Artigos Destaques

A vida e as tendências da modernidade

A vida é um presente de Deus. Gostaria de falar daquilo que o Criador nos deu de mais precioso: o dom da vida. O ato de respirar, contemplar a beleza da natureza e das criaturas, é perceber que toda vitalidade que há no mundo nos faz enxergar a ação de Deus em tudo e em todos. O próprio Jesus Cristo disse: “Eu sou o caminho a verdade e a vida” (Jo 14,6). É por isso, que no itinerário, dos acontecimentos do mundo contemporâneo, é necessário refletir sobre três realidade que provocam e ameaçam a dignidade da vida.

DEPRESSÃO

Atualmente a intencionalidade com que sentimos e vemos as coisas altera a realidade em si do que temos por percepção pessoal e linear de certas situações. É por isso que o equilíbrio entre o que vemos e sentimos é saber distinguir o que deve ou não ser apreendido e utilizado no nosso interior, seja algo negativo, seja algo afirmativo. Para além da patologia, a depressão, em seu estagio avançado ou inicial não deve ser compreendida com um olhar pormenorizado da individualização e relativização de tal problemática. É preciso identificar fator por fator que leva a essa situação e tratá-los de forma a resolver cada particularidade que causa o fenômeno.

A depressão é uma espécie de prostração que se manifesta em graus mais ou menos intensos e que por vezes coaduna-se numa forma morna de viver. Como afirma Dom Tolentino essa debilidade se manifesta quando desistimos de desejar, “de achar sabor nos encontros, nas conversas partilhadas, nas trocas, nas saídas de nós mesmos, nos projetos, no trabalho, na própria oração”[1]. Na verdade, esta sede de nada que nos adoece. Quando renunciamos a sede que começamos a morrer.

A depressão é uma realidade que tem crescido no seio de muitas famílias. Ela não escolhe classe social ou etnia. Trata-se de olhar a vida de modo atonal, sem apetite, uma doença que tem raízes profundas, decorrentes de um grande vazio que causa sofrimento. O que se tem presente é uma constante e lenta percepção da perda do sentido da vida, e com isso, começa-se o autoisolamento do indivíduo.

É constitutivo de a natureza humana sonhar com um amanhã melhor ou simplesmente acreditar que tudo pode dar certo, mas a depressão esvazia ‘o tudo’ e preenche com ‘o nada’, e ainda pior, ela faz perder os horizontes possíveis da felicidade. Se depressão impulsiona a tendência de perder a esperança, então uma das maneiras de recuperar a mesma no ser humano, além de um acompanhamento psicológico adequado, é recompor as estruturas da dignidade, juntamente com o autoconhecimento e por consequência, o amor-próprio. É importante também salientar que homem é composto por corpo-alma, portanto, um reconectar do ser com o Divino, ou seja, alma e Espírito (transcendente); também é essencial para que o ser doente do corpo e da mente possa encontrar a cura naquilo que está além da sua capacidade física de tocar – Deus. Além do acompanhamento clínico-psiquiátrico  cabe para os assuntos da alma um itinerário espiritual, através do encontro com a pessoa de Jesus Cristo crucificado e ressuscitado.

ABORTO

Vivemos num mundo onde a cultura do descarte e da morte tem crescido e produzido ações das mais tristes e que contribuem muito para aquilo que o Papa Francisco chama de “perda do valor humano”. O aborto vai à esteira desse valor humano que se perde a cada dia e é explorado por quem defende tal método com pretextos econômicos, sociais e pessoais, aproveitando-se da chaga da desigualdade social que permeiam as periferias dos grandes centros urbanos. No Brasil, é justo dizer que nenhuma mulher, em sã consciência, aborta por que quer. Nossa cultura é uma cultura de mulheres jovens, que, por vezes sozinhas, batalham para criar seus filhos mesmo sendo abandonadas pelas famílias, pelos esposos, pelos amigos, pela sociedade e pelo Estado.

