Com a Quarta-feira de Cinzas iniciamos a Quaresma, dom precioso que nos é concedido para voltarmos ao Senhor de todo o coração. Tempo favorável para acolhermos sua graça, nos deixarmos interpelar por ele que nos ama e retomarmos, com alegria, o itinerário da vida cristã, no qual sacrifício e penitência chegam a Deus, se forem traduzidos em gestos de comunhão e de solidariedade. É, portanto, um tempo propício para nos defrontarmos com mais intensidade contra todas as formas de pecado, não ficando indiferentes diante dos males que pesam sobre toda a família humana e sobre a nossa casa comum.

Na Igreja do Brasil, somos convocados a viver a Quaresma à luz da Campanha da Fraternidade que, neste ano, tem, como objetivo geral, “Despertar para o valor e a beleza da fraternidade humana, promovendo e fortalecendo os vínculos da amizade social, para que, em Jesus Cristo, a paz seja realidade entre todas as pessoas e povos”. Como a Palavra de Deus, a Encíclica Fratelli Tutti – Todos Irmãos – do Papa Francisco, ilumina a proposta da Campanha para este ano: “… perante várias formas de eliminar ou ignorar os outros, sejamos capazes de reagir com um sonho de fraternidade e amizade social que não se limite a palavras. Embora tenha escrito a partir das minhas convicções cristãs, que me animam e nutrem, procurei fazê-lo de tal maneira que a reflexão se abra ao diálogo com todas as pessoas de boa vontade…” (FT, nº 6).Acolhendo a palavra do apóstolo Paulo: “… Não há mais judeu ou grego, escravo ou livre, homem ou mulher, pois todos vós sois um só, em Cristo…” (Gl 3,26-28), nos damos conta de que é longo o caminho para a superação das diferenças, divergências e oposições, o qual deveria nos aproximar e enriquecer e não dividir. Numa sociedade dividida, desigual, excludente, que se rege pelas leis da competição e da meritocracia, que cultiva o ódio, identitarismos que fecham as pessoas em si mesmas, absolutizando-as em suas ideias, sem espaço para o NÓS, corre-se o risco de um cisma que, sob muitos aspectos, avança. O outro não importa mais, importa o eu. Experimentamos uma clara oposição entre indivíduo e comunidade. A CF é um tempo propício de reeducação para a capacidade de reconhecer e promover a dignidade das pessoas, a beleza e a grandeza original que as identifica como filhos e filhas muito amados por Deus e criados à sua imagem e semelhança.

O caminho litúrgico-quaresmal, pessoal e eclesial, nos faz mergulhar em Jesus, na graça do seu mistério pascal, antecipado na transfiguração (2° domingo da Quaresma), quando somos chamados a estar com ele, para com ele chegar à meta. É tempo de escutá-lo. Esta é a graça quaresmal: nos colocar à escuta dele que nos fala. Ele, o filho amado. Escuta que passa pelo outro, daquele que pede nossa presença, nosso olhar, nosso auxílio, na Igreja ou em outro lugar qualquer. Vamos nos levantar, seguir em frente, sem medo algum. (cf. Mc, 9, 7ss).

A comunhão, a fraternidade, o diálogo, a amizade social, assim como a disposição para a solidariedade e a aceitação do diferente, estão presentes em nós, em nossas comunidades, e em tantos movimentos de entreajuda, também fora dos âmbitos religiosos, percorremos confiantes o caminho.

Que o Espírito Santo nos anime nesta Quaresma e nos prepare para a experiência do esplendor divino. Ouçamos a voz do Espírito, caminhemos juntos, construindo a amizade social. Amém!