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E se fosse você? Arquidiocese de SP une-se em solidariedade aos irmãos da rua

15_moradores_de_rua_inverno011.jpg_500x250Pouco se sabe sobre João Carlos Rodrigues, a não ser que ele tinha 55 anos e fazia pequenos “bicos” coletando material reciclável e montando a estrutura de palcos para shows da Prefeitura de São Paulo.
Com o dinheiro desses pequenos trabalhos, ele alugou um quartinho na região da estação Belém do Metrô, onde o valor médio do aluguel de um cômodo simples é próximo a R$ 500.
Mas os “bicos” acabaram e João teve que voltar para a rua. E foi atrás das escadarias do terminal de ônibus dessa mesma estação, na zona leste de São Paulo, que ele foi encontrado morto, sozinho, na manhã da sexta-feira, 10, dia em que os termômetros da Capital Paulista registraram temperatura mínima de 5 ºC. Ao seu lado, havia apenas uma mochila na qual ele guardava roupas doadas e documentos.
“Nós o conhecíamos na convivência com o pessoal de rua, vinha na igreja buscar as coisas que necessitava”, relatou o Padre Julio Lancellotti, vigário episcopal para a Pastoral da Povo da Rua. Entre as coisas que João Carlos buscava na Paróquia São Miguel Arcanjo, na Região Belém, estava o cobertor com o qual ele foi encontrado enrolado.
João Carlos não foi a única vítima do frio que atingiu a Cidade nos últimos dias. Na avenida Paulista, cartão postal de São Paulo, próximo ao cruzamento com a não menos conhecida avenida Brigadeiro Luís Antônio, Adilson Roberto Justino, de idade não identificada, morreu na madrugada do domingo, 12. Uma testemunha chamou a Polícia Militar por volta das 4h, quando o encontrou sofrendo uma convulsão. Os policiais chamaram o socorro, mas Justino não resistiu.
No bairro de Santana, na zona Norte, dois corpos não identificados também foram encontrados. Um, localizado na rua Doutor Gabriel Piza, próximo ao metrô Santana, na quinta-feira, 9, é de um homem. O outro é de uma mulher, achado na avenida Cruzeiro do Sul, perto do Terminal Rodoviário do Tietê, no domingo, 12.
“Os dois casos de Santana, eu descobri quando estava indo ver a situação do morador morto na Paulista, e lá fiquei sabendo dessas duas pessoas que faleceram por conta do frio, o que acontece normalmente no período da manhã. Sempre há alguém que informa”, relatou o Frei Agostino, da Comunidade  Voz dos Pobres, que também atua na Pastoral do Povo da Rua.
Na madrugada da segunda-feira, 13, dia em que o Centro de Gerenciamento de Emergência (CGE) registrou a temperatura mais baixa dos últimos 12 anos em São Paulo (0 ºC), mais uma vítima foi encontrada, dessa vez diante do número 107 da rua Amazona, no Bom Retiro.  Segundo a Polícia Militar, Nailson Paulo Batista, 51, passou mal no período da tarde. O Samu foi acionado, mas o rapaz já estava morto quando a equipe chegou ao local.  Ele foi identificado por causa de uma carteirinha do posto de saúde que portava.
Quem serão os próximos ‘Joãos’, ‘Nailsons’, ‘Justinos’, vítimas da noite fria nas calçadas, praças, diante de comércios, residências e monumentos? Como ajudar os que mais sofrem com as baixas temperaturas na “selva de pedra”?
“O ‘problema dos pobres’ desafia toda a cidade de São Paulo a se mostrar acolhedora e sensível diante das necessidades do próximo. Mais do que seu patrimônio e riqueza material, vale cada ser humano, que nela habita e precisa ser acolhido amparado. A maior riqueza da cidade são as pessoas sensíveis e solidárias diante dos sofrimentos do próximo. Elas humanizam a vida da cidade”, afirma a nota da Arquidiocese de São Paulo, assinada pelo arcebispo metropolitano, o Cardeal Odilo Pedro Scherer, e pelo Padre Julio Lancellotti (veja a íntegra ao lado).
“Lembremos sempre as palavras de Jesus: tudo o que fizestes ao menor dos meus irmãos, foi a mim que o fizestes (cf. Mt 25,40). Isso mesmo também ensina a sabedoria popular: ‘o que se dá ao pobre, empresta-se a Deus’”, continua o texto.
Ajuda concreta
Em entrevista ao O SÃO PAULO, Ana Maria da Silva Alexandre, agente de pastoral e colaboradora da Casa de Oração do Povo da Rua, entidade ligada ao Vicariato Episcopal para o Povo da Rua, informou que além dos cobertores, meias e agasalhos, há a ncessecidade de doações de leite, chocolate, açúcar, margarina e água.
