Com a palavra o Presidente

Reino de Deus, supremo bem do homem

A solenidade litúrgica de “Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo”, no encerramento do ano litúrgico, nos faz olhar para o que nos diz respeito no profundo futuro de Deus. No final de nossa vida, que haverá ainda? No final do peregrinar do Povo de Deus pela história, que haverá ainda? O que sobrará de todos os projetos humanos, no final de tudo?

Conta-nos a fé cristã que há uma grande promessa, uma esperança segura, o desfecho redentor de toda realidade humana transitória e frágil: no final de tudo, está Cristo, Salvador da humanidade, que também já está conosco agora e nos acompanha nos caminhos da vida. Com o título de “Senhor”, ou “Rei”, afirmamos com São Paulo que Deus entregou todas as coisas nas mãos de Cristo Salvador, para que restaure a obra de suas mãos, decaída e corrompida pelo pecado do homem, e lhe restitua a grande dignidade que o Criador lhe imprimiu.

No final, todas as coisas serão submetidas ao senhorio de Cristo, Senhor do mundo e Senhor da Igreja; aquilo que está submetido à lei do pecado, será resgatado e dignificado pelo dom da redenção; até a morte será vencida e haverá vida para sempre (cf 1 Cor 15, 20-26).

No entanto, isso não se dará sem a livre participação do homem: “Deus, que te criou sem ti, não te salvará sem ti”, dizia Santo Agostinho. No Domingo de Cristo Rei, a Igreja proclama o Evangelho do grande julgamento (cf Mt 25, 31-46); Aquele que é nosso Senhor e Rei do universo também é nosso juiz. A ele, devemos prestar contas de nossa vida, do bem ou do mal que praticamos. Jesus coloca todo o destaque no “exame” que teremos que prestar sobre a prática das obras de misericórdia para com o próximo: “todas as vezes que fizestes isso a um dos menores de meus irmãos, foi a mim que o fizestes” (Mt 25,40).

Temos todo o tempo da vida para nos preparar bem para esse grande e definitivo encontro com o Jesus, Rei-Salvador. Não haverá motivo para desculpas de última hora, pois Ele mesmo nos preveniu sobre nossa prestação de contas. Cada dia, temos a oportunidade de praticar as obras de misericórdia esperadas pelo grande juiz.

A festa solene de Cristo Rei nos leva a refletir sobre a realidade do “reino de Deus”, ou também “reino de Cristo”. Que tipo de realidade será? Alguém se perguntará se vale a pena esperar pelo reino de Deus, se isso traz esperança ou alguma compensação. Na nossa mentalidade imediatista e utilitarista, queremos ter a certeza da vantagem, antes de nos movermos para algum projeto ou esforço…

Certo que haverá vantagens! São Paulo, mais uma vez, nos ensina que “Deus será tudo em todos” (cf 1Cor 15,28). Ter Deus como supremo bem não é coisa pequena! É a realização plena de todos os nossos anseios mais profundos! “Estar com Deus” é a felicidade completa do ser humano. O reino de Deus consiste, portanto, nesse estar com Deus e saciar para sempre a incontida sede de plenitude e de felicidade, que trazemos no coração.

O reino de Cristo e de Deus é feito só de coisas boas: “reino eterno e universal; reino da verdade e da vida, reino da santidade e da graça, reino da graça, do amor e da paz” (cf Prefácio da Missa de Cristo Rei). O reino de Deus, portanto, é a realização inequívoca da justiça, do amor e da paz, que não se alcançam plenamente neste mundo. Não seria pensável que o ódio e a violência, a maldade e a injustiça, a prepotência e a falsidade tivessem a última palavra sobre nossa existência!

O reino de Deus torna-se presente já neste mundo quando acontece a luta e a vitória contra o “antirreino”; Jesus ensinou: “o reino de Deus já está no meio de vós”, e que ainda “sofre violência” e até mesmo rejeição. Portanto, esta vida é o tempo de acolher o reino de Cristo e de Deus, aderindo aos bens e valores do reino de Deus. Aqui se decide a sorte do grande julgamento final.

Artigo publicado no Jornal O SÃO PAULO – Edição 3029 – 26 de novembro a 2 de dezembro de 2014

Cardeal Odilo Pedro Scherer, Arcebispo de São Paulo e Presidente do Regional Su l1 da CNBB

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