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Vamos iniciar a Semana Santa

Estimados fiéis, aproxima-se a Semana Santa, ocasião em que através das celebrações litúrgicas fazemos memória dos acontecimentos da vida de Jesus Cristo e, consequentemente da nossa.

Celebrar a Semana Maior de nossa fé, como dizem os mais antigos, é ter a oportunidade de mergulhar mais uma vez nos mistérios de Deus, que se fez tão próximo de nós com a encarnação do seu Filho.

As celebrações litúrgicas, atualização do mistério pascal de Cristo, devem conduzir-nos a um encontro pessoal com o outro, com a comunidade, com a sociedade, a família e isso será possível pelo esforço de todos: ministros ordenados e fiéis leigos e leigas, principalmente daqueles que exercerão ministérios e funções litúrgicas.

É preciso atentar para que o Memorial não se torne especificamente teatralidade. Praticamente todas as comunidades já se reuniram, organizaram as celebrações, distribuíram as tarefas, os grupos vêm realizando seus ensaios e assim vamos construindo este caminho celebrativo.

A preparação para viver bem a Semana Santa vai um pouco além do aspecto organizacional. A principal preparação é espiritual, realizada através do sacramento da reconciliação (confissões), da leitura orante da Palavra de Deus, do silêncio, da invocação do Espírito Santo, do chegar antecipadamente, da ambientação dentro do espaço celebrativo. Isto tudo nos livra do “possível cansaço físico” e da expressão que pode fazer com que tudo se perca, quando no domingo da Páscoa, as equipes virem a dizer: graças a Deus que acabou.

Viver os momentos da vida de Cristo é percorrer além de um acontecimento histórico, um caminho de maturidade da fé. Não se trata de uma mera repetição, mas uma atualização que constrói em nós o desejo de a cada dia assumirmos nosso compromisso de cristão leigos e leigas, sendo sal da terra e luz do mundo, na Igreja e na Sociedade.

O caminho litúrgico convida-nos a entrar em Jerusalém. Aqui cabe-nos perguntarmos: como queremos entrar? De uma forma triunfal? Como Jesus, no jumentinho? Onde estaremos dentro deste contexto? Na caravana daquele que se entregará? No meio do povo que grita?

A experiência vivida por Jesus em Jerusalém expressa muitas vezes o caminho de nossas comunidades eclesiais: sofrimento, condenação, incompreensão, juízo precipitado, gritaria, ostentação versus entrega, humildade, doação, silêncio, humilhação. As formas de violência continuam se repetindo como nos alertou o tema da Campanha da Fraternidade deste ano.

A grande experiência da Semana Santa é ajudar tantos fiéis a chegar ao ponto alto: a Ressurreição. É perceber a continuidade entre os mistérios da ceia, da morte, da ressurreição. É construir uma unidade celebrativa e não uma consciência fragmentada na qual escolho em qual celebração vou e naquela que é a mais demorada eu deixo de lado. A participação precisa ser ativa, consciente e frutuosa.

Viver esses acontecimentos, estando ao redor da mesa da palavra e da ceia, é ouvir claramente de Jesus: “Dei-vos o exemplo, para que façais a mesma coisa que eu fiz. ” (João 13,15). A vivência da Semana Santa passa por um desejo de continuidade, de levar adiante, de testemunhar, de ir ao encontro do outro. Abaixar-se para lavar os pés, é uma atitude que decorre de uma decisão.

Na medida em que o caminho vai sendo percorrido, nos deparamos com a traição vinda daquele que lhe era próximo, o silêncio, a agonia de Jesus, a tentação do “afasta de mim este cálice. ”

Passar a noite numa Vigília contemplando a angústia. Aqui permanece para nossas comunidades, grupos, pastorais, movimentos, a necessidade de compreender o sentido da Vigília de quinta para sexta-feira. Muitos querem ocupar aquela hora com momentos intensos de rezas, de terço, de cânticos, de falatórios. Proponho um caminho: silêncio, escuta da palavra, interiorização. Muito silêncio.

A contemplação da cruz, como parte deste caminho, evidencia a profundidade do amor divino, do esvaziamento, da entrega e da percepção de que as palavras ditas ao redor da mesa, tornam-se sinal visível no corpo doado, no sangue derramado, no Jesus pregado na Cruz.

O caminho da cruz, convida-nos a perceber os sinais da condenação, as consequências do pecado, a necessidade do aproximar-se de Jesus, assim como fez José de Arimatéia e sua Mãe.

Os passos nos levarão ao sacrifício da cruz, consciente do que significa entregar ao Pai o Espírito e depois deixar-se abandonar nos braços daquela mulher que entende perfeitamente as profecias de Simeão e, acima de tudo, o sentido do sim dado a Deus.

Descer à sepultura, é um exercício exigente. Deixar sepultar tantas coisas em nossa vida, na comunidade, na sociedade, na família. Morrer para ter uma vida nova.

É com esse processo que entenderemos o sentido da Ressurreição. Observemos os sentimentos vividos pelas mulheres, pelos apóstolos naquele dia da Ressurreição. Ir ao encontro, viver a incerteza, contemplar a dúvida, esvaziar-se para enxergar o Ressuscitado. Ressuscitar com o Ressuscitado.

No contexto celebrativo, temos a “Mãe de todas as celebrações”, a Vigília Pascal, com os todos os elementos constitutivos da vida nova: Luz, Palavra, Água, Membros novos para a Igreja, participação na ceia e compromisso missionário testemunhando o que nos “ardia no coração, quando ele nos falava. ”

Aprendamos a fazer o caminho de e com Jesus. Desejo a todos um itinerário espiritual construtivo, edificador e frutuoso.

Padre Kleber Rodrigues da Silva é da diocese de Taubaté e assessor da Comissão para a Liturgia do Regional Sul 1 da CNBB

 

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