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Ecumenismo em tempos de pandemia

A pandemia de COVID 19 também é ocasião de reflexão na semana de oração pela unidade dos cristãos, celebrada no Brasil entre o Domingo da Ascensão de Jesus ao Céu e o Domingo de Pentecostes. Como nos posicionamos diante do fenômeno assustador desta pandemia? Como respondemos ao desafio que ela representa às nossas ações religiosas e eclesiais? Ela também pode ser ocasião para ações ecumênicas?

As doenças sempre interpelaram a fé religiosa e levaram a questionar a nossa fé cristã no Deus da vida, diante dos sofrimentos e da morte causados pelas enfermidades. A doença é um castigo de Deus? Nesse caso, como explicar que pessoas boas e crianças inocentes também fiquem doentes? Somos sempre de novo confrontados com a mesma questão posta no livro de Jó. A resposta nem sempre é fácil e não satisfazem soluções escapistas ou mágicas, que estejam em desacordo com as bases bíblicas de nossa fé cristã.

A pandemia desafia nossa fé comum e o povo, muitas vezes, espera de nós respostas confortadoras e honestas. Penso que, de um lado, devemos manifestar o devido apreço pela busca das soluções científicas para as doenças. Deus deu à criação uma autonomia própria e, ao homem, deu a inteligência para conhecer a lógica interna e o dinamismo próprio da natureza. E, assim fazendo, o homem consegueconhecer e debelar as doenças e levar alívio para os sofrimentos. Tenho rezado muito pelos cientistas e pesquisadores, para que, iluminados Espírito de Deus no seu esforço humano, eles consigam encontrar quanto antes uma vacina preventiva contra o novo Coronavírus e uma medicação eficaz contra a doença que ele provoca.

Da fé cristã também decorre a viva a confiança em Deus misericordioso e providente, que não abandona o homem, mesmo nas situações mais difíceis e angustiantes. Pelo contrário, é nessas situações que, conforme ensinamento bíblico muito firme, Deus está mais perto do homem e lhe estende a mão para socorrê-lo. Nossa fé cristã não nos permite misturar Deus com o mundo, ao ponto de anular a maravilha da lei impressa pelo mesmo Deus criador na sua criação. Ao mesmo tempo, nossa fé não nos permite separar tanto o mundo de Deus, ao ponto de criar uma indiferença absoluta de Deus em relação ao mundo, como se este tivesse sido abandonado à própria sorte. A fé cristã fala da misteriosa e ativa providência de Deus em relação à sua criação e da ação do Espírito Criador, que renova continuamente a face da terra e tudo orienta conforme o desígnio salvador de Deus.

A pandemia da COVID 19 interpela as ações da nossa fé cristã. Neste caso, somos sempre convidados a nos orientarmos pela atitude e o exemplo do próprio Jesus Cristo. Diante da dor e do sofrimento das pessoas, Jesus não se punha a fazer teoria sobre o sofrimento e os males do mundo. Ele se compadecia de quem sofria e, com ternura, aliviava as pessoas de sua angústia e sofrimento. Revelava, assim, que Deus não fica indiferente diante dos nossos males e sofrimentos, mas tem compaixão ativa do homem submetido ao sofrimento e à angústia. Jesusoferecia a todos uma luz de esperança e aliviava a carga de quem padecia.

Além disso, Jesus também abriu à humanidade um horizonte mais amplo de compreensão dos sofrimentos e das limitações de nossa existência neste mundo. A resposta de Jesus, na passagem da cura do cego de nascença, sempre me fez pensar. Perguntam a Jesus, a respeito dos motivos da cegueira daquele homem, se foi ele, ou se foram seus pais que pecaram para que nascesse cego. E Jesus respondeu: nem ele, nem seus pais pecaram, mas é uma ocasião para que se manifestem nele as obras de Deus (cfJo 9,1-4).

Jesus não aceita a explicação fatalista, nem a do castigo, como retribuição pelo pecado. Jesus coloca-se a serviço da obra de Deus, ajudandoaquele pobre homem a recuperar a vista. E dá a entender que a superação completa dos males que afligem o homem é obra de Deus, na plenitude da redenção. Esta é a obra de Deus, por excelência, quando não haverá mais luto, nem choro, nem dor, porque Ele fará novas todas as coisas (cf Ap.21,3-5). A verdade é que nossa existência neste mundo ainda está inserida num mundo marcado pela precariedade e pela morte. Por muito que pretendamos ser senhores da vida e da morte, temos de reconhecer que nossa condição de criaturas ainda não está completa, mas aberta ao novo e definitivo de Deus. Da nossa fé no Deus criador e providente vem a certeza de que Ele não abandona a sua criatura, mas a atraia si e a faz desejar e buscar em Deus a plenitude de sua existência, que ela mesma não é capaz de se proporcionar.

A pandemia é ocasião para ações ecumênicas muito concretas, onde podemos crescer em comunhão e fraternidade. Alguém já disse que o novo Coronavírus não tem partido, nem religião, nem raça, nem condição social e que ele é extremamente democrático, pluralista e universalista… Para além dessa ironia, aprendemos de Jesus que a caridade cristã também há de ser universal e sem preferências de qualquer tipo. A nossa caridade, neste tempo, precisa ser totalmente ecumênica e inter-religiosa, não apenas em relação aos destinatários de nossas iniciativas e ações, mas também em relação aos colaboradores e agentes da caridade. Vejo com muita alegria que isso já vai acontecendo e quenão perguntam pela religião de quem quer se juntar às nossas iniciativas organizadas de caridade e solidariedade. Nem se pergunta pela religião de quem procura e precisa de ajuda. A pandemia oferece-nos oportunidades para praticarmos a caridade verdadeira, simplesmente olhando para a pessoa em situação de necessidade, com coração sensível e compassivo.

E essa mesma caridade também precisa inspirar e animar-nos quando se trata de colaborar com as autoridades públicas, de maneiras concretas, para evitar o contágio da população acolhendo, também nós, as restrições impostas pelo isolamento social, para não corrermos o risco de transformarmos nossos templos e espaços de reunião em focos de difusão da pandemia, colocando em risco a saúde e a vida de muitas pessoas. Também isso é parte da caridade pastoral para com o povo.

São Paulo, 23.05.2020

Por Cardeal Odilo Pedro Scherer, Arcebispo de São Paulo. O autor também é Presidente  da Comissão Episcopal Pastoral para o Ecumenismo e o Diálogo Inter-religioso do Regional Sul 1 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB),

 

 

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