Todavia, há uma tentativa de relativizar e incutir na sociedade utilizando-se da linguagem banalizada, a prática do aborto como se a discussão sobre o direito de viver fosse apenas uma mera lei ou uma decisão que cabe somente a mãe.  A vida terrena deve ser defendida desde a concepção até o seu término com a morte natural. Não porque a lei requer assim, mas porque a vida é dom inefável de Deus – “O Senhor Deus formou, pois, o homem do barro da terra, e inspirou-lhe nas narinas um sopro de vida e o homem se tornou um ser vivente” (Gn 2, 7-8).  Por isso, é importante o papel da Igreja no sentido de acolher mulheres vítimas de relacionamentos abusivos, vítima da violência doméstica física, sexual ou psicológica. A comunidade tem um papel fundamental de não julgar aquelas que são vitimas da própria história, instruindo-as e mostrando a face de Cristo que consola com gesto de amor e misericórdia. Portanto, “…em atenção a palavra de Jesus e ao ensinamento da Igreja, especialmente sua doutrina social, que ilumina os critérios éticos e morais, nossas comunidades devem ser defensoras da vida desde a fecundação até o seu fim natural” (DGAE, n 171).

 SUICÍDIO ENTRE OS JOVENS

 Com a expansão dos meios de comunicação e do avanço tecnológico, as redes sociais se tornaram uma ferramenta importante para conectar pessoas em lugares distantes. Mas o que era para ser conexão de pessoas distantes tornando-as próximas, se transformou em um comportamento no mínimo estranho, a ponto de famílias, grupos de amigos ou conhecidos se encontrarem ou conviverem fisicamente, mas não conversarem sobre a vida e as coisas que a envolvem. Em nossas telas, tonamo-nos parecidos com arquipélagos online, ou seja, um conjunto de ilhas que não comunicam entre si pessoalmente.

Os resultados desses comportamentos são diversos entre os jovens, um deles é a superficialidade das relações. Essa superficialidade e também falta da proximidade, até mesmo de referência familiar, faz com que eles se refugiem nas drogas, na depressão ou no fenômeno crescente da automutilação e do suicídio.  As consequências daqueles que tem a tendência em pensar em tirar a própria vida ou a se automutilarem, nasce do sentimento de se sentirem sozinhos em meio a uma multidão de pessoas ao seu redor, sofrendo com angustia, raiva, frieza com o próximo e sentimento inexplicável do vazio. Ou seja, tudo aquilo que os likes, compartilhamentos, stories, bebidas e drogas não podem curar.

A resposta para essas situações que ameaçam a vida passa pelo afrontar da realidade, pelo ouvir e interpretar os sinais dos tempos, pelo acolher os detalhes do Espírito. Neste sentido, o discernimento que conduz a autonomia e a maturidade é essencial para se dar passos possíveis em direção ao Reino na formação da identidade e também na comunhão da pluralidade. Jesus é o Mestre da Vida. Ele restaura nossa dignidade humana, regenera todas as coisas. Buscar Jesus é buscar o próprio Bem, é buscar o Bom, é buscar a Vida. Caminhar nessa estrada é trilhar um caminho acompanhado, essa Companhia auxilia, instrui e – ainda sim – carrega a pessoa no colo, de forma que já não está mais só. Afinal, o próprio Jesus afirma: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas vidas. Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve.”(Cf. Mt 11, 28-30)

[1] José Tolentino MENDONÇA. Teologia da Sede, Paulinas 2018. p.56

Por Dom Eduardo Malaspina, Bispo Referencial da Comissão em Defesa da Vida e Auxiliar da Diocese de São Carlos – SP. O Artigo foi publicado na Revista do Regional Sul 1 da CNBB. Edição Especial. Out. 2019.

Palavra do Presidente

NOVO ESTATUTO DA CNBB

Facebook

Assine nossa newsletter

Conheça nossos parceiros.