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Shikata Ga Nai

Recebi recentemente um texto por WhatsApp e reproduzo alguns trechos.

“Shikata ga nai” é a arte japonesa de manter a dignidade frente a uma situação que não depende de nós. Há momentos em que só podemos aceitar a realidade, porque não temos o controle sobre determinada situação.

“Shikata ga nai” significa literalmente “não tem jeito” ou “nada pode ser feito a respeito”. Muitos ocidentais podem criticar o povo japonês porque parece uma atitude de resignação. Afinal, crescemos sempre ouvindo que devemos lutar contra a passividade e nunca desistir de nossos objetivos.

No entanto, o conceito de “shikata ga nai” nos permite viver plenamente o momento presente. Frustração e raiva desnecessárias afetam negativamente nossa saúde, e o conceito de “shikata ga nai” pode ser uma das razões que contribuem para a longevidade do povo japonês. O mundo ocidental pode aprender com a mentalidade “shikata ga nai” e ser suficientemente flexível para adotar esse conceito dentro de suas próprias necessidades.

O “shikata ga nai”, porém, não é uma prática fácil. É algo que precisa ser trabalhado continuamente. A vida não é feita só de vitórias. Os acontecimentos desfavoráveis, porém, podem nos fazem crescer como pessoas. Para alcançarmos uma vida serena, precisamos jogar a toalha algumas vezes e isso não precisa ser encarado como uma derrota.

Li o texto completo para um padre amigo e, ao fim, ele cravou uma tradução tupiniquim de “shikata ga nai”: “o que não tem remédio, remediado está”! Fiquei surpreso ao cair na conta que entre culturas tão distintas podemos encontrar pontos de contato. Quando nos aproximamos com abertura de espírito e uma simpatia de base de uma cultura diversa é possível redescobrir elementos um tanto esquecidos na própria cultura. O encontro cultural enriquece não somente pela aquisição de novos elementos, mas também pela redescoberta da própria cultura. Sem diálogo cultural a própria cultura pode se debilitar e se deteriorar.

Em vez do embate cultural, da dominação de uma cultura pela outra, da homogeneização das culturas, precisamos urgentemente do diálogo cultural. Um autêntico diálogo acontece quando ocorre mútuo enriquecimento das culturas dialogantes.

Podemos encontrar uma forma de elevar tanto o “shikata ga nai” e “o que não tem remédio, remediado está” em uma síntese superior e religiosa?

Penso que sim. Quando recomenda aos discípulos “sacudir a poeira dos pés” (Mt 10,14), Jesus não ensina um gesto de desprezo nem de maldição, mas de confiança na força transformadora do Evangelho, que se manifesta paradoxalmente na sua debilidade. O Evangelho é uma proposta humilde que espera a acolhida que pode não ocorrer. Com efeito, o seu anúncio só se impõe pela força da verdade, da beleza e do seu significado salvador. Se as pessoas não querem acolher a salvação: “shikata ga nai”, permanecerão sem ela. A salvação, porém, permanece uma proposta e um dom que espera a acolhida. E se fora acolhida, tem a força de salvar e transformar o mundo.

No livro dos Atos dos Apóstolos, os cristãos foram expulsos de Jerusalém. Sem poder se opor a essa expulsão, se dispersaram pelo território da Judéia e Samaria. “Shikata ga nai”, divulgaram ainda mais o Evangelho para uma região mais extensa (At 8,1).

Outro exemplo de correspondência é a bem-aventurança: “Felizes os mansos, pois eles herdarão a terra” (Mt 5,5). Evidentemente, para entender o que é mansidão é preciso ver como Jesus mesmo a viveu. Ele lutou contra a doença, a fome, a dor, a injustiça, a hipocrisia e nem sempre “venceu”, mas caminhou com segurança para a ressurreição. Jesus não foi um resignado, foi manso: Ele não tinha nem desejava fazer justiça sozinho com as próprias mãos. Diante de poderes que o superavam, sobre os quais não tinha o controle, Jesus deu à sua luta contra o mal um impulso radicalmente novo: em vez do ódio, o amor; em lugar da violência, o martírio. O seu “shikata ga nai” não é resignação ao mal, mas combate para o bem de todos. Ele venceu o mal com o bem. Mesmo a sua falta de “shikata ga nai” (cf. Mt 23,13-36; Jo 2,13-22) não é explosão de ódio ou de orgulho, ao contrário, é revolta ética de amor.

Em todas essas correspondências, descubro que me aproximar de uma cultura diferente, me ajuda a buscar a ser um cristão melhor.

Por Dom Julio Endi Akamine, SAC, Arcebispo de Sorocaba. Presidente da Comissão Episcopal Pastoral para Ação Social Transformadora do Regional Sul 1 da CNBB.
O artigo foi publicado no site da Arquidiocese de Sorocaba e reproduzido no Jornal Cruzeiro do Sul.

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