CF 2024: Amizade social

 A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) promove, há 60 anos, durante o período da Quaresma, a Campanha da Fraternidade. Teve início em 1964. Encontra-se, portanto, na 61ª edição. Desta vez, o tema é “Fraternidade e amizade social” e o lema, vós sois todos irmãos e irmãs (cf. Mt 23,8).

Nos últimos anos, refletiu-se sobre Cuidado com o Planeta e saneamento básico (2016); Biomas brasileiros e defesa da vida – Cultivar e guardar a criação (2017); Fraternidade e Superação da Violência Vós sois todos irmãos (2018); Fraternidade e Políticas Públicas (2019); 2020: Fraternidade e defesa da Vida (2020); Fraternidade e Diálogo (2021); Fraternidade e Educação (2022); Fraternidade e superação da fome (2023). De cinco em cinco anos, a Campanha da Fraternidade é organizada de forma ecumênica. E sempre utilizando o método: ver, iluminar, agir.

A quaresma é um tempo de conversão, nos seus diversos aspectos: mudança de mentalidade, renovação do coração e compromisso de realizar ações concretas, eficientes e comunitárias de socorro aos que sofrem e de transformação da sociedade. Ou seja: produzir gestos concretos de verdadeira caridade.

O tema “Fraternidade e amizade social” é inspirado na Encíclica Fratelli Tutti (Todos Irmãos) (3.10.2020), onde o Papa Francisco fala da necessidade de se criar a cultura do encontro, isto é, do diálogo, respeito e amizade. Nos dias atuais, chamados de pós-modernidade, tende-se a um individualismo exacerbado, que produz egoísmo e, até mesmo à violência, quando a extrema rejeição chega às vias da eliminação daquele que é diferente. Isso precisa ser superado pela amizade e amor fraterno.

Onde falta amizade e fraternidade, predomina o egoísmo, que é o ser humano ter a si mesmo como principal, e até mesmo única, referência. As redes sociais alimentam esta tendência individualista, onde cada pessoa é capaz, ao mesmo tempo, de se conectar com o mundo e não se encontrar com quem está próximo. Exercitar a fraternidade e amizade social é o objetivo da campanha. A expressão “amizade social” abrange a todos os seres humanos, também para os que não professam a religião cristã. É direito e dever de todos promover a amizade, na família, na Igreja, nos ambientes de trabalho, em toda a sociedade. Os cristãos têm como programa de vida a vivência do amor a Deus e ao próximo, com um olhar preferencial para com os pobres e excluídos da sociedade.

O lema “vós sois todos irmãos e irmãs” (Mt 23,8) é retirado do Evangelho de São Mateus, quando Jesus lembra que um só é o Pai: Deus; e um só é Mestre e Guia: Cristo. E aos discípulos/as Cristo diz: “vós sois todos irmãos” e irmãs. Assim, amizade, o amor e a fraternidade se inserem entre as dimensões mais fundamentais da vida humana.

A Bíblia está repleta de exemplos de amizade, tanto no sentido positivo como no negativo. Começa com o exemplo negativo de Caim, que comete fratricídio, assassinando seu irmão Abel. E o faz por ciúmes e inveja, além de demonstrar frieza e indiferença: “por acaso eu sou guarda do meu irmão”? (Gn 4,9).

Outro exemplo é o de José, o mais novo dos doze filhos de Jacó. Seus irmãos tinham ciúmes dele, por ser o mais novo e preferido do pai Jacó, por isso o venderam a mercadores que o levaram para o Egito. A história é edificante, pois, anos depois, em tempo de extrema carestia, esses irmãos vão ao Egito à procura de alimentos e quem os socorre é José que, na ocasião, tomado de emoção, se faz revelar a seus irmãos, perdoa-os, ajuda-os e ainda consegue que o velho Jacó, antes de morrer, realize o sonho de encontrar e abraçar o filho querido.

Mais um exemplo: a amizade profunda entre Rute e sua sogra Noemi. Rute era estrangeira e, ficando viúva, é aconselhada pela sogra Noemi a voltar para sua terra, mas Rute decidiu não abandonar Noemi; permaneceu na terra de Israel, declarando: teu povo é meu povo, teu Deus é meu Deus. Onde morreres, lá morrerei e lá serei sepultada” (Rt 1,16.17). Acaba se casando com Booz (filho de Salmon e Raab), gerando Obed, pai de Jessé, pai de Davi. Portanto, Rute, bisavó de Davi, entra na genealogia do Messias (cf. Mt 1,5-6).

