Comissões Episcopais Pastorais

Viagem Missionária ao Baixo Rio Branco

projeto_reduzidoApós concluir sua missão na Amazônia pelo Projeto Missionário dos Regionais da CNBB Sul 1 – Norte 1, a missionária leiga Maria Soares de Camargo, aposentada como assistente social e também professora da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Campinas (SP), relata sua experiência na região do Baixo Rio Branco em Roraima. Nessa região, durante três anos de caminhada, a professora e assistente social visitou sete vilas ribeirinhas às margens dos rios Branco, Amajaú, Xeuirini e Jauaperi.

Segundo a missionária, a diocese de Roraima foi favorecida pela missão prolongada realizada na região do Baixo Rio Branco, onde tradicionalmente a assistência religiosa acontece apenas três vezes por ano, mediante a passagem de um barco com missionários residentes em Caracaraí, oriundos da Arquidiocese de Brasília. O barco percorre, durante três ou quatro semanas, as mais de 20 vilas ribeirinhas, celebrando a eucaristia e batizando as crianças.

De agosto a outubro de 2012, uma equipe composta pelo presbítero Fabrício Araujo dos Santos, por Irmã Marisa Souza Rocha, ssf e por Maria Soares de Camargo, missionária leiga, permaneceu naquela região, percorrendo sete vilas situadas às margens dos rios Branco, Amajaú, Xeuirini e Juaperi. A maior dessas vilas é Santa Maria do Boiaçu, com pouco mais de 700 habitantes, segundo a estimativa atual. Conta com um pequeno hospital regional, desaparelhado e com apenas um médico, além de serviços de enfermagem. O prédio escolar serve a cursos municipais e estaduais; e a única escola do Baixo Rio Branco que oferece o ensino médio aos jovens ribeirinhos roraimenses. De igual modo, serve à toda a região o efetivo da Polícia Militar, com apenas dois policiais.

Farinha de cada dia – A missionária encontrou várias várias igrejas evangélicas: Batista, Assembleia de Deus, Mundial do Poder de Deus e também uma igreja Adventista. A capela católica é bem construída, embora mal conservada. Situada à beira do rio, tem o acesso dificultado pelo excesso de lama em época de chuvas. Agrega número significativo de pessoas apenas em maio, quando do tradicional festejo, que atrai menos pelo religioso e mais pelo torneio de futebol e atividades recreativas do arraial, com bailes e concurso de boneca viva. A comunidade compõe-se de algumas famílias e se reúne regularmente na manhã do domingo para a celebração da palavra.

Foi a comunidade que conseguiu a cessão de uma casa para alojar a equipe missionária. Esta estabeleceu relações amistosas e fraternas com a vizinhança, sobretudo com as crianças. Uma atividade que agradou bastante foram as aulas de violão ministradas por Padre Fabrício, que, a partir dessa experiência, fez o mesmo nas vilas seguintes.

Durante a missão, foi oferecida formação bíblica e litúrgica, além de catequese para adultos e crianças. Várias reuniões e contatos ensejaram a constituição de uma equipe de coordenação da comunidade, composta por quatro pessoas empenhadas em dinamizar as celebrações e reestruturar o festejo. 

Durante a permanência em Santa Maria, a vila de Sacaí, distante cerca de duas horas, recebeu semanalmente a visita dos missionários. Os contatos foram bons e cordiais. A eucaristia foi celebrada por duas vezes, mas não foi ainda possível a organização da comunidade. Além de pouco numerosos, dentre os católicos não havia ninguém com disposição e mesmo capacitação para o exercício do ministério da coordenação e da palavra. A pequena capela, quase em ruínas, só é aberta quando da passagem da equipe missionária de Caracaraí.

Diferentemente de Santa Maria, onde a economia depende em grande parte da renda dos funcionários públicos, Sacaí é uma vila de pescadores e agricultores. Tal é o perfil da maioria das localidades ribeirinhas, cuja maior fonte de renda é o peixe, uma vez que a rudimentar agricultura restringe-se à “roça”, assim denominado o cultivo da mandioca e macaxeira, sobretudo para a indispensável farinha de cada dia. Plantam um pouco de banana e colhem variados frutos silvestres, além de caçar pequenos animais para obter alguma carne e variar do constante cardápio de peixe.

No rio Amajaú, a Diocese de Roraima possui, na Vila Cachoeirinha, uma casa relativamente grande, com um enorme quintal plantado com palmeiras de açaí. Nela a equipe passou um mês e propôs atividades litúrgicas e catequéticas, como de costume. Porém, ali ocorreu uma grande novidade: três casais prepararam-se para receber solenemente o sacramento do matrimônio, seguido de grande e alegre festa comunitária. Outro fato importante foi a visita do bispo Dom Roque Paloschi. Ele passou três dias em Cachoeirinha, durante os quais, entre outros, ministrou o sacramento do Crisma a nove jovens e adultos.

