A população negra sofre com a desigualdade histórica, legado negativo do racismo estrutural, que, até os tempos atuais, se apresenta em todas as instituições sociopolíticas, religiosas e econômicas. Ao tratar de moradia, nós, mulheres negras, sofremos ainda as marcas da escravização doméstica, que fez minha mãe — e muitas outras ancestrais — “morar” no emprego. Hoje, a exclusão acontece com muita intensidade, determinada pela pirâmide salarial, presente em todas as pesquisas, que indicam o lugar social ocupado pela grande maioria das mulheres negras.

A CF 2026 traz para o centro das reflexões, em todos os âmbitos, a especulação imobiliária que expulsa e empurra o povo pobre para as chamadas áreas de risco, conhecidas como comunidades ou favelas — antes cortiços e casas de cômodos, que garantiam a esse mesmo povo morar perto do trabalho. A mulher negra, em grande maioria com jornada tripla e, muitas vezes, mãe solo, precisa viajar horas para chegar aos seus respectivos trabalhos.

Há ainda os projetos sociais, como o “Minha Casa Minha Vida”, que agora priorizam essas mulheres. Porém, ao receberem as chaves da primeira casa própria, muitas se deparam com mudanças drásticas na rotina: precisam mudar os filhos de escola, deixar o convívio social e, muitas vezes, até trocar de trabalho, ficando sem saber se a casa trouxe acomodação ou novos e tristes desafios. Soma-se a isso a chegada de novos investidores que, visando duplicar seu capital, se antecipam na aquisição das moradias populares. A política econômica vigente sempre exclui os mais vulneráveis — entre eles, a população negra.

A Pastoral Afro-Brasileira aponta esse sistema racista que insiste em nos excluir e nos matar. A PAB encontra resistência em todos os setores da sociedade e até mesmo em parte da hierarquia da Igreja Católica, que insiste em negar a exclusão racista que sofremos neste país capitalista, onde o ter se sobrepõe ao ser.

“O planejamento urbano e a política urbana são construídos para preservar os melhores lugares para os setores de maior renda… Com transporte ruim e caro, os moradores das periferias vivem — como disse Milton Santos — uma situação de exílio.”
(Texto-base CF 2026, nº 39).

Nessa situação de pobreza vive a maioria das mulheres negras, violentadas por não poderem acompanhar presencialmente o crescimento dos filhos, por não conseguirem oferecer um ambiente mais acolhedor e seguro, vendo-os, ainda na primeira infância, serem atraídos pelas drogas, prostituição e outras tantas mazelas.

Carolina Maria de Jesus, mulher negra catadora de recicláveis, em sua obra Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada, utiliza metáforas potentes para denunciar a segregação habitacional e a desigualdade social em São Paulo, definindo a favela como um “quarto de despejo”, onde a sociedade joga os “trastes velhos” e o “lixo”.

Pensando na educação, essas crianças e jovens enfrentam muitos desafios. Saem das unidades escolares ao final do Ensino Fundamental I e II com grande defasagem no aprendizado, não estando em igualdade para disputar vagas de trabalho, cursos e, muito menos, o ensino superior. Existem exceções: mães que se anulam para que seus filhos estudem. Quando esses avançam, podem mudar toda a história dessa mãe e dessa família.

Eu, Vera Lopes, fui a primeira mulher da minha família a cursar universidade. Já casada e mãe de uma filha, o estudo trouxe um diferencial não só para mim, mas também para minha mãe, empregada doméstica por toda a vida. Assim, consegui virar a chave da moradia, tendo cedo minha casa própria — algo que não aconteceu com a maioria das mulheres negras da minha família, que, casando cedo e muitas vezes sem apoio do companheiro, não conseguiram prosseguir nos estudos, permanecendo em aluguéis ou comunidades, sem perspectiva de mudança a curto prazo.

Trago como refrão a frase de Nelson Mandela:

“A educação é a arma mais poderosa que você pode usar para mudar o mundo.”

Nesta Campanha da Fraternidade, renovo meu compromisso, que vem das Semanas Sociais Brasileiras. Na 6ª SSB, com indicação do Papa Francisco, ouvimos que o povo de Deus precisa de “Terra, Teto e Trabalho”. Minha reflexão é esta: como podemos permitir que a especulação imobiliária determine a política de moradia do povo brasileiro, especialmente nos grandes centros urbanos, selecionando quem pode morar bem e deixando os demais apenas tentar sobreviver?

A pergunta que não quer calar: será que a Igreja vai enxergar a exclusão em que vivem milhões de pessoas sem teto? Sem isso, a CF 2026 será apenas mais uma campanha para cumprir tradição?

Na minha família, as mulheres deram o tom das casas onde habitamos. Minha avó materna, com quem vivi na primeira década de vida; minha mãe, que passou grande parte da vida nas casas das patroas como empregada doméstica, conseguindo um terreno próprio apenas após os 40 anos. Morreu sem realizar o sonho de ter sua casa acabada e bonita.

O texto-base da CF 2026 traz dados percentuais sobre quem são os sem-teto. Todos os anos, nós da Pastoral Afro-Brasileira aguardamos esses subsídios para comprovar o que a maioria da sociedade não negra insiste em negar: a desigualdade está fundamentada no racismo estrutural, que gera práticas sociopolíticas, econômicas e religiosas, tornando a população negra refém da vulnerabilidade. Sem moradia, essa parcela da população perde direitos constitucionais e a própria dignidade. Ter uma moradia digna, ter um CEP, é porta de entrada para a humanização.

Observem a cor da pele (pretos e pardos) da maioria da população em situação de rua. Antes predominantemente masculina, hoje vemos também mulheres, muitas com filhos pequenos. O número de mulheres negras nessa situação cresce a cada dia — e ainda ouvimos que não existe racismo.

Fico triste e indignada ao ouvir que “somos todos iguais”. Sim, a Constituição de 1988 propõe igualdade. A Bíblia apresenta Jesus vindo para os pobres e excluídos. Mas a população negra ainda carrega o legado da escravização. O letramento racial nos convida a descolonizar o olhar, os gestos, as palavras e as ações, entre leigas e leigos, clero e religiosos/as. Só com essa conversão antirracista avançaremos na proposta da CF 2026.

A CF nos chama a ver, julgar e agir. Sem o recorte racial em todas as reflexões — políticas ou religiosas — não avançamos na proposta do Reino de Cristo: “que todos tenham vida, e vida plena” (Jo 10,10).

Quero crer que a CF 2026 abrirá nossos olhos para entender que, sem moradia, não há vida digna. Casa é o primeiro passo para garantir direitos.

Sendo mulher negra, faço memória daquelas que vieram antes de mim, das que caminham comigo e das que ainda virão. Somos resistência para garantir sobrevivência. A falta de moradia nos expõe a todas as formas de violência.

Essa violência se expressa nos homicídios de jovens negros, nos feminicídios, no desemprego e nos menores salários recebidos por mulheres negras. Na educação, crianças negras são mais estigmatizadas; meninas têm seus cabelos ridicularizados desde cedo; na saúde, ainda enfrentamos profissionais que evitam tocar nossos corpos.

Tratar de moradia é tratar do espaço sagrado do povo de Deus. Como peregrina da esperança, acredito que os dados da CF 2026 impulsionarão formações com recorte racial. Movimentos, associações e pastorais precisam assumir essa pauta.

Sem moradia digna, não há justiça social.

Vera Lúcia Lopes
Pastoral Afro-Brasileira