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Papa convoca para o Ano da Fé

“O Ano da Fé nasce da percepção de que há uma crise de fé em nosso mundo que atinge também, e fortemente, os cristãos”. Essa crise assim vem descrita: “Enquanto, no passado, era possível reconhecer um tecido cultural unitário, amplamente compartilhado no seu apelo aos conteúdos da fé e aos valores por ela inspirados, hoje parece que já não é assim em grandes setores da sociedade devido a uma profunda crise de fé que atingiu muitas pessoas”(PF, n. 2).

Elencamos alguns fatores que explicam essa crise:
1. Os filhos, mais numerosos que hoje, viviam a maior parte no tempo sob a influência da família e todas as famílias eram mais ou menos iguais no que diz respeito à religião e aos costumes. Hoje os filhos passam a maior parte do tempo sob a influência de outras instâncias e têm contato permanente com formas de pensar e de viver diferentes daquelas de sua própria família.Tornou-se freqüente que pais cristãos se queixem de que seus filhos não os acompanham mais na prática da própria religião. Há espaços sociais e culturais que estão absolutamente fora do controle familiar onde alternativas outras, muitas vezes opostas, de como viver exercem forte influência nas novas gerações. Acrescente-se a essa mudança o espaço das redes sociais onde tudo se discute, onde se comunicam as mais variadas experiências e onde se contestam os valores tradicionais que teceram as relações sociais no regime de cristandade.

2. A industrialização, com o acelerado e desordenado processo de urbanização, quebrou a unidade cultural religiosa que caracterizava a sociedade de tipo rural. A migração para os centros urbanos trouxe insegurança para a população acostumada ao ritmo lento da vida rural, gerando também os problemas de desemprego e os bolsões de pobreza com conseqüente desestruturação da vida familiar, propiciando o desenvolvimento do comércio das drogas, verdadeiro flagelo social. Nesse contexto, a perda das raízes cristãs-católicas por parte de muitos e a necessidade de encontrar solução para as angústias emergentes de um contexto de anomia sociocultural abriram espaço para as mais variadas propostas religiosas vistas como resposta para as próprias aflições. Multiplicaram-se os grupos religiosos onde de certa forma as pessoas, nessa situação, encontram abrigo, segurança e orientação para suas vidas.

3. Uma cultura global, gestada pelo sonho de uma felicidade fácil, a ser concretizada pelo acesso aos bens de consumo, e um conceito de liberdade como possibilidade de satisfazer a todos os desejos, substitui a noção de ideal que exija dedicação, espírito de sacrifício e a procura de uma vida virtuosa bem como o empenho na construção de um mundo melhor para todos. Nesse contexto se tornam difíceis as opções definitivas de entrega da própria vida a uma causa ou a um ideal onde o bem do outro ou o bem de todos seja a razão do próprio viver. A felicidade não está em encontrar uma verdade que dê sentido à totalidade da existência e, portanto, ao viver e ao morrer; a felicidade consiste em viver com intensidade prazerosa o momento. Dispensa-se a questão do sentido e fica abolido qualquer tipo de escatologia, individual ou coletiva.

4. Nesse contexto o Santo Padre chama a atenção para o fato de que muitos cristãos se preocupam mais com “as consequências sociais, culturais e políticas da fé do que com a própria fé, considerando esta como um pressuposto óbvio da sua vida diária”. É preciso observar que o Santo Padre não nega a importância dessa preocupação que, aliás, na América Latina, ocupou amplo espaço no pensamento teológico e exerceu forte influência em nossas práticas pastorais. Sua constatação é que chegamos a um ponto em que o pressuposto – a fé viva – que deve sustentar a prática cristã no mundo da cultura e da política vem se esvaziando progressivamente. De fato, fazemos o discurso sobre a necessidade de uma cultura onde se valorize a dignidade da pessoa e de uma prática política que valorize a vida e procure o bem comum e nos deparamos com uma prática completamente alheia aos princípios do evangelho. Não temos cristãos suficientemente formados e comprometidos com o evangelho no mundo da profissão, das artes, das ciências e da política.

No Sínodo dos bispos, recentemente realizado no Vaticano, o Card. Péter Erdö, primaz da Hungria, falando sobre a Europa, ressaltou a “perda da memória da herança cristã” nesse continente, com a consequente descristianização galopante, seguida de hostilidade e de violência contra os cristãos em quase todos os países! Referiu-se aos “direitos humanos de terceira e quarta geração… que já não possuem laços com a visão humana e cristã do mundo nem com a moralidade objetiva expressa nas categorias do direito natural”. A crise de fé gira em torno da questão de Deus: sua existência e sua relação com o mundo. (continua).

Por Dom Eduardo Benes de Sales Rodrigues, Arcebispo de Sorocaba (SP)

 

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