
Dom Vicente e Dom Antonio
Durante cinco dias, no período de 7 a 11 de julho, Dom Vicente Costa, Bispo Diocesano de Jundiaí e presidente do Conselho Missionário Regional (COMIRE) Sul 1 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), esteve em visita aos(às) missionários(as) do Projeto Sul 1 – Norte 1 (Amazônia), reunidos na cidade de Tabatinga (AM), Diocese de Alto Solimões. Com ele viajou o Bispo de Jaboticabal (SP), Dom Antônio Fernando Brochini, Css, presidente da Comissão para a Ação Missionária e Cooperação Intereclesial do Regional Sul 1. Na oportunidade, os Bispos se encontraram com Dom Alcimar Caldas Magalhães, OFMCap, Bispo local, e com os(as) missionários(as) afim de conhecer mais de perto as atividades missionárias de evangelização desenvolvidas em várias regiões da Amazônia.
É sobre os desafios da evangelização nessa região da Amazônia, compreendida pelo Regional Norte 1 da CNBB, que Dom Vicente falou em entrevista exclusiva para O VERBO, jornal da Diocese de Jundiaí.
O VERBO: No que exatamente, consistiu a visita?
Dom Vicente: Este encontro com os(as) missionárias que atuam no Projeto Missionário Sul 1 (São Paulo) – Norte 1 (Amazônia) acontece a cada dois anos. É um momento para acompanhar as atividades dos(as) missionários(as), analisar o andamento dos seus trabalhos, dialogar com eles(elas) a fim de partilhar suas experiências e descobrir formas de como podemos cooperar e sermos solidários com eles(elas). É também um momento especial para rezarmos juntos a fim de que a espiritualidade missionária fortaleça e anime nossa presença na Igreja Amazônica. Portanto, a nossa visita à Amazônia consistiu basicamente em reuniões diárias com os(as) missionários(as), no Centro de Formação, em Tabatinga. Esses encontros foram marcados por uma profunda harmonia fraterna.
O VERBO: Atualmente, quantos(as) missionários(as) atuam no Projeto Missionário Sul 1 – Norte 1?
Dom Vicente: No total, são 11 missionários(as), trabalhando nas seguintes dioceses e prelazias: dois padres, três religiosas e uma leiga em Alto Solimões, um padre e uma leiga em Tefé, um padre e uma leiga em São Gabriel da Cachoeira e um padre em Coari.
O VERBO: E em que consiste o trabalho de cada um?
Dom Vicente: Cada missionário(a) desempenha seu ministério em comunhão com o Bispo local. Em geral atua nas sedes paroquiais, acompanhando as comunidades no diálogo cultural e inter-religioso e na evangelização, particularmente na promoção e na defesa dos mais pobres e excluídos.
O VERBO: Quais foram as suas impressões da região?
Dom Vicente: Descobri que é uma realidade distante, que poucos conhecem e que por causa de suas peculiaridades precisa de missionários(as) capacitados(as), que entendam o povo e sua cultura para desenvolver atividades, projetos e a missão evangelizadora junto a esse povo de Deus. Essa porção do território nacional clama por missionários(as) comprometidos e generosos.
O VERBO: Quais são as maiores dificuldades encontradas naquela região?
Dom Vicente: Carência. Carência em todos os sentidos.
O VERBO: E os maiores problemas encontrados pelos missionários(as)?
Dom Vicente: Os problemas sociais são urgentes. Os mais visíveis são o tráfico humano, a presença das drogas, uma forte mobilidade humana, que geram violência, problemas de relacionamentos, o enfraquecimento de estruturas como a família, a escola, a profissão, o trabalho. Sente-se também a escassez de políticas públicas, distâncias enormes, serviço de saúde deficiente, recursos econômicos escassos, a falta de sacerdotes. Completa a lista os problemas que todos conhecem: a terra, a questão indígena e o desmatamento.
O VERBO: E qual é a maior urgência da missão na Amazônia?
Dom Vicente: A maior urgência é a “inculturação”, para acolher e compreender expressões culturais próprias dos povos daquela região. O(a) missionário(a) precisa saber ouvir, servir generosamente, precisa se despojar, não pode impor a evangelização. Deve ser parceiro(a), companheiro(a) e devolver a dignidade humana às pessoas sofredoras e injustiçadas sem jamais pretender de ser aquele(a) que manda e oprime.
O VERBO: E para atender a essa urgência o que é necessário fazer?
Dom Vicente: Despertarmo-nos para essa realidade e sermos misericordiosos e mais solidários. “Que nossas obras sejam acompanhadas pela busca de verdadeira justiça social” (Documento de Aparecida [DAp], n. 385).
O VERBO: O Projeto Missionário Sul 1 – Norte 1 está completando 20 anos. Na sua opinião, a iniciativa tem atingido seu objetivo?
Dom Vicente: O Projeto Missionário Sul 1 – Norte 1, desde a sua implantação em 1994, busca promover a ação missionária e evangelizadora, a formação e atividade dos(as) missionários(as) e a ajuda intereclesial no Brasil. Muitos missionários e missionárias já passaram pelo Projeto; muito foi feito, mas ainda há muito trabalho a ser realizado. Como diz o Documento de Puebla: “Uma Igreja em estado permanente de missão nos interpela… à missão ad gentes, dando ‘de nossa pobreza’ em outras regiões e além-fronteiras” (n. 368).
O VERBO: Qual mensagem o senhor deixou aos(às) missionários(as)?
Dom Vicente: Precisamos dedicar nosso tempo aos pobres, prestar a eles especial atenção, escutá-los com interesse, acompanhá-los nos momentos difíceis, partilhar as horas, semanas, ou anos de nossa vida e buscar, a partir deles, a transformação de sua situação (cf. DAp, n. 397). Apesar de todos os desafios, louvamos e agradecemos a Deus pelo compromisso de todos com a Missão e manifestamos nossa gratidão a cada missionário e missionária.
O Regional Sul 1 da CNBB agradece O VERBO que, gentilmente nos cedeu a entrevista de Dom Vicente Costa para ser publicada no site da instituição.


