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Sofre comigo pelo Evangelho

Até que ponto somos capazes de suportar sacrifícios por causa da fé em Deus e do Evangelho? Com frequência, a religião é apresentada como uma série de práticas e receitas contra todos os sofrimentos, ou como remédio contra todos os males deste mundo.

Até que ponto somos capazes de suportar sacrifícios por causa da fé em Deus e do Evangelho? Com frequência, a religião é apresentada como uma série de práticas e receitas contra todos os sofrimentos, ou como remédio contra todos os males deste mundo.

O que dizer diante de uma religiosidade baseada na promessa de milagres a toque de caixa, de uma religião de facilidades e vantagens, de promessas de prosperidade e que não apresenta a cruz de Cristo, os mandamentos de Deus e a necessidade da conversão e sincera mudança de vida? Isso está de acordo com o Evangelho de Cristo?

Quando dirige sua 2ª. carta a Timóteo, São Paulo já se encontra na prisão, em Roma; certamente, já tem a sentença de morte e espera pela sua execução. Mesmo assim, ele continua a se comunicar com seus colaboradores e as comunidades por ele evangelizadas; essa carta, na prática, é seu testamento espiritual. “Acorrentado como se fosse um malfeitor”, por causa de Cristo e do Evangelho, ele afirma que “a palavra de Deus não está acorrentada” (cf. 2Tm 2,9) e vai sendo anunciada e testemunhada.

Consciente do fim próximo de sua vida, Paulo dá este testemunho: “Já estou sendo oferecido em libação, pois chegou o tempo de minha partida. Combati o bom combate, terminei a corrida, guardei a fé” (2Tm 4, 6-7). E exorta Timóteo, seu jovem colaborador, a também combater o mesmo “bom combate da fé”, atento aos impostores e maus pastores. “Permanece firme naquilo que aprendeste e aceitaste como verdade” (3, 13-14). Diante dos falsos pregadores e mestres, que escondem a verdade de Cristo e só buscam agradar os ouvintes, Paulo orienta: “Sê vigilante em tudo, suporta as provações, faze o trabalho de um evangelizador e desempenha bem teu ministério” (4,5).

Aproveitadores da religiosidade, em busca de lucro e vantagens pessoais, e “inimigos da cruz de Cristo” (cf. Fp 3,18) já existiam no início do Cristianismo. O próprio Jesus advertiu contra os lobos, que se apresentam em pele de ovelha (cf. Mt 7,15) e orientou as multidões que o seguiam, com diversos interesses: quem quiser estar com ele, deve estar disposto a também tomar sua cruz e seguir atrás dele (cf. Mc 8,34s). Jesus anunciava o Reino de Deus e convidava a acolher o jeito novo de viver, conforme o Reino de Deus; e os milagres que fazia eram “sinais” de que esse reinado de Deus, na sua pessoa e com sua pregação e ação, já tinha chegado entre os homens.

Na hora da provação, a fragilidade na fé é o motivo do desânimo e do abandono da fé; a fé pouco firme e pouco profunda não resiste na hora das tempestades da vida e leva a procurar outros caminhos, que prometem mais facilidades e vantagens imediatas. A fé apenas superficial e pouco cultivada, infelizmente, é a condição de muitos membros da Igreja também hoje e nos interpela para realizarmos, de maneira mais eficaz, o trabalho da evangelização. O ambiente bom para a transmissão e a vivência da fé é o convívio da comunidade cristã, onde se recebe o alimento da fé e um irmão fortalece a fé do outro irmão. Viver desligado e distante da comunidade de fé é situação de alto risco para o abandono e perda da fé.

A segunda Carta a Timóteo é marcada pela exortação à firmeza e à perseverança na fé, apesar das perseguições e ameaças. São Paulo convida seu fiel colaborador a deixar de lado toda timidez, respeito humano e vergonha por causa de sua condição de cristão.

“Deus não nos deu um espírito de timidez, mas de fortaleza… Não te envergonhes do testemunho de Nosso Senhor, nem de mim, seu prisioneiro, mas sofre comigo por causa do Evangelho” (1,7-8). Essas palavras soam muito atuais e nos interpelam diante da fraqueza do testemunho público da nossa fé. A “timidez” na fé e até a “vergonha” de manifestar publicamente a própria condição de cristãos e de católicos vêm da falta de firmeza e profundidade na fé.

Paulo sabe o que fala. Na mesma carta, ele observa: “Na minha primeira defesa, ninguém me assistiu. Todos me abandonaram” (4,16). Mas ele está sereno e firme, apesar da amargura pelo abandono dos irmãos: “Sei em quem acreditei e estou certo de que Ele é poderoso para guardar até aquele dia o tesouro a mim confiado” (1,12). Sua fé não se baseia na promessa de vantagens imediatas, mas em Cristo Salvador. Como Paulo, os mártires do passado e do presente testemunham essa firmeza na fé, mesmo diante das ameaças e dos sofrimentos por causa da fé

Cardeal Odilo Pedro Scherer
Arcebispo metropolitano de São Paulo

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