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A morte não é nada

Tenho que discordar dessa afirmação. Sabemos que nossa vida é mortal e finita, que a morte está inscrita na nossa condição e que deveríamos achar a morte “natural” como comer, beber e nascer. A morte não é nada, como comer, beber e nascer: será isso verdade?

O ser humano come, mas isso não faz do nutrimento algo meramente “natural”. Pelo contrário, o ser humano cercou a alimentação de elaborações, criatividade e ritos que a transformaram em arte, cultura, confraternização. Em torno da mesa, os amigos se tornam ainda mais amigos, os inimigos se reconciliam, os pais se doam aos filhos, e estes os acolhem com gratidão. Comer não é simplesmente um natural “botar algo na barriga”!

Nascer não é meramente vir a este mundo. Experimentamos o nascimento como evento que marca a nossa vida. Cada filho que nasce provoca também o nascimento de um pai e de uma mãe. A criança empurra os pais para a maturidade, uma vez que a partir do nascimento eles não se preocupam apenas com a felicidade própria, mas se tornam responsáveis pela vida de um terceiro.

A morte não é nada? Diga isso para uma mãe que perdeu seu filho para a criminalidade, as drogas, a fome, a guerra. A morte não é nada? Diga isso para as pessoas que perderam os pais idosos para a pandemia e que não puderam se despedir deles com um funeral.

A morte não é nada? Diga isso para Deus que não poupou o seu próprio Filho a fim de que nós pudéssemos ter vida.

Acabamos de celebrar o Tríduo Pascal e tivemos a oportunidade de, mais uma vez, contemplar a paixão de Jesus. Na celebração da paixão, caímos na conta da presença ainda lancinante de todos os sofrimentos da humanidade, das trevas que cobrem o mundo atual, da solidão dos que foram esquecidos e deixados para trás. A morte não é nada? Diga isso a Jesus que sofreu a agonia do Getsêmani, foi injustamente condenado, foi pregado na cruz como malfeitor e experimentou o abandono do Pai. A Paixão de Cristo ainda não terminou, por isso não tenho como concordar de que “a morte não é nada”!

A fé na ressurreição não é ópio para esquecer a dor do mundo. Ela é a proclamação de que a dor do mundo foi carregada nos ombros do Bom Jesus. Ela não é a negação da morte; é um responder ao mistério da morte com um mistério ainda maior: a vida em Deus.  A ressurreição não torna a morte inócua! Ela a assimila, a supera e a vence. A fé não é a conclusão de um raciocínio que julga que a morte seja natural; ela é uma oferta humilde que espera que aceitemos o dom da vida nova nascida da cruz.

A assimilação da paixão não deprime a nossa fé na ressurreição. Pelo contrário a promove e a exalta, exatamente porque a paixão é a passagem para a vida nova da ressurreição. Por isso, Paulo pôde escrever: “Somos atribulados por todos os lados, mas não esmagados; postos em extrema dificuldade, mas não vencidos pelos impasses; perseguidos, mas não abandonados; prostrados por terra, mas não aniquilados” (2Cor 4,8-9).

Nós sabemos que caminhamos para a morte, mas, por causa da fé em Cristo, experimentamos também que caminhamos para Ele. Todo o nosso ser tende para esse encontro como o encontro da felicidade suprema. Da mesma forma como experimentamos a morte, que impõe a sua presença, vamos ao encontro de alguém que não está ausente porque ressuscitou. Como o medo mais intenso é saber que a morte já está em ato no nosso presente, assim a felicidade mais imediatamente acessível é estar com Cristo. A união com Cristo começa a preencher o nosso coração já nesta vida terrena e traz uma alegria que nem mesmo os sofrimentos mais agudos podem tirar.

Antes de concluir um esclarecimento: a afirmação “a morte não é nada” foi atribuída a Santo Agostinho, mas até agora não consegui achar onde está essa citação. Agostinho nunca experimentou a morte dessa forma: nem a morte do amigo, nem a da sua mãe, tampouco a própria.

Por Dom Julio Endi Akamine, SAC, Arcebispo de Sorocaba. Ele também é Presidente da Comissão Episcopal Pastoral para Ação Social Transformadora do Regional Sul 1 da CNBB. 

 

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