A Sagrada Escritura não é um livro de história natural, onde se procuram respostas para questões curiosas. Ela também não é um sítio arqueológico para se fazer “escavações” em busca de restos de ossos petrificados ou cacos de antigas civilizações. Na composição da Escritura, “Deus escolheu homens, dos quais se serviu, fazendo-os usar suas próprias faculdades e capacidades, a fim de que, agindo Ele próprio neles e por eles, escrevessem, como verdadeiros autores, tudo e só aquilo que Ele próprio quisesse”. Essa afirmação da Constituição Dogmática Dei Verbum, no número onze, trata de duas questões fundamentais em relação à Escritura: a primeira é que o seu autor é o próprio Deus, e a segunda é que o texto expressa a Verdade e a Sua vontade.

Toda a obra da criação carrega sinais ou traços do seu Criador, mas apenas o ser humano foi criado à imagem e semelhança Dele. Isso significa que o ser humano participa de modo especial na criação. O homem é criado à imagem de Deus; como homem e mulher, Ele os criou, assim está afirmado no livro do Gênesis, no capítulo primeiro. Essa diferença também é uma realidade complementar e é ela que, através da maternidade e da paternidade, reflete o grande mistério da eterna geração que está no próprio Deus. A geração de uma nova vida é, a seu modo, uma forma de participação do homem e da mulher na obra da criação.

Como um ato comum do homem e da mulher, a geração da vida vai além da relação biológica; ela implica uma dimensão ética e moral de responsabilidade. Se, por um lado, a relação da mulher com a vida é profundamente íntima e visceral, é porque a criança é gerada dentro dela. Por outro lado, o homem assume a função de defesa da vida contra os riscos externos. A inversão de valores e aquilo que São João Paulo II chamou de “cultura da morte,” na Encíclica Evangelium Vitae, mostra uma crescente desconstrução dos valores da vida e da família. Nesse contexto, o dom da vida passou a ser considerado um “direito”, o qual, por leis humanas injustas, pode ser negado aos que ainda nem nasceram.

Além da contradição em relação à vida, o aborto mostra outra contradição, aquela que faz recair a decisão desse ato apenas sobre a mulher. No Evangelho segundo São João, capítulo oito, está a narrativa do encontro entre Jesus e uma mulher que foi surpreendida em adultério. Os escribas e fariseus que trouxeram a mulher apresentaram o caso e pediram a sua interpretação da Lei, pois, como castigo, ela deveria ser apedrejada. Com serenidade, Jesus respondeu: “Quem dentre vós estiver sem pecado, seja o primeiro a lhe atirar uma pedra”. Na continuidade da narrativa, todos, começando pelos mais velhos, saíram e deixaram apenas Jesus e a mulher. A condenação e o apedrejamento da adúltera não seriam uma punição unilateral? Onde estava o seu parceiro de adultério, de pecado?

Sobre o aborto, podemos refletir de modo semelhante. Na geração da vida, homem e mulher têm igual participação, mas quando se trata do aborto, ele é entendido, por algumas correntes de pensamento, como direito da mulher. O que não se fala é que a interrupção voluntária da gravidez acarreta muitas aflições e dores. É a mulher que vai sentir a culpa e, às vezes, arrastar essa culpa por muito tempo. Isso se constata no acompanhamento pastoral e sacramental de mulheres que fizeram aborto. Também é preciso lembrar que nem sempre essa decisão é totalmente voluntária, porque, às vezes, existe a pressão social, de familiares ou do homem. Para uma confissão ou acompanhamento pastoral, vem a mulher, trazendo seu arrependimento, mas dificilmente aparece quem a ajudou ou forçou a fazer o aborto.

A Igreja é e sempre será contra o aborto, porque a vida é um dom dado por Deus e deve ser acolhido. A Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF 442), que está tramitando no Supremo Tribunal Federal (STF), é fruto da inversão de valores e da cultura da morte. Não é suficiente dizer aos que acreditam, aos cristãos ou não cristãos, que não façam aborto. É preciso usar os recursos legais e mobilizar a opinião pública contra o aborto e defender a vida; esse papel cabe a todos nós. No passado, muitos mártires defenderam a fé cristã. Nesse tempo marcado pela cultura da morte, nós somos chamados ao testemunho: padres, bispos, religiosos e fiéis leigos. Precisamos dar voz aos que ainda não podem falar e aos que já foram silenciados.

Dom Devair Araújo da Fonseca
Bispo de Piracicaba