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A firme decisão de partir

Lucas conta no Evangelho da Missa de hoje – Lc 951-62 – que Jesus tomou a firme decisão de partir para Jerusalém, porque estava chegando aquela sua hora dramática da qual não fugiria. Partindo, iria pernoitar entre os samaritanos, mas desistiu porque o pessoal do lugar, sabendo que sua intenção era subir a Jerusalém, não o queria receber. Então, Jesus seguiu para outro povoado. O que aconteceu nessa caminhada ensejou a Jesus aprofundar com os discípulos outros aspectos do “seguimento”. Como disse o apóstolo João “Ninguém pode seguir a Jesus, se o Pai não o atrair” (Jo 6,44), muitas pessoas sentindo-se atraídas queriam segui-Lo. Nessa ocasião, alguém na estrada disse a Jesus: “Eu te seguirei para onde quer que fores”. Jesus não foi logo dizendo que bom, sinto-me feliz com isso. Ao contrário, abriu-lhe os olhos: “As raposas têm tocas e as aves, ninhos; mas o Filho do homem não tem onde repousar a cabeça”. A outro, Jesus disse: “Segue-me”. Ele, porém, pediu primeiro para ir enterrar o seu pai. A resposta de Jesus foi rápida e seca: “Deixa que os mortos enterrem os seus mortos; mas tu, vai anunciar o Reino de Deus”. Outro se apresentou: “Eu te seguirei, mas deixa-me primeiro despedir-me dos meus familiares”. Igualmente curta foi a sua resposta: “Quem põe a mão no arado e olha para trás não está apto para o Reino de Deus”.
Os primeiros cristãos consideravam que o Cristianismo fosse uma religião do caminho, um caminho rumo ao céu, à salvação, à vida divina, plena, eterna e feliz. De fato o é, mas é mais, é um seguimento de uma Pessoa, Jesus Cristo, o caminho, a verdade e a vida. No domingo passado, Jesus disse que quem quiser segui-Lo deve renunciar a si mesmo e tomar sua cruz. Hoje, Jesus diz que o seu seguimento é difícil, impõe sacrifício, exige desapego até da família e reclama urgência, porque o anúncio do Reino de Deus não pode esperar e quem nele entrar deve ter a firme disposição de partir sem olhar para trás.
Caro leitor e leitora, pergunto-lhe: pelas estradas da vida, é firme a sua disposição de partir, seguindo a Jesus Cristo e anunciando o Reino de Deus com sua justiça, amor e misericórdia?
Na reflexão do domingo passado, com base no Evangelho (Lc 9,18-24) no qual Jesus fala da cruz, a sua e a dos cristãos, fiz uma crítica da “teologia da prosperidade”, em voga hoje especialmente entre as igrejas neo-pentecostais. A verdadeira teologia cristã objetiva o conhecimento de Deus e seu plano de salvação no horizonte da eternidade em vista do bem último do homem, visa a experiência e a vivência de Deus e do seu amor desde este mundo, leva já à prática da vontade de Deus, ao compromisso com a implantação do Reino de Deus, com a justiça social e a solidariedade aos pobres e feridos da sociedade. Bem diferente é a “teologia da “prosperidade”, baseada numa espiritualidade individualista, utilitarista, pragmática, interesseira, que acredita num paraíso terrestre, a qual por isso fomenta a busca da cura divina, a riqueza e o sucesso nesta terra, deixando em segundo plano o que diz respeito à outra vida. A crença de base dessa teologia é que Deus estaria obrigado a atender o crente fiel, concedendo-lhe o que deseja para resolver seus problemas do aqui e agora, em retribuição ao seu esforço pessoal, à emulação que faz de si mesmo para cumprir rigorosamente as práticas de culto, ritos, unções, exorcismos e ofertas generosas de recursos à obra de Deus, tudo isso que os pastores prescrevem como sendo da vontade de Deus. A consciência ou o pensamento que está por trás desta religiosidade é mítico, isto é, se você não alcançar a graça é porque falta maior empenho e entrega de sua parte, se alcançar, então a eficácia não é da fé, mas resulta das práticas que são realmente milagrosas quando levadas a sério e à perfeição, e do seu esforço próprio.
A “teologia da prosperidade” sucede ao desencanto com as utopias da modernidade e as suas certezas de que a ciência vencerá todas as doenças, a economia, o mercado e a produtividade possibilitarão melhorar a vida com salários, casas, carros, etc, a política garantirá as liberdades individuais e os direitos sociais, etc. Vale lembrar o Eclesiastes: “Vaidade das vaidades, tudo isso é correr atrás do vento”. A “teologia da prosperidade” é mais uma dessas panaceias modernas que oferecem terapias mágicas e soluções extraordinárias, agora de cunho religioso, deduzida de leitura equivocada do Evangelho que vem fundamentando empreendimentos religiosos com a finalidade precípua de resolver senão todos ao menos vários dos males da vida humana terrena. Que falharam as promessas de felicidade neste mundo ligadas ao iluminismo racionalista moderno é uma verdade aceita e divulgada universalmente hoje. Então, agora novos movimentos religiosos vêm alentar a utopia idealista de um paraíso terrestre, do progresso e da felicidade na terra, com base na Bíblia. Tem cabimento uma teologia como essa? É preciso abrir os olhos e reagir como alertava Paulo: “Não vos conformeis com a mentalidade deste mundo” (Rm 12,2). A Timóteo, Paulo disse: “guarda o depósito da fé, evita o palavreado vão e ímpio, e as contradições de uma falsa ciência, pois alguns, professando-a, se desviaram da fé (1Tm 6,20).
Certo dia, um jovem perguntou a Jesus: “Mestre, que devo fazer de bom para alcançar a vida eterna?” Jesus respondeu: “Cumpre os mandamentos”. E se queres ser perfeito? Vem e segue-me (cf. Mt 19, 16-21). Hoje, as pessoas vêm e perguntam: “Que devo fazer para obter a saúde, o emprego, a quitação da dívida, a riqueza, a cura da droga, a paz em casa, preocupando-se pouco com a vida eterna?”. Aqui vale a pena também lembrar outra passagem do Evangelho, aquela em que Jesus fala aos discípulos que ninguém pode servir a dois senhores, a Deus e ao dinheiro. Ora, quem serve ao Senhor não deve se preocupar com o que comer ou beber, nem com o corpo e com o que vestir, pois Ele cuida de todos. Jesus dá como exemplo as aves do céu e as flores do campo, que o Pai alimenta e veste sem que nada lhes falte. Ao contrário, Jesus afirma categoricamente que “Os pagãos é que procuram essas coisas. Vosso Pai, que está nos céus, sabe que precisais de tudo isso. Portanto, buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão dadas por acréscimo” (Mt 6, 24-34). Ora, a “teologia da prosperidade” não passa, então, de uma teologia pagã.
Por Dom Caetano Ferrari, Bispo de Bauru

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