“Tudo que chega de doação é prontamente destinado aos irmãos em situação de rua. Distribuímos as doações para diversos grupos que acolhem esses irmãos”. Ana destacou, ainda, que todas as noites os grupos se revezam para realizar a visita pastoral nas ruas, levando alimentos, cobertores, indicando locais e abrigos para os que desejam, e também evangelizando os irmãos.
Padre Giampetro Carraro, fundador da Missão Belém, também destacou a situação emergencial da comunidade que acolhe por dia aproximadamente 40 pessoas em situação de rua e precisa de 200 quilos de arroz para alimentá-las. A Missão Belém também busca doações de cobertores, agasalhos e roupas.
Frei Tarcísio, da fraternidade O Caminho, que também atua no acolhimento aos pobres, disse ao Semanário da Arquidiocese, em maio, sobre a preocupação com os que mais sofrem no inverno. “Para aqueles que estão em situação de rua, é muito mais difícil. Às vezes, um cobertor numa noite fria pode salvar uma vida”.  Para o Frei, o ato de vestir os nus é mais que uma obra de misericórdia. “O que nos move para ir ao encontro do irmão é o próprio Evangelho, é olhar as pessoas com misericórdia e enxergar o Cristo que há em cada uma delas”, disse, complementando que é durante o inverno que eles acolhem muitas pessoas em situação de rua com doenças respiratórias, como pneumonia e tuberculose.
Segundo o Censo da População em Situação de Rua de 2015, feito pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) e a Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social (Smads) da Prefeitura de São Paulo, são 15.905 pessoas em situação de rua na Cidade. Dessas, 13.046 são do sexo masculino e 52,7% do total estão na região da Subprefeitura Sé. Para Frei Agostino, esse número é maior. “A Prefeitura fala em 15 mil, mas segundo a Pastoral do Povo de Rua são 20 mil pessoas”. De acordo com o Padre Julio, que acompanha há mais de 20 anos essa realidade, a Prefeitura não disponibiliza abrigos emergenciais em toda a Cidade para acolher os irmãos.
Em nota, a assessoria de imprensa da Prefeitura de São Paulo respondeu que “a Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social (Smads) registrou, desde o dia 16 de maio, mais de 240 mil acolhimentos por meio do programa Operação Baixas Temperaturas. Apenas neste final de semana, onde a temperatura chegou a 0 ºC grau na região Sul da cidade, a Prefeitura acolheu por dia, em média, 11 mil moradores em situação de rua.
Durante a estação mais fria do ano, a Smads intensifica o trabalho na rede de abordagem. Normalmente, a rede de acolhimento da Prefeitura possui cerca de 10 mil vagas fixas, mas com o plano, a rede foi ampliada em mais 1.437 vagas emergenciais. Há, ainda, a possibilidade da abertura de alojamentos de emergência caso as 11.300 vagas ofertadas forem insuficientes. Ao serem encaminhadas a um equipamento, as pessoas em situação de rua têm acesso a acolhimento, com camas, cobertores, travesseiros, banho, alimentação e kits de higiene pessoal. Em 2015, foram 145.625 abordagens e mais de um milhão de acolhimentos”.
Vença o frio com  solidariedade
As notícias das mortes por conta do frio geraram uma onda de solidariedade entre as pessoas, grupos, famílias, associações, entidades e igrejas, com iniciativas em favor dos irmãos de rua. Nas redes sociais, as pessoas têm se mobilizado em campanhas de arrecadação de agasalhos, cobertores, meias e alimentos.
A Arquidiocese de São Paulo, por meio da Cáritas Arquidiocesana de São Paulo, do Jornal O SÃO PAULO e da rádio 9 de Julho, iniciou em maio a Campanha do Agasalho 2016, orientando que as paróquias, comunidades, colégios e instituições coloquem uma caixa de papelão em lugar visível para arrecadação dos agasalhos. A campanha acontecerá enquanto o frio persistir. O material arrecadado pode ser distribuído no entorno das comunidades e poderá também ser enviado às seguintes entidades sociais: Centro de Referência para Refugiados, Aliança de Misericórdia, Missão Belém, Arsenal da Esperança, Casa do Migrante, Casa de Oração do Povo da Rua, ou para algumas outras das várias organizações da Igreja que trabalham com a população em situação de rua e abrigamento.
