A Páscoa de Jesus Cristo – força renovadora da vida

No livro do Apocalipse lemos: “Estive morto, mas agora vivo pelos séculos” (Ap 1,18). Este anúncio faz da Páscoa do Senhor o centro da fé e da vida cristã, e a celebração da Páscoa é o dia mais luminoso para a Igreja, que, na bela liturgia da Vigília Pascal, leva a comunidade eclesial a proclamar, com grande júbilo, que Jesus Cristo, crucificado e sepultado, ressuscitou vitorioso dentre os mortos.

Os Evangelhos relatam que o túmulo que acolheu o “Rei dos Judeus” (Jo 19,19), após sua morte na cruz — onde, aos olhos humanos, Ele deveria permanecer para sempre — foi encontrado vazio. É uma ausência incômoda, pois altera o ciclo considerado normal como destino de todos. Maria Madalena, a primeira a testemunhar essa ausência, ficou desorientada, assim como Pedro e João. Mas ali soaram palavras inauditas até então: “Por que buscais entre os mortos aquele que vive? Não está aqui. Ressuscitou” (Lc 24,5). O túmulo vazio passa a ser sinal eloquente de que a morte já não tem a última palavra, pois uma força vivificante, com poder de vencê-la, foi introduzida na realidade.

É fato que a ressurreição, mesmo sendo um evento histórico e testemunhado pelos Apóstolos, apresenta dificuldades para sua compreensão e aceitação. Por isso, até mesmo muitos cristãos correm o risco de viver uma fé encerrada na Sexta-feira Santa, mais inclinada a contemplar a morte, em virtude das dificuldades da vida. Maria Madalena demonstra que nada pode afastar a pessoa do Senhor: é necessário buscá-lo, mesmo em meio às trevas da vida (Jo 20,1), pois não se pode renunciar ao amor Daquele que nos atraiu com sua entrega gratuita por nós.

Não se pode perder o contato com o Ressuscitado; caso contrário, a fé perde sua força motriz e criativa. A ressurreição de Jesus é sempre atual; do contrário, encerra-se no passado distante e pode tornar-se mero dogma estruturante da fé. São Paulo, o último dos Apóstolos a se encontrar com o Ressuscitado, diz: “E, se Cristo não ressuscitou, vã é a nossa pregação, e vã a nossa fé” (1Cor 15,14). Para quem se encontra com o Ressuscitado, surge o oitavo dia, que não conhece ocaso, no qual Deus e o homem vivem do mesmo Espírito, em aliança eterna.

O Senhor continua a se manifestar vivo como força vital, garantindo e impulsionando a renovação constante da vida, rumo à plenitude desejada pelo Criador. O Ressuscitado assume o centro da vida e da história, e a Páscoa é um convite a cultivar a fé e a esperança em um mundo marcado por tantas incertezas, sofrimentos e injustiças. A Ressurreição de Cristo proclama que o mal não é definitivo: Deus continua agindo na história e conduzindo o seu povo e toda a humanidade, sustentando os sofrimentos e as perdas decorrentes de injustiças e ganâncias, desde aquelas presentes nas relações pessoais e sociais até as que se manifestam entre povos e nações.

Na Páscoa, a Igreja pede aos fiéis que renovem o Batismo, que os inseriu na dinâmica da morte e da ressurreição de Cristo, pois a vida cristã é participação na vida nova possibilitada pelo Ressuscitado. A fé pascal impele os discípulos e discípulas do Senhor a serem testemunhas dessa nova realidade, anunciando, com suas vidas, que Cristo continua presente em nosso meio.

Esse anúncio implica reconhecer o Crucificado, a quem Deus tornou vitorioso das injustiças que lhe foram impostas, pois as vidas crucificadas não serão em vão nem terminarão em fracasso. Deus também as ressuscitará, de modo que todas as feridas e cicatrizes oriundas da ação do mal na existência serão curadas. Jesus Ressuscitado apresentou-se aos discípulos com as cicatrizes da cruz, mas reconciliado com elas, transformadas em testemunhas de sua vida de doação irrestrita pela salvação daqueles aos quais foi enviado.

A Ressurreição do Senhor convida a acreditar e a esperar, contra os sinais de desesperança. É garantia de que Deus conduz à realização dos mais genuínos anseios de vida em abundância, com justiça e paz, acalentados pela humanidade e por toda a criação.

Que a celebração da Páscoa inspire gestos concretos de amor, fraternidade e solidariedade. Onde a vida é defendida em sua integralidade, do início ao fim; onde o perdão é oferecido; onde a esperança renasce — ali se torna visível a força da Ressurreição, que já está entre nós.

Feliz Páscoa!

Dom Luiz Carlos Dias
Bispo de São Carlos
Vice-presidente do Regional Sul-1 da CNBB