A Quaresma se apresenta, para nós discípulos, como um tempo privilegiado de reencontro com Jesus, o Divino Mestre. Não se trata apenas de um período litúrgico marcado por práticas penitenciais, mas de um verdadeiro caminho mistagógico, no qual somos conduzidos, passo a passo, ao coração do nosso Batismo. Cada encontro com Cristo, ao longo deste itinerário, torna-se uma oportunidade concreta de renovar a graça batismal que nos configurou a Ele.
Este caminho revela-se de forma profundamente pedagógica na experiência espiritual que a liturgia nos propõe, em sintonia com o itinerário do Rito de Iniciação à Vida Cristã (RICA).
No deserto, aprendemos que Jesus é o vencedor das tentações e do mau espírito. Ali, somos confrontados com nossas fragilidades, mas também experimentamos a força libertadora de Deus — um verdadeiro exorcismo interior, que nos recorda que não estamos sozinhos na luta contra o mal. Este momento evoca os ritos de exorcismo do catecumenato, nos quais o catecúmeno é libertado do poder das trevas para que, afastado o domínio do mal, seja preparado para acolher o Senhor Jesus Cristo. Assim, aquele que antes estava sob o pecado é chamado a tornar-se morada do Salvador.
No monte, contemplamos sua glória e reconhecemos que Ele é a Palavra viva do Pai, que deve ser escutada e acolhida. É o momento da entrega da Palavra, no qual o discípulo é convidado a abrir o coração a uma escuta obediente e transformadora. Como nos recorda o rito: “Recebe o livro da Palavra de Deus. Que ela seja luz para a tua vida. Crê no que leres, vive o que creres e anuncia com a tua vida”.
No poço, junto à samaritana, reconhecemos que Ele é a verdadeira água que sacia toda sede. Trata-se da água batismal, que não apenas purifica, mas gera em nós uma vida nova e permanente. Este momento evoca a etapa catecumenal que culmina na entrega do Credo — o Símbolo dos Apóstolos ou o Símbolo Niceno-Constantinopolitano — como expressão da fé da Igreja. Trata-se do compromisso de aderir às verdades fundamentais da fé e de configurar a própria vida ao Evangelho.
No templo, diante da piscina de Siloé, somos conduzidos ao encontro com Aquele que é a luz do mundo. Ele ilumina nossas cegueiras, revelando aquilo que em nós precisa ser curado. Este é o tempo da purificação e iluminação, etapa própria do RICA, marcada pela conversão interior, pelo exame de consciência e pelo aprofundamento no conhecimento de Cristo, preparando-nos para a recepção dos sacramentos na Vigília Pascal.
No túmulo, finalmente, encontramos Jesus como a verdadeira vida. Diante da morte, Ele se revela como o Sacramento do Pai, Aquele que devolve ao ser humano a plenitude da existência. Aqui, a esperança cristã atinge sua expressão mais profunda: a vida vence a morte.
Essa caminhada mistagógica nos conduz intensamente ao Mistério Pascal de Jesus — sua Paixão, morte e Ressurreição — que encontra seu ponto culminante na Vigília Pascal e nos abre à ação do Espírito Santo, que nos constitui como membros vivos da comunidade eclesial. É também o início do tempo da mistagogia, última etapa do caminho catecumenal, na qual os neófitos são chamados a aprofundar, na vida comunitária, na caridade e na participação sacramental, a graça recebida.
Dentro desse itinerário, o encontro com Lázaro torna-se particularmente significativo: é o encontro da morte com a vida. O relato de sua ressurreição não é apenas um milagre isolado, mas uma antecipação da gloriosa Ressurreição de Jesus. Se em Lázaro contemplamos um sinal, em Cristo encontramos a plenitude.
Diante disso, somos convidados a nos perguntar com sinceridade: de que precisamos ressuscitar?
Há mortes que habitam dentro de nós. São experiências interiores que geram escuridão: tristezas, dúvidas, medos, fechamentos, falta de perdão, vícios. São realidades silenciosas, mas profundamente concretas. Jesus tem o poder de nos arrancar dessas mortes interiores, chamando-nos novamente à vida.
Há também as mortes presentes no mundo. Ao olharmos para a sociedade, vemos realidades marcadas pela pobreza, corrupção, injustiça, fome e falta de moradia digna — situações que ferem profundamente a dignidade humana, como nos recorda a Campanha da Fraternidade. Soma-se a isso a dor das guerras, especialmente no Oriente Médio, que continuam a ceifar vidas e a sufocar a paz. Cristo continua vencendo a morte no mundo, mas deseja fazê-lo também por meio de nós, através de uma ação consciente, solidária e comprometida.
E há, ainda, a experiência do luto. Todos nós, mais cedo ou mais tarde, passamos pela dor de perder alguém amado. O luto é um caminho exigente, para o qual ninguém está plenamente preparado. No entanto, é também um processo de amadurecimento do amor. Aprende-se a viver o luto e, nesse caminho, Jesus se faz presença consoladora. Ele mesmo nos assegura: “Eu sou a Ressurreição e a vida”.
Por fim, somos iluminados pela compreensão de que o encontro com Cristo não nos oferece respostas prontas, mas suscita perguntas; abre espaço para o diálogo e nos torna disponíveis para acolher o bem.
Cristo não é uma simples informação a ser transmitida, mas um mistério que habita a humanidade e pede para ser reconhecido. O Evangelho não se comunica como uma notícia qualquer; ele se oferece como uma vida que, lentamente, vai tomando forma em nós.
Assim, viver a Quaresma é permitir que a vida de Cristo cresça em nosso interior, até que, com Ele, passemos da morte para a vida.
Pe. Luis Fernando da Silva
Secretário Executivo do Regional Sul 1 da CNBB