O Centro de Juventude da Companhia de Jesus no Brasil (Anchietanum), dedicado à formação e ao acompanhamento da juventude, e o Serviço Franciscano de Solidariedade (Sefras) estão realizando a Campanha “Doar é gesto de Solidariedade”, que arrecadará agasalhos, meias, roupas e cobertores para serem doados em diversos pontos da Cidade. A arrecadação ocorrerá até o fim de junho, podendo ser estendida até julho, nos dias de semana das 8h às 19h, ou em dias de atividade do Anchietanum. O endereço para a entrega das doações é na rua Apinajés, 2.033, Sumarezinho, próximo à estação Vila Madalena do Metrô.
Campanhas de arrecadação de dinheiro via internet têm mobilizado diversas pessoas. Este é o exemplo da iniciativa do jornalista André Graziano, no site “Vakinha” (https://www.vakinha.com.br/vaquinha/cobertores-2016), que arrecada dinheiro para a compra de meias e cobertores para as pessoas em situação de rua. A Campanha começou em 1º de maio e se encerra em 15 de agosto, com o objetivo de bater a meta de R$ 5 mil.
Também a página do Facebook “Calor Humano” é voltada para arrecadar dinheiro a ser utilizado para comprar cobertores e meias, que serão distribuídos para entidades ligadas à Pastoral do Povo da Rua da Arquidiocese de São Paulo.
O Arsenal da Esperança há muitos anos vem acolhendo moradores, abrindo suas portas diariamente para 1.200 homens que se encontram em dificuldades, o assim chamado “povo em situação de rua”: jovens e adultos que sofrem pela falta de trabalho, casa, alimentação, saúde e família. Segundo o Padre Lorenzo Nacheli, membro do Sermig – Fraternidade e Esperança, a média de pessoas acolhidas nestes tempos frios subiu para 1.250 homens por noite.
Padre Reinaldo Torres, pároco da Paróquia Nossa Senhora de Fátima, na Região Episcopal Brasilândia, diz que a campanha na igreja é um modo de facilitar o trabalho de todos os órgãos. “A iniciativa foi a pedido do Centro de Referência para Refugiados – Cáritas, em maio. No dia 13 de junho, fizemos a primeira remessa do que foi arrecadado, conseguimos encher um carro com produtos de higiene pessoal, roupas agasalhos e cobertores. Nosso objetivo é conseguir mais doações. Tudo o que for arrecadado vai para a Cáritas” explicou.
Assim como a Paróquia na Brasilândia, a comunidade Missão Mensagem de Paz, com o grupo Expresso Amor e Paz, abriga alcoólicos e pessoas em situação de rua, e os leva para abrigos da Prefeitura e reabilitação. “Começamos no início deste mês, arrecadando blusas e cobertores e levando até as ruas do centro de São Paulo, principalmente nos locais mais necessitados como na Lapa e na Cracolândia”, afirmou Wellington Cardoso, membro da Missão.
Desde segunda-feira, 13, o Convento São Francisco (largo São Francisco, 133, centro), dos frades franciscanos, está acolhendo emergencialmente os moradores em situação de rua, transformando um dos seus salões em um verdadeiro dormitório com várias camas. Pelas redes sociais, Frei Alvaci Mendes, pároco, pede doações de sabonetes, creme e escova dental, lâmina de barbear e shampoo. “Queremos acolhê-los com uma boa refeição, banho, corte de cabelo e um local seguro e protegido para dormir. Contamos com a ajuda de todos”, escreveu o Frei Diego Melo.
Também pelo Facebook, a Paróquia São Gabriel da Virgem Dolorosa, na Região Episcopal Santana, convidou todos a levarem até a Paróquia produtos de higiene pessoal, agasalhos, alimentos e cobertores.
Outra página do Facebook que propôs esse desafio foi a “SP Invisível”, que chegou à marca de 300 mil curtidas, incentivando todos para que quando forem ao trabalho, escola, faculdade ou qualquer lugar, levem uma blusa a mais para doar a quem passa frio nas ruas.
ONDE DOAR:
Casa de Oração do Povo de Rua
Rua Djalma Dutra, 3, Bom Retiro/Luz.
Informações: (11) 3228-6223 ou (11) 99427-9070, com Ana Maria.
Cáritas Arquidiocesana de São Paulo
Rua Major Diogo, 834, Bela Vista.
Informações: (11) 3115-2674.
Fraternidade O Caminho
Rua Djalma Dutra, 69, Bom Retiro/Luz.
Informações: (11) 3661-1049.
Comunidade Missão Belém
Rua Doutor Clementino, 608, ao lado da estação Belém do Metrô.
Informações: (11) 2694-2746.
Créditos: Redação com Jornal O SÃO PAULO. Por Fernando Geronazzo, Renata Moraes, Fábio Augusto da Silva e Millena Guimarães
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