Com a celebração da Quarta-Feira de Cinzas a Igreja inicia um tempo litúrgico precioso de preparação para a atualização da Páscoa do Senhor. É um período que vem recolocar no horizonte das comunidades cristãs o grande mistério salvífico de Deus em favor da humanidade, com sua morte redentora e a Ressurreição. Todo fiel, discípulo ou discípula do Senhor, é chamado a acolher esse tempo de graça, e seguir Jesus Cristo em sua entrega salvífica, “para que a nossa fé ganhe novo impulso e o coração não se perca entre as inquietações e as distrações do quotidiano” (Papa Leão XIV. Mensagem de Quaresma 2026).

Nesse sentido, integrar a caminhada quaresmal do Povo de Deus, implica tomar consciência e lutar contra aquilo que pode gerar dissabores e dissolução oriundos do pecado do mundo sintetizado nos Evangelhos pelas tentações vencidas por Jesus (Mt 4,1-11, Lc 4, 1-13). A primeira, de colocar no centro da vida a busca do pão, símbolo do materialismo, conforto e segurança em detrimento da Palavra e do projeto de Deus; a segunda, de empenho por reconhecimento vaidoso e mesmo narcísico e de se fechar à humildade no trato do outro e à obediência filial para com Deus; a terceira, da busca do poder e domínio ao invés de gestos fraternos e gratuitos, como o Filho de Deus ensinou.

Na Quaresma, Deus mesmo vem em nosso socorro com o convite à conversão desses males geradores de dissabores e dissolução, lembrando o desfecho da vida de Jesus Cristo entre nós, em Jerusalém. Lá recaiu sobre Ele a ação destrutiva do pecado e dos males deste mundo em seu corpo (Cf. Is 53, 4-5), mediante suplícios torturantes até a morte aviltante da cruz. O Senhor passou por tudo isso imbuído de um amor imenso, sabedor de estar redimindo-nos para uma vida fraterna com os irmãos e comunhão com o Pai bondoso e misericordioso.

Entretanto, a contemplação da Via Crucis do Salvador convida todo fiel a perceber que Jesus continua seu suplício entre nós, no sofrer diário de cada um dos filhos e filhas de Deus, atingidos por injustiças oriundas desde as relações pessoais até as sociais. E quando o nosso olhar for dirigido, pelas orações e celebrações, às dores e chagas de Cristo, que não se desvie do sofrer dos irmãos e irmãs, como os indicados profeticamente pela Campanha da Fraternidade (CF), a pedido da Conferência dos Bispos da Igreja no Brasil.

Neste ano a CF lembra-nos quantos ainda vivem em moradias precárias e inadequadas à dignidade de seres humanos, sobretudo como filho ou filha de Deus. Este problema na moradia compromete o bom convívio e a unidade da família, a educação dos filhos, o justo descanso, o cuidado da saúde, a segurança etc. A culpa, no entanto, não é das vítimas, mas da desigualdade social e de oportunidades, e mesmo, pelo descaso para com a situação dessa população.

Em toda quaresma somos lembrados que Deus ouve o clamor dos que sofrem ou são injustiçados (Cf. Ex 3,7). Mesmo quem utilizar subsídios que não tocam nesse tema, exorto que o seu olhar dirigido a Jesus Sofredor, não implique em desprezar o sofrer de Jesus dos muitos irmãos que vivem em moradias precárias. Que sejam objeto de nossas preces, de tomada de consciência da injustiça social expressa na condição da moradia deles, e sejam suscitadasações em prol deles.

Portanto, sugiro que a solicitude da fé ao final do período quaresmal, produza gestos concretos de conversão, pessoal ou comunitário. Por exemplo, a arrecadação de material ou a organização de um mutirão para a reforma da moradia de algum irmão, necessitada de melhorias. Que esse gesto seja precedido por um discernimento no Espírito para aescolha da família a ser contemplada. Esse trabalho, evidentemente, demandará tempo e acompanhamento, e não se descuide do anúncio da Palavra de Deus.

Desejo a todos os membros de nossa Igreja diocesana uma boa caminhada quaresmal, em abertura ao Espírito Santo que nos fala fortemente nesse tempo. Ainda vos recordo da importância de fazerem uso constante das tradicionais indicações evangélicas para a conversão e preparação para a Páscoa: a oração, a abstinência do jejum e a esmola da caridade.

Uma Santa Quaresma a todos, rezemos uns pelos outros!

Dom Luiz Carlos Dias
Vice presidente do Regional Sul 1 da CNBB
Bispo Diocesano de São Carlos