Precariedade na saúde – Nessa vila de 48 famílias, a equipe missionária pôde constatar a precariedade da situação da saúde na região. O pequeno Posto de Saúde permanece fechado por falta de condições de uso. Os medicamentos ficam na casa da única agente de saúde, esposa do diretor da escola, que, segundo alguns moradores, não é procurada por não ter formação adequada. Além disso, os remédios mais requisitados não são encontrados. Duas vezes por ano, um barco equipado deve passar pela vila e oferecer atendimento médico e dentário geral e especializado. Em 2012, passou apenas uma vez, no mês de setembro, lá ficando aportado somente durante três horas. Foi anunciado um antes por agentes de saúde, que percorreram as casas avisando sobre a chegada de diversos especialista e a oferta de um rol de exames. As consultas foram realizadas ao ar livre, no barracão anexo à igreja católica denominado “Sede”. A equipe missionária pode presenciar a negligência dos profissionais de saúde no atendimento aos comunitários, com consultas médicas-“relâmpago” e extração de dentes prescindindo das mínimas condições higiênicas.  Talvez a única atividade satisfatória tenha sido a vacinação e pesagem de crianças. Várias famílias, no entanto, quando chegaram à Sede, souberam que o barco já havia ido embora.

Durante o mesmo mês de setembro, dois membros da comunidade católica de Cachoeirinha necessitaram de cuidados especiais. Uma adolescente de 14 anos desmaiou e passou mal, sendo levada pelo administrador da vila ao hospital de Santa Maria. Lá foi internada para tomar soro e, logo após, recambiada a Cachoeirinha. No dia seguinte, voltou a desmaiar, tendo sido então levada até Caracaraí, onde permaneceu internada por quase um mês. O outro caso aconteceu com um pescador que machucou gravemente o peito numa queda, dentro de seu barco. O osso externo estava visivelmente afetado. Ele não dispunha de recursos para chegar até Santa Maria, menos ainda a Caracaraí. Permaneceu sem atendimento, em repouso, tendo talvez recorrido a alguma prática tradicional. Porém, sentiu dores fortes por bastante tempo e perdeu muitos dias de trabalho.

A atividade católica mais tradicional e importante no Baixo Rio Branco roraimense é o festejo de São Francisco das Chagas, que ocorre em dois locais: Lago Grande, no rio Xeiurini, e Paricá, no rio Jupari. Em Lago Grande, o festejo de 2012 foi adiantado em virtude das eleições municipais. O clima, entretanto, era de apreensão, uma vez que a vila estava sem luz e água encanada há mais de um mês em razão de um problema no gerador. Este chegou exatamente no dia da abertura do festejo, depois de muitas dificuldades.

Futebol, baile e procissão – A presença do padre havia sido anunciada anteriormente e constava dos cartazes de propaganda, mas a pequena vila, com apenas 12 famílias, não dispunha de lugar para alojar a equipe missionária. Finalmente, uma líder comunitária cedeu um barco, sem luz elétrica e água encanada, de acesso dificultado pela lama viscosa que se alastrava com a inclemência da chuva sobre a região.  O festejo reuniu menos pessoas do que de costume, segundo os moradores. As atividades religiosas: celebrações, catequese, primeira eucaristia e santa missa foram participadas praticamente apenas por membros das cinco famílias católicas de Lago Grande. As demais famílias frequentam a Assembleia de Deus, coordenada pelo antigo catequista católico, atual administrador de Lago Grande.

O segundo festejo ocorreu em Paricá, onde não habita ninguém, já há alguns anos. Antigamente, era uma vila de pescadores como as demais, mas, em razão de uma graça recebida, um morador fez erigir uma capela dedicada a São Francisco das Chagas e prometeu realizar anualmente o festejo, enquanto vida tivesse. Depois de sua morte, outros devotos continuaram a devoção, e mesmo depois da vila se ter esvaziado, no início de outubro recebe barcos de variadas procedências, embora a maior parte das famílias seja oriunda da vila próxima de Caicubi.

O tríduo preparatório reuniu muita gente, tendo tido como ponto alto uma palestra sobre a vida de São Francisco. Vários devotos confessaram ignorar praticamente tudo a respeito do santo. No próprio dia 4 de outubro, a multidão se reuniu para a tradicional procissão, no curso da qual se rezou o terço, tendo o padre feito pequenas prédicas em três paragens. Apesar do torneio de futebol e o baile serem grandes atrações, a procissão reuniu a todos, inclusive os atletas, vencedores e perdedores.

 

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