A UNIDADE DA IGREJA NO PENSAMENTO PAULINO

Nas palavras e nos gestos do apóstolo Paulo, retratados no livro dos Atos dos Apóstolos e nas cartas paulinas, podemos encontrar inúmeras passagens que nos mostram como o ferrenho perseguidor da Igreja passou a ser, a partir do seu encontro com o Senhor na estrada de Damasco, um fervoroso discípulo de Jesus, empenhado na missão evangelizadora, em cuja ação estava também a articulação da unidade dos cristãos.

A imagem paulina da Igreja como corpo, cuja cabeça é Cristo, é uma referência emblemática dessa visão. Isso decorre do fato de Paulo entender o seguimento de Jesus como um caminho que se faz juntos, na fé, na esperança e no amor, e não de forma isolada. De fato, dirigindo-se à comunidade de Éfeso, o apóstolo escreve: “Há um só Corpo e um só Espírito, assim como é uma só a esperança da vocação a que fostes chamados; há um só Senhor, uma só fé, um só batismo” (Ef 4,4-5).

Essa unidade, porém, não pode ser confundida com “uniformidade”. São Paulo mesmo dirá que, assim como o corpo humano é formado por diferentes membros (cf. Rm 12,4-8), a Igreja, povo de batizados, é um único corpo no Espírito Santo, mas formado por pessoas que convivem na diversidade de dons, ministérios e carismas, distribuídos pelo mesmo Espírito (cf. 1Cor 12,4-11).

Tal unidade é articulada, na prática pastoral de Paulo, pelas relações humanas, nas quais a comunicação — entre os membros da Igreja e destes com Deus — é um fator imprescindível. Ele nos mostra que, sem comunicação, é impossível a comunhão e, por consequência, a unidade. Nessa perspectiva, São Paulo é um verdadeiro artesão de comunhão, arte que exerce concretamente nos contatos pessoais, nas visitas às comunidades e por meio de suas cartas.

De fato, a capacidade de Paulo de estabelecer relações e edificar comunidades nos mostra que, para ele, não havia dicotomia entre a presença física e a presença mediante sua palavra escrita, lida pela comunidade (cf. 2Cor 10,9-11). Seu esforço era unicamente o de “interligar” pessoas e as diferentes comunidades (cf. Cl 4,15-16), na fé em Cristo, o que resultava em uma verdadeira rede de colaboradores no trabalho de evangelização.

A metáfora paulina do corpo e dos membros leva-nos a refletir sobre como está hoje, na era das redes digitais, a nossa identidade de Igreja, fundada sobre a unidade, a comunhão e a alteridade. Sobre isso, são atuais as palavras do Papa Francisco na mensagem para o Dia Mundial das Comunicações Sociais de 2019, quando afirma que “o panorama atual convida-nos, a todos nós, a investir nas relações, a afirmar — também na rede e através da rede — o caráter interpessoal da nossa humanidade. Por maior força de razão, nós, cristãos, somos chamados a manifestar aquela comunhão que marca a nossa identidade de crentes. De fato, a própria fé é uma relação, um encontro; e nós, sob o impulso do amor de Deus, podemos comunicar, acolher e compreender o dom do outro e corresponder-lhe”.

Que o ideal da unidade, na diversidade de dons, abraçado por São Paulo, inspire também a nós, Igreja que caminha em meio aos inúmeros desafios da era digital. Que a nossa comunicação, como vem insistindo também o Papa Leão XIV, seja capaz de construir pontes, defender a vida e derrubar muros, visíveis e invisíveis, que impedem o diálogo sincero e a comunhão. Que o apóstolo Paulo interceda por nós nesse propósito!

Dom Valdir José de Castro, ssp
Bispo de Campo Limpo