Morte é assunto “tabu” em nossa cultura, desfaz qualquer roda de conversa. Precisamos, porém, falar do morrer e do luto, este último, durante a pandemia, não está sendo possível realizar como se deveria, mas que, assim como a própria morte, faz parte da vida. Como indicava o escritor G. Lapouge, “desde a infância da humanidade, os funerais são um dos sinais que separam os animais dos homens”.Nossa sociedade censura a morte silenciando sobre ela. Para o homem moderno com a tecnologia avançada, inteligência artificial, a morte deve ser a grande ausente. É permitido somente ao homem pré-moderno falar da morte como um evento pessoal. Contudo, os meios de comunicação de massa somente falam da morte como espetáculo, algo que atinge os outros, os estranhos e não a mim.A morte é censurada por estragar o projeto hedonista de prazer ilimitado e a necessidade de felicidade absoluta. O silêncio sobre a morte se faz porque ela, agora, está dessacralizada, não acontece na presença das outras pessoas. Não tem papel social, é algo pessoal que deve se passar na esfera privada. Enfim, a negação da morte é fruto da euforia da técnica na sociedade atual, técnica que resolve todos os problemas… menos este.A tentativa, porém, de negar e esconder a morte não obtém sucesso. A pandemia trouxe à tona sua dura realidade. Para qualquer pessoa individualmente, ela continua sendo ameaça, mesmo quando inconfessável. A crise sanitária atual nos coloca diante da morte. Vamos compreendendo nossa finitude, coletiva e pessoal. É dramático, desagradável, mas necessário falar da morte e do morrer, do humano sofrer e do sepultamento dos mortos, com a dignidade que merecem.Os ritos profanos e religiosos do corpo presente, que duravam em média 24 horas e que se inserem no dever de honrar os mortos e sepultá-los, já não estão podendo ser celebrados. Nos velórios ocorrem momentos decisivos para os familiares processarem o luto. Enterrar os mortos com dignidade é agradecer a vida que tiveram entre nós. É um dever e uma honra.
A falta de celebrar o luto é prejudicial às pessoas. Ver o corpo do falecido é de fundamental importância para o trabalho psicológico do luto. Assim, se incorpora a imagem do morto à memória dele vivo, integrando nos que ficam, a completude daquela vida. A lembrança do defunto quando vivo sem a lembrança dele morto, faz tudo parecer absurdo, irreal. Fica um vazio, como de algo inacabado. A energia afetiva de cada um se revolta contra esta realidade absurda. Para a realização do trabalho interior do luto é fundamental que o inconsciente e o consciente possam contar com a imagem do morto.
Para muitos o velório e as exéquias não servem para nada. É tempo perdido de jogar conversa fora e atrasar o enterro. Atrapalha o ritmo normal das coisas. Se o tempo perdido, excepcionalmente por alguns, na celebração das exéquias já parece absurdo, o que diriam do tempo consagrado a este serviço pelos sacerdotes e ministros das exéquias? Neste tempo de pandemia os padres e ministros da Igreja Católica tem prestado um grande conforto às famílias, muitos se arriscando para orar e “encomendar” os mortos, um derradeiro conforto dado pela fé, diante da perda irreparável.
Se numa sociedade do “descartável”, como a chama o papa Francisco, os idosos e doentes devem ser descartáveis, que se dirá dos mortos? Do modo como caminhamos, Deus nos livre, mas se chegará à cremação para os corpos dos ricos e o aterro sanitário para os pobres. É preciso respeitar os mortos! Os cemitérios às vezes mal cuidados, assaltados, parecem rodoviárias com bares, lanchonetes, circulação intensa e salas inadequadas com acústica imprópria para celebrações.
Na fé cristã sabe-se que a vida não é tirada, mas transformada, pois, não morremos, entramos na vida definitiva. Somente saberemos viver bem se soubermos encarar a morte de frente, como Jesus Cristo o fez. Morrendo na cruz ele destruiu a morte e deu-nos a vida que dura para sempre. Ele mesmo disse: “Se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica só. Mas se morrer, produz muito fruto” (Jo 12, 24).
*Artigo de Dom Pedro Carlos Cipollini, bispo diocesano de Santo André