Do Novo Testamento, o texto base da CF traz o exemplo da amizade entre Paulo e Filemón. Paulo era também amigo de Onésimo, escravo de Filemón. Em nome da amizade, Paulo, da prisão, pede que Filemón receba Onésimo “não mais como escravo, mas muito mais do que isto, como irmão querido; querido especialmente por mim, e muito mais por ti, não só segundo a carne, mas, sobretudo no Senhor” (v. 16). E continua: “recebe-o como se fosse a mim mesmo” (v. 17).

Outro belo exemplo é a amizade de Jesus com os irmãos Lázaro, Marta e Maria. Os evangelhos relatam que Jesus os visita com frequência, toma refeição com eles e chora a morte de Lázaro, num sentimento puramente humano, antes do gesto de poder divino de ressuscitá-lo.

Jesus cultiva grande amizade por seus apóstolos, havendo entre ele uma perfeita sintonia, comparada aos ramos unidos ao tronco da videira: “permanecei em mim e eu permanecerei em vós” (Jo 15,4); “eu sou a videira e vós os ramos. Aquele que permanece em mim, como eu nele, esse dá muito fruto, pois sem mim, nada podeis fazer” (v. 5); “permanecei no meu amor” (v. 9); “amai-vos uns aos outros como eu vos amei. Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos (vv. 12.13). “Vós sois meus amigos (v. 14); e “eu vos chamo amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi de meu Pai” (v. 15).

A amizade é expressão de humanidade e auxílio para se praticar o amor fraterno. Nesta quaresma, através da Campanha da Fraternidade, cada pessoa é chamada a olhar para si mesmo, redescobrir e valorizar a dimensão profunda e divinamente humana da vida. O amor cristão é doação e perdão, é o amor oferecido aos amigos e até aos inimigos, é o amor ensinado e praticado por Jesus, a partir dos sentimentos de compaixão e misericórdia, como registram os evangelhos. Há uma passagem em que Jesus “ao ver as multidões, encheu-se de compaixão por elas, porque estavam cansadas e abatidas, como ovelhas que não têm pastor” (Mt 9,36). Também sentiu compaixão do leproso, que se aproximou, ajoelhou-se a seus pés e suplicou a cura e a purificação (Mc 1,40.41).

Compaixão e misericórdia devem ser igualmente os sentimentos do coração dos cristãos, como na parábola do bom samaritano (Lc 10,25-37), em que, estando um homem caído à beira do caminho, chegou perto dele, viu e moveu-se de compaixão. Aproximou-se dele e tratou-lhe as feridas” (v. 33). O samaritano, de fato, tornou-se próximo, pois usou de misericórdia para com ele” (v. 37).

“A humanidade é unida por este laço comum da mesma origem, identidade e dignidade, não importando as diferenças secundárias de raça, religião, cultura ou condição social. Portanto, toda pessoa é um irmão e uma irmã, membro da única grande família humana. Sendo assim, é natural e coerente que se busque expressar essa condição numa convivência fraterna, em que se acolhe o diferente a partir daquilo que une todos” (Dom Odilo Pedro Scherer).

Possa a CF ensejar “um novo sonho de fraternidade e amizade social que não se limite a palavras” (FT, n. 6) e tornar possível “fazer da fraternidade um valor indispensável na sociedade atual” (texto-base, 126). Firme-se entre nós o compromisso de “incentivar encontros interpessoais, reuniões de famílias e grupos de convivência onde reine o amor e o respeito mútuo” (texto-base n. 128.l). Haja empenho em valorizar e incentivar o voluntariado e o serviço comunitário; a justiça restaurativa, o combate ao racismo, a defesa dos direitos humanos, a promoção da democracia e da paz (cf. texto-base, n. 130).

À luz do princípio da dignidade humana, superando todo conflito e toda concorrência, a amizade social possa ser a expressão do amor ao próximo, vivido nas relações entre as pessoas e os povos.

Seja a quaresma tempo propício de reconciliação, amizade e amor, segundo as palavras do apóstolo Paulo: “é agora o tempo favorável, é agora o dia da salvação” (2Cor 6,2).

Dom Pedro Luiz Stringhini
Bispo Diocesano