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Uma trágica marca

Situando a questão

Diferentemente do estilo a que me proponho escrever regularmente, este artigo é motivado pela situação atual da pandemia em nosso País. Desde fevereiro de 2020 o Brasil enfrenta a pandemia do Corona Vírus (Sars-Cov-2) que se assolou sobre o mundo. Enquanto outros países já estão retornando à normalidade da vida, da economia e até do turismo, nós aqui ainda convivemos com altos índices de contágio, UTIs e hospitais lotados, alta taxa diária de mortes. No dia 19 de junho atingimos a trágica marca (oficial) de meio milhão de mortes pela Covid. São ao menos quinhentas mil vidas perdidas e milhares de famílias e pessoas enlutadas. A idade das pessoas mortas levou à consideração que lhes foi tolhido, em média, dezoito anos de vida.  O objetivo deste artigo, publicado num periódico mensal, obviamente, não é o de informar os últimos dados, mas sim, registrar essa triste realidade que assola nosso País e suscitar alguma reflexão.

Alguns dados

Os dados aqui apresentados são da Organização Mundial da Saúde (OMS), tomando por referência a semana em que nosso País totalizou meio milhão de mortes. O único país com número de mortos mais alto que o Brasil são os Estados Unidos da América que, na mesma semana, contabilizavam 597 mil mortos. Os EUA têm população de 330 milhões de habitantes e o Brasil 212 milhões. O alto número de mortes nos EUA, entre outros fatores, deveu-se, certamente, ao fato de terem tido um presidente negacionista e arrogante que ignorou as orientações da ciência, demorou a iniciar o processo de vacinação, menosprezou medidas sanitárias, promoveu aglomerações e, sistematicamente, desprezou o uso de máscaras. Quando um chefe de Estado age assim, irresponsavelmente, emite ao povo uma sinalização muito negativa, dúbia, que gera falta de referências, desorientação e, consequentemente, em situação como esta, trágicas consequências. Nos Estados Unidos a realidade começou a mudar, em janeiro de 2021, com a posse do novo presidente, que demonstra ser mais sensato e melhor preparado para a função. Este não negou a realidade e, amparando-se nas orientações científicas, tomou as medidas sanitárias necessárias. No auge da crise, impôs controle à entrada de estrangeiros ao país, estabeleceu uso obrigatório de máscara, intensificou expressivamente o ritmo de vacinação e, antecipadamente, alcançou a meta que ele mesmo havia estipulado. O número de mortes, que no pico da pandemia atingiu a cifra de 3.300 por dia, na quarta semana de junho (quando escrevo este artigo), estava em torno a 390 por dia. Enquanto isso, no Brasil, dia 23 junho, foram registradas 2.392 mortes, segundo dados da Rede Bandeirantes de Notícias, e apenas 11,64% da população recebeu as duas doses da vacina. Nos Estados Unidos, nessa mesma época, adolescentes de doze anos começaram a receber a vacina, que também é oferecida até a turistas estrangeiros, que já podem fazer viagens internacionais. Claro que nos Estados Unidos, com tais medidas, a vida e a economia retomaram novo ritmo. A economia recuperou-se com o controle da pandemia. Os cidadãos norte-americanos que mais sentiram o impacto da crise receberam significativo auxílio governamental que, por consequência, serviu para aquecer ainda mais a economia. Lá, o subsídio foi 35 vezes maior que o auxílio emergencial brasileiro, segundo o site Valor Investe. Claro que auxílio desta monta é privilégio de um país rico como os EUA; porém, o controle da pandemia é consequência da capacidade e competência de gerenciamento dos gestores públicos. Isso ficou comprovado em um mesmo país, em curto período, com dois presidentes diferentes e, consequentemente, dois modos diferentes de enfrentar a pandemia e administrar a crise.

O que temos a refletir

Enquanto em praticamente todo o mundo os índices de contaminação e morte estão desacelerando, no Brasil, somente no dia 23 de junho, atingimos o recorde mundial de 115.228 novos casos de pessoas contaminadas. Enfermarias e UTIs continuam lotadas. Somam-se, por aqui, números em torno a duas mil mortes todos os dias. Por que chegamos e mantemos índices assim tão elevados e alarmantes? No Brasil, o que não deu certo e que precisaria mudar? Essas são algumas das perguntas que devemos nos colocar e, de modo sério e desapaixonado, refletir e responder. O vírus não ataca mais agressivamente um país que a outro. O que de fato faz a diferença é a implementação assertiva de ações estratégicas para combatê-lo. Isso está diretamente relacionado à capacidade de gestão pública e à adesão da população.

Por Dom Wilson Angotti
Bispo Diocesano de Taubaté – SP

 

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