ou que provoquem desconforto. Entre os pontos que entram em conflito com a estética artificial estão os pobres, os doentes, as pessoas marginalizadas e nos extremos do problema da busca pela perfeição estão as crianças e os idosos. Os pobres são empurrados para as periferias, principalmente nas grandes cidades, os doentes enfrentam a espera por ajuda e os marginalizados vivem nas praças e marquises. Para os idosos o caminho parece ser os asilos, o esquecimento e a eutanásia. Para as crianças indesejadas a solução vem pela descriminalização do aborto. Na sociedade que está em busca da beleza artificial surgem algumas perguntas, que parecem “inteligentes” segundo as palavras de um certo “líder religioso”. Não é preferível o aborto a ter uma criança revoltada? Não é preferível o aborto a uma criança abandonada? Não é preferível um aborto a uma criança que vai nascer doente, que vai custar muito à sociedade?

A sociedade da beleza artificial desconhece a verdadeira Beleza, que é Deus e, portanto, desconhece a dignidade da pessoa. Quando rejeitamos a Beleza por excelência, ela é substituída por uma estética medíocre e desumana, onde a pessoa pode ser descartada, no caso do aborto provocado, descartada como lixo hospitalar. A sociedade da beleza artificial é cada vez mais desumana, mais materialista, buscando sempre colocar em primeiro plano o bem-estar individual. Como cristãos, qual é a estética que direciona os nossos atos? Frente a tudo isso, a firmeza da palavra da Igreja e o testemunho dos filhos da Igreja devem soar como uma voz que grita em favor da vida, defendendo a dignidade de toda pessoa humana, da concepção até o seu fim natural, passando por todas as etapas, com seus sofrimentos e alegrias.

Dom Devair Araújo da Fonseca
Bispo de Piracicaba