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Quaresma, tempo de graça e salvação

Desde o dia 18 de fevereiro, Quarta-feira   de  Cinzas,   estamos   vivendo  o  tempo  quaresmal.   Que significado  tem  a  Quaresma  e que apelos ela trás para o fiel?
A palavra quaresma está ligada a ideia de quarenta dias. Por volta do ano 350 d. C. os cristãos estenderam para quarenta dias a preparação para a celebração da Páscoa do Senhor. Surgia assim a chamada Quadragésima, que em português significa Quaresma.

Por que o número 40? Entre os muitos significados que os antigos  davam  ao número 40, um nos interessa de modo particular: o de indicar o período de preparação (mais ou menos longo) em vista de um grande acontecimento. Por exemplo, no Antigo Testamento: o dilúvio durou 40 dias e 40 noites, e foi a preparação para uma nova Humanidade (cf. Gn 7, 17s); 40 anos passou o povo de Israel no deserto, preparando-se para a entrada na terra prometida; por 40 dias fizeram penitência os habitantes de Nínive, antes de receber o perdão de Deus (cf. Jn 3);  40 dias e 40 noites caminhou Elias, até alcançar a montanha de Deus (cf. 1Rs 19, 8); no Novo Testamento, por 40 dias e 40 noites jejuou Jesus, como preparação para sua missão (cf. Mt 4, 2; Mc 1, 13; Lc 4, 2). Seguindo o pensamento bíblico, a nossa Quaresma significa um tempo especial de preparação para o maior acontecimento do cristianismo, ou seja, a celebração da Paixão, Morte e Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Desde os tempos antigos, a Quaresma foi considerada um período de renovação da própria vida. O Papa Francisco inicia sua mensagem para esta Quaresma, dizendo: “Tempo de renovação para a Igreja, para as comunidades e para cada um dos fiéis, a Quaresma é sobretudo um ‘tempo favorável’ de graça (cf. 2 Cor 6, 2)”. Ela representa para todos nós a ocasião propícia para uma profunda revisão de vida. No mundo atual, ao lado de generosas testemunhas do Evangelho, não faltam batizados que, perante o apelo do seguimento de Jesus Cristo, assumem uma atitude de resistência surda e por vezes também de aberta rebelião. São situações em que a experiência da oração é vivida de maneira bastante superficial, de forma que a Palavra de Deus não incide  na vida  e no comportamento diário.  O  próprio  sacramento   da   Penitência é considerado, por muitos, insignificante  e  a  Missa  dominical   apenas um dever que se deve cumprir.

De  que  maneira  realizar   uma   séria mudança de vida? Eis um questionamento  importante  para  se viver  bem  este  tempo  forte     do   Ano  Litúrgico.  Em primeiro lugar, é preciso abrir  o  coração  às  mensagens   comovedoras da  liturgia;   é  preciso também dedicar-se a uma oração mais  profunda.  O período  que nos prepara para a Páscoa representa um providencial  dom do Senhor  e uma preciosa   possibilidade    para   se   aproximar   d’Ele,  e   colocar-se  à   escuta da sua Palavra.

Há  cristãos  que  pensam   que  podem  dispensar   este    constante  esforço espiritual, porque não sentem a urgência  de  se confrontarem com a verdade do Evangelho. Eles procuram esvaziar e tornar inofensivas, para que não  perturbem o seu modo de viver, palavras como:   “Amai   os  vossos inimigos  e  fazei  bem  aos  que vos odeiam” (Lc 6, 27). Estas  palavras,  para  estas pessoas, ressoam, como nunca,  difíceis  de  serem aceitas  e  praticadas  em  coerentes comportamentos de vida. De fato, são palavras que, se forem tomadas a sério, obrigam a uma conversão radical. Ao contrário, quando somos ofendidos e feridos, a tentação  é  ceder  aos  mecanismos psicológicos  da compaixão de si mesmo e da vingança, ignorando o convite de  Jesus  a amar o próprio inimigo. Contudo, as vicissitudes humanas de cada dia põem em relevo, com grande evidência, o modo como o perdão e a reconciliação sejam irrenunciáveis para realizar uma real renovação pessoal e social. Isto é válido tanto nas relações interpessoais, como nas relações entre comunidades.

O  Papa Bento XVI iniciava sua mensagem  quaresmal do ano de 2006, dizendo: “A Quaresma é o tempo privilegiado da peregrinação interior até Àquele que é a fonte da misericórdia. Nesta peregrinação, Ele próprio nos acompanha  através do deserto da nossa pobreza, amparando-nos no caminho que leva à alegria intensa da Páscoa”.

Aproveitemos esta Quaresma para uma peregrinação interior, uma oração mais profunda, uma escuta mais atenta e  dócil  da  Palavra  de  Deus,  um maior  esforço   de   conversão   do   coração e uma vivência mais concreta da  caridade;  desta forma,   faremos uma boa preparação  para  celebrar  a  Páscoa  do Senhor.

 Por Dom Moacir Silva, Arcebispo Metropolitano